4 de julho de 2019

Cartão de cidadão


O meu Cartão de cidadão caduca a 29 de Agosto próximo. Depois de ter visto a questão da sua renovação ser tema de abertura de trinta telejornais e de saber que as pessoas iam de véspera para a porta das repartições, como se vai para comprar um bilhete para o estádio da Luz quando lá vai jogar o Gil Vicente, achei por bem acautelar-me e tratar do assunto com antecedência. Informei-me onde poderia tratar do assunto e na quarta-feira, dia 26 de Junho, na parte da manhã, dirigi-me a um cartório notarial de competência especializada. Como era de esperar, correu mal. Uma simpática e diligente funcionária veio atender-me ao balcão, numa sala absolutamente às moscas. Não estamos a fazer esse serviço, não temos sistema informático. Mas tenho informações de que a avaria é geral e não se prevê que seja resolvida hoje.


Com bom português, desconfiei. Porque ser português é isso mesmo, desconfiar do governo, da oposição, dos árbitros, da Câmara e da junta de freguesia. E fui a outro lado, onde nem chegou a correr, nem mal, nem bem. A maquineta que distribui uns papelinhos para evitar a formatura militar da bicha lá tinha, bem visível, o aviso: serviço do cartão do cidadão suspenso por razões técnicas. No caminho aproveitei e tomei um cimbalino – que maravilha de vocábulo, carago! -  num café modesto e voltei ao primeiro local. Poderia a ministra ter exorbitado das suas competências, ameaçado um qualquer amanuense, e ter resolvido a questão do sistema informático. Voltou a correr mal e a simpática funcionária, sem haver sistema, estava de saída para a sopa do almoço.

No dia seguinte descansei e deixei que o sistema pudesse regressar, com calma, sem pressas e que o drama do cartão de cidadão continuasse a abrir telejornais e a fazer abanar as orelhas ao senhor Rodrigues dos Santos, aquele que aos fins de semana escreve livros sobre os governadores e as suas amantes. Mas voltei na sexta-feira, dia 28. Pelos vistos o sistema informático recuperara dos cuidados intensivos. Havia uma pessoa a ser atendida e outra à espera, sentadinha numa cadeira. Aproveitei e sentei-me ao lado, folheando o jornal que, previdente, levara comigo. No máximo meia hora depois estava na rua, com o pedido de renovação feito e pagas as taxas correspondentes, no valor de 18 euros.

Vocês não vão acreditar e têm toda a razão. O português - se de facto vocês são portugueses de pendurar a bandeira nacional na varanda quando o Ronaldo vai à Madeira! - duvida de tudo. Desconfia do governo, da oposição, dos árbitros, da Câmara e da junta de freguesia. Mas hoje, dia 4 de Julho, ao sexto dia depois de ter ido tratar dele, tinha na caixa de correio a cartinha cheia de dobras e de códigos para ir levantar o meu novo Cartão de cidadão. Quer dizer, amanhã, quando se completa uma semana sobre a data em que foi pedido, posso ir levantá-lo.

Só espero que a notícia não corra rua abaixo. Porque certamente a ministra cai, o primeiro-ministro volta a Bruxelas para aquelas profícuas reuniões de dezenas de horas e o doutor Rio há-de vir ao meu encontro a insultar-me em alemão. Para eu lhe responder em umbundo. Mas registem porque vale a pena. O meu Cartão de cidadão demorou meia hora a pedir e menos de uma semana a chegar. Onde tratei dele? Pois bem, no 1º Cartório Notarial de Competência Especializada do Porto. Um serviço que eu até desconhecia!


6 de junho de 2019

No 75º aniversário do dia D


Não teria sido necessário que houvesse um dia d
E seis de junho de mil novecentos e quarenta e quatro
Teria sido apenas um dia no calendário
Talvez com um sol brilhante varrendo a normandia
A anunciar a chegada do verão próximo
Não teria havido desembarque nenhum
E o mar estaria raso estendendo a espuma branca pela praia
Aguardando a instalação dos equipamentos para o veraneio
Ao longo daquela extensão de alguns oitenta quilómetros
Não teriam sido necessários milhares de aviões
Nem centenas de navios e milhares de barcos
E menos ainda mais de cento e cinquenta mil homens
Sem bolso para um mapa que lhes indicasse o caminho
Nem fé num deus que lhes prometesse o regresso a casa
E aos braços das suas jovens e ávidas mulheres
Em vez disso serviram-lhes um pequeno-almoço de madrugada
A que não faltaram nem as compotas nem a substância
Como se fossem condenados destinados ao cadafalso
E à morte nas águas frias e revoltas do atlântico
Com força suficiente para espalhar os mortos
Pela areia encharcada das praias
Como banhistas temporãos que não tivessem tempo de esperar pelo dia
Nem pelo sol do verão próximo
Ninguém terá contado os mortos um a um
Com o rigor que se exige à contagem das moedas nas caixas registadoras
Mas ficou a certeza de que foram muitos milhares
Tragados pelas águas frias da madrugada
Ou triturados pelo gume letal da metralha que toldou os anos em volta



Todo este tempo passado sobre aquele dia
Poucos são já os velhos que ainda sobrevivem
Curvados sob o peso das medalhas e das honras
Que lhes penduraram ao peito durante todos estes anos
E que apoiados a bengalas vão às cerimónias oficiais
Como se fossem ser expostos no museu do louvre
Nenhum deles sabendo se ainda voltará
Para as solenidades do ano que vem
Embora sabendo desde sempre
Que foram a guerra e a morte que os trouxeram até aqui
Com medalhas penduradas ao peito
E uma corrente de lágrimas escorrendo-lhes por dentro
Como evidência de que a guerra não tem vencedores definitivos
E de que a uma vida se opõe sempre uma morte
De um qualquer semelhante a nós
Que saiu na madrugada de um dia d qualquer
Para nunca mais ter nos olhos a ternura cândida dos filhos

Da guerra não ficaram apenas os mortos nas praias da normandia
Mas ainda os milhões que se enterraram pelos cemitérios da europa
Os que se cremaram nos fornos dos campos de concentração
Os que a neve soterrou às portas das cidades russas
Os que foram arrasados com os edifícios de hiroshima e nagasáqui
E todos aqueles cujo paradeiro nunca foi determinado
Para que as suas famílias se pudessem conformar com a tragédia
E chorar a dúvida e o infortúnio
E ficam ainda todos os que vieram depois da normandia
Da koreia ao vietname
Do afeganistão às verdes colinas de áfrica
Dos lugares sagrados da palestina
Aos lugares mais recônditos das terras do fim do mundo
Das margens do mar adriático
Aos contrafortes dos planaltos andinos
Ao som de poemas de amor e de canções desesperadas
E de um extenso cortejo de fome e de indignidade
A que falta a sorte simples de um pão e de uma caneca de água para beber

E sobramos nós todos vencidos e inúteis
Com mais de setenta e cinco anos de caminho
Fabricando armas e bolsas de valores
Fazendo guerras e fortunas obscenas
E olhando para milhões de vivos como se não existissem
Como se fossem mortos sem nome
Como se não revirassem o lixo à procura de restos putrefactos
Que lhes alimentem a ilusão de sobreviverem e de estarem vivos
Num qualquer canto onde o sol possa nascer numa manhã destas
[Duas referências, por gratidão e pelo uso de duas expressões: - a Ernest Hemingway, "As verdes colinas de África"; - a Pablo Neruda, "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada".]



25 de maio de 2019

África


Aprendi os meus passos
Nos caminhos do teu corpo
E as minhas palavras na liberdade dos teus pássaros
Ganhei a minha sede no tamanho das tuas anharas
Para depois a afogar no leito dos teus rios
Adormeci sob a cintilação das tuas estrelas
Penduradas na comunidade de um céu quieto
Ganhei distância na imensidão das tuas savanas
Tirei visgo da mulemba atrás da casa
Para caçar bicos de lacre nos segredos do capim
Cavei pau-cesse para fazer casa para passarinho
Apanhei grilo só para lhe ouvir cantar
E aprendi tuas músicas no fim da manhã
Quando a água vermelha da chuva corria nas valetas
E as quitandeiras subiam do kussava
Embrulhadas nos seus panos pintados
Os monas pequenos amarrados nas costas
Gritando as falas delas
É o gimorango gimorangué
Só meia cinco minha sinhora
Saiu mesmo agora dos lugar deles
Nem precisa pôr açúcar
É só lavar na água e lhes comer
Faz favor arranja um bocado de pão
Para a fome do monaiangue
Nome dele é francisco como o menino da loja
Que tem lá no kimbo quase quando chega no kewe
Onde o salalé adianta voar depois da chuva
E perder as asas dele no chão todo molhado
Anda compra tudo e vou já mimbora
Adiantar um bocado de pirão para os mais maiores
Que ficaram lá nem nada de comer
E um matete para o mona
Sempre a chorar a fome dele em cima das minhas costas
É assim a vida dos pretos


O bairro era uma rua de terra
Que chegava do kussava até na cidade
Os passeios também de terra
As casas de adobe
Lá dentro o canto para acender o fogo
Quando o tempo traz a chuva dele
E o cimento no chão
Às vezes não
Sempre muito de manhã
O senhor pacheco a passar em cima da motorizada dele
Acordando as pessoas e espantando as galinhas
O senhor loução carregando os barris vazios
Em cima do camião fargo
Deve estar mesmo mesmo
Para ir lá longe nas caçadas dele
Secar a carne e as peles dos bichos
E voltar sei lá quando
A barba grande
A camisa toda rota
As calças sujas igual com as botas

A carne pendurada na corda da roupa
As peles a lhes levarem na fábrica do mau cheiro
Para saírem uafina para fazer sapatos
Para o dinheiro dos brancos
A seguir a igreja ainda que não está pronta
Toda feita do tijolo que veio no camião
Uma parte mais alta do que um saparalo
Diz é para por o sino
Para avisar para a missa como na missão do canhe
E até às vezes eu já vi a menina do senhor loução
Vai namorar lá dentro
E depois volta para casa
Quando começa de ficar escuro

Quando cheguei à idade de sete anos
E fiquei maior do que o milho antes de ganhar maçaroca
Adiantei vestir meia branca e calçar sapato
E me levaram na escola setenta não sei quantos
Onde a dona maria não sei quê
Me mandou sentar na carteira
Ficar calado
E fazer com devagarinho as letras do aeiou
Nem lembro mais se tinha um preto lá dentro
Todos que tínhamos a bata branca vestida
E os miúdos sem tempo por causa de ir na padaria
Buscar o pão para o matabicho

Só mais velho veio o zé entrar na minha vida
E me ensinar o umbundo que não aprendi com a lavadeira
Até mesmo aquelas asneiras todas que não pode falar
Quando a sinhora está ali para ouvir
E isso tudo eu sabia lá se era áfrica se era o quê
Era só a nossa vida
Brincando no meio do capim
Eu branco e o zé preto
E os dois sem tempo para ver nada disso
Ocupados a fazer as gaiolas para os bicos de lacre





5 de maio de 2019

No dia das Mães


Mãe única, Mãe plural. Hoje só queria escrever-te o nome e debulhar-me em lágrimas, porque só isso te traz de volta. Quando tudo me vai faltando e mais me aproximo de ti, mais me dói a distância da tua ausência. E o teu silêncio, aquele silêncio de que nunca falámos, que não se aprende nos livros, que não se escreve, e que tanto fez por me traçar um rumo na vida. De resto, perdi-me de tudo e nunca acertei os meus passos com o voo das cegonhas. Mesmo que cada vez mais me deslumbre a imponência da sua envergadura, o estilo solene e elegante do voo e a ternura natural com que alimentam as crias no recato tosco dos seus ninhos. Mães cuidadosas que são, como todas as mães que entregam a essa condição todo o amor que não cabe nas palavras nem no tempo.


Depois fica-me a certeza de que cada voo é a rota extremosa de uma mãe que passa, porque todas as mães voam sempre, por todo o lado, em qualquer momento. Omnipresentes. Num rasto de luz que nada é capaz de impedir ou dificultar. Um voo de arribação, inquieto e rápido como o voo diligente das andorinhas, tecendo os ninhos nos beirais. Um voo vigilante da ave de rapina, perscrutando o solo à procura do menor perigo que possa esconder-se à sombra das árvores. O voo artificial de um avião de longo curso, com a imponência brilhante de um metal raro e a beleza de um concorde com asa delta, a mais de trinta mil pés, sentindo o calor que falta lá fora, respirando o ar que ali já não existe. E um dia, um dia do calendário pendurado no branco baço da parede da cozinha. Para te celebrarem hoje, como se tu e toda a tua dedicação pudessem mesmo caber no calendário inteiro. Mãe única, Mãe plural, Mãe sempre!


9 de abril de 2019

Sakura, cerejeira de jardim

Uma beleza absoluta, uma alegria breve. Depois a folha, até ao outono, até à queda. Tudo são momentos, nada mais do que isso.