14 de março de 2005

Confrarias de artes e ofícios

O país tem desde sábado passado, segundo me disseram, um novo governo. Para aí o 847º desde a proclamação da independência, excluindo os períodos de ocupação dos Filipes e das guerras miguelistas. É claro que depois de tantas equipas ninguém espera que o capitão conduza esta à vitória, inspire um novo poema épico como Os Lusíadas ou evite a primeira decisão sensata tomada no Largo do Caldas nos últimos trinta anos, empacotando o retrato do professor Freitas do Amaral e expedindo-o pelos correios como se fosse uma encomenda-bomba.

Mas, de qualquer modo, fica bem prometer muitas coisas sem nenhum custo, desde o paraíso pejado de virgens às dezenas esperando pela sua primeira vez até à felicidade plena, ao emprego bem remunerado para todos, ainda por cima com isenção total de impostos. Sendo assim parece que no discurso de posse o novo primeiro-ministro prometeu colocar os medicamentos de venda livre noutros locais além das farmácias e realizar um referendo sobre a constituição europeia - que ninguém sabe o que é! - conjuntamente com as eleições autárquicas do próximo mês de Outubro.

Caiu o Carmo e a trindade e se mais não caiu foi porque mais nada havia para cair. Sobre a hipótese da aspirina ser vendida na tradicional mercearia da esquina ou sobre a possibilidade de adquirir supositórios para a tosse num posto de abastecimento de combustíveis, logo formaram as diversas confrarias das artes e ofícios, marchando com destino ao largo dos ferradores e integrando mercadores, correeiros, caldeireiros, almocreves e farmacêuticos.

Pela primeira vez em tantos governos conforta sentir que a corporação dos farmacêuticos está, desinteressadamente, ao serviço da comunidade, dos doentes e daqueles que nem dinheiro têm para comprar as batatas na mercearia e que não precisam da gasolina de 98 octanas para nada. Tanto estávamos habituados a ver um alvará para a abertura de uma farmácia como um passaporte para a fortuna que nunca lhe antecipámos o mecenato e a filantropia. Mas tem a corporação que perceber que a globalização é isto tudo, mais as opiniões do Dr. Garcia Pereira e a viagens do professor Boaventura à volta do mundo, viajando em classe executiva, a bem da extinção da pobreza e da subnutrição infantil em África.

Os correios, por exemplo, passaram a vender selos como um produto residual e é para ocupar pessoal velho e excedentário que ainda transportam e distribuem correspondências, mal, pelo domicílio. De forma mais moderna passaram a servir cafés e a vender intragáveis queques prefabricados, a divulgar a erudita literatura da D. Margarida Rebelo Pinto e a promover provas pedestres para ministros e presidentes da república. Enquanto encaram a possibilidade de admitir licenciados politicamente competentes que possam promover o negócio dos detergentes para a louça e do papal higiénico para o evidente. Ao mesmo tempo que publicam anúncios de página inteira nos jornais diários ,onde se afirmam como os melhores do mundo que vai da Rua de S. José ao Largo da Anunciada.

1 Comentários:

Às 9:25 da tarde , Blogger rajodoas disse...

Aplaudi a medida anunciada sobretudo porque irá traduzir-se numa vantagem para todos os consumidores que passarão a ter acesso ao medicamentos de venda livre a preços mais módicos
e contrariamente ao argumento falacio
so apresentado pelo presidente da corporação, nenhum português correrá qualquer risco porque não se irá sobredosar pelo facto de passar a poder comprar aspirinas mais baratas.

 

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