19 de fevereiro de 2017

Nunca hesites quando a manhã é de promessas

Nunca hesites quando a manhã é de promessas. Abre toda a janela do quarto ao sol que corre de nascente. Acolhe no rosto a chuva oblíqua que atravessa as floreiras arrumadas ao canto da varanda, onde cresce o aroma fresco que te enche as mãos de sede. Chama a primavera, rega as plantas para que possam florir com saudades do efémero das camélias. Deixa que a tua imagem se projecte inteira no espelho plano, como se fosses mais do que tu. Solta os cabelos, ergue os caracóis num gesto único que te desnude, como acontece com as andorinhas sob a luz que inunda os beirais. Não enjeites a vida que fechas na palma das mãos, guarda nas gavetas o silêncio que te resguarda a silhueta e os contornos. Preenche-te de confiança e de certezas.


10 de fevereiro de 2017

Uma estrada sob a tua pele

Uma estrada sob a tua pele. Com salgueiros ladeando as margens nuas da tua ausência. Onde no passado se preparavam os campos para a sementeira, as charruas abrindo espaço para regalo do sol. O teu corpo crescendo como o milho verde das searas, deitando duas espigas frescas na fome das minhas mãos. Seguindo o percurso doce dos meus dedos. O tempo reclamando pela rega, inquietando a migração das aves e a sede dos ninhos. As raízes do teu desejo procurando no solo o cereal que amadurece na tua boca. A eira à espera, um terreiro plano e limpo. O milho-rei escondido nos segredos da blusa, pronto para a desfolhada. Assim é a estrada, assim é o teu calor subcutâneo. 


2 de fevereiro de 2017

Mudar de vida

Mudar de vida. Elevar o meu voo ao nível dos teus passos. Asa aberta do grifo sobre a inclemência dos penhascos. No fundo dos quais, desde sempre, dorme um rio. Um rio de águas líquidas, desenhando na fronteira a elegância do repouso das cegonhas. E a silhueta doce e sensual dos dias nas colmeias. A promessa ardendo no pavio das velas que se acendem na dimensão dos santuários. É de mel toda a madrugada que começa, o silêncio das horas varrendo o nevoeiro. O som metálico dos sinos das igrejas, como os faróis, assinalando a entrada das barras submersas.


É sob a chuva que te realizas, quando caminhas. E o meu olhar te procura do cimo de todos os miradouros, atravessando os cumes da serrania. Enquanto dormes um sono longo, o branco amarrotado dos lençóis sorrindo nos teus braços. Como as asas abertas de um anjo tirado das ilustrações dos antigos livros infantis. Há-de haver manhã, quando a geada cobrir as ervas que crescem à entrada da porta. E tu acordares, cansada da noite.


28 de janeiro de 2017

Não faltes com a tua voz ao meu alvorecer

Não faltes com a tua voz ao meu alvorecer. A seguir a ti o dia pode construir-se sobre todas as coisas. A tua mão trazer ao parapeito da janela o rumo inquieto dos teus dedos. Libertar os beirais para a azáfama diligente dos teus olhos. Dar aos ponteiros do relógio o brilho do aço polido do corrimão da escada. Agasalhar a manhã que atrasa o desfile magnífico das camélias. E soltar o vento nas areias junto ao mar, onde repousa o sargaço sem apanha. Não penses nas águas que já passaram sob as pontes. Já não são nem chuva nem granizo. Só degelo, a levar os glaciares à latitude onde o equador corta o mundo em duas partes. Como se fosse uma laranja madura, sem sementes e sem sumo.



Não te escondas aquém de quanto queres, como se esperasses pela noite. A vida anda inteira pelas ruas, sem necessidade de crepúsculo. Nada adianta que te vistas, pensa na luz que se te liberta da garganta com cada pergunta que te faço. E não hesites nas respostas, porque há sempre um momento para tudo. É aí que se liberta toda a intimidade que tentas proteger. E que todas as dúvidas se desfazem. Tudo o resto são caminhos de cor, ladeados pela frescura dos aloendros. As bagas vermelhas decorando os ramos heróicos do azevinho. Enquanto persiste o frio solitário do inverno.

25 de janeiro de 2017

O sol ferindo a escuridão do teu silêncio

O sol ferindo a escuridão do teu silêncio. O sol nascendo-te na boca, dando cor ao perímetro dos teus lábios. O sol brilhando-te nos olhos, transbordando de sonhos. O sol iluminando-te a face tranquila. O sol atravessando-te os cabelos sedosos e revoltos. O sol enchendo-te o peito, pulsando-te no coração. O sol despindo-te em contraluz numa tarde de verão. O teu corpo à transparência do sol. O sol prateado nos repuxos dos jardins, os carreiros cheios de pombas. O sol harmonizando o repouso dos pardais e o voo rápido das andorinhas. O sol pousando nos teus passos, abrindo-te o caminho para a manhã de sábado e para o abraço. O sol preso aos dedos com que me aqueces as mãos e me seguras a inquietação. O sol no sabor quente dos teus beijos, em que se afoga a minha ansiedade. O sol no cheiro único do teu pescoço, ansiolítico para as noites frias de inverno, braços abertos para a carícia. O sol na sensualidade dos teus gestos. Todos, múltiplos, pequenos e grandes. O sol na fogueira do teu desejo, no compasso quaternário da tua respiração. Um sol sussurrado, um sol inteiro no teu ventre. O centro definitivo e completo do sistema solar.