Novo acordo ortográfico

Pela mesma época um indescritível escrevedor de prosas bárbaras, cujo nome o tempo e a memória me levaram, estaria de acordo com o ainda vigente Dr Salazar em tudo, exceto no essencial: não lhe tolerava a convicção democrática que o levava até a ter uma união nacional e uma câmara corporativa. Quando o ideal seria um sistema, democrático sim, mas em que apenas o Dr Salazar pudesse votar e representar os milhões de portugueses que se espalhavam pelas ruas da miséria e pelas fossas da Europa.
Assim também com a paródia que vai sendo o novo acordo ortográfico, com apoiantes e desapoiantes, como num qualquer futebolístico Porto – Benfica. O que vai alimentando a divergência e a dúvida sobre se devem ou não trocar-se os bês pelos vês e onde. Nos escombros do bairro do Aleixo ou do Casal Ventoso? Haja Deus, que deu ao país e ao sistema solar, o Dr Graça Moura. Laureado poeta, competente tradutor de pronúncia irreprensível, incontornável parlamentar nas horas vagas e, agora, mandador do bailarico que vai no centro comercial de Belém.
E que, mal chegado, mandou às malvas, depois de enxotar as moscas, todas as muitas reuniões e contratos que sobre o assunto um governo, no patamar da puberdade, tinha assinado e decretado que entrasse em vigor. Determinando apenas que se não utilizasse, decisão sapiente e soberana, que terá sido apoiada pelos contínuos do ministério e pelos estafetas da presidência. De forma que farmácia se escreve com “ph” como nunca deveria ter deixado de ser. Pharmácia, a ver se desce o preço do óleo de linhaça!


A senhora aqui ao lado é a ministra da saúde de um ministério mais que defunto e mal cheiroso. Mas podia, mesmo que apenas uma vez por outra, manifestar alguma sensatez. Mesmo que isso, politicamente, prejudicasse o seu perfil para o cargo e para as boas graças do grupo Melo. Devolvendo-a às ruínas de um consultório num qualquer centro de saúde, a prescrever medicamentos genéricos para a caspa e para o enriquecimento do dono da Associação das Farmácias.
