25 de dezembro de 2018

De que alva pureza pintas os cabelos


De que alva pureza pintas os cabelos
Quando o dia é ainda só penumbra
E a luz é apenas um pouco da manhã futura
A projectar a tua silhueta no espelho
Quando acaricias o cabo da madrugada
E o sol se espreguiça subindo no horizonte
Com o luminoso brilho das estrelas



21 de dezembro de 2018

Poema escrito por um zangão [*] sobrevoando o marquês de pombal


Começa-se assim o poema pelo fim
Como nos aviários se criam as galinhas
Pelo ovo com clara e gema
Como também se começam as adivinhas
Antes de serem estrelados
Ainda guardados nas entranhas da pedrês
Com a manteiga já quente na frigideira do chinês
Veste-se-lhes um colete amarelo

-  E o que seria do cinzento
Se alguém gostasse do amarelo
Mesmo com sabor vínico a canela e a martelo –
E abrem-se as portas do balneário
Como se o Estoril
Mesmo com a cor desmaiada
Se equipasse ao contrário
E usasse jogar no pelado do campo pequeno
Após cada sorteio para a taça
E considerados a tangente e o cosseno
Mobilizam-se todas as forças que haja
Incluindo a polícia que adormece
Sentada às secretárias cambadas da esquadra
Deixando a ramela enferrujar os gatilhos
Que fugiram de tamancos
Para protegeram a limpeza dos coletes
E a chatice parda dos sarilhos
Não venha o caso ainda a colher
O voo ousado das gaivotas
Que nos estraga o gel do penteado
Quando a cabeça está ocupada com a quadratura do círculo
E elas nos sujam as biqueiras das botas
Mas lá se conseguiu o objectivo
Com mais facilidade do que fixar o défice
Ou o coitado do salário mínimo
E os comentadores vão ter muito assunto
- com um copo de tinto e um naco de presunto –
Para encher a antena durante toda a semana
Incluindo aquele mais pequenote
E mais maneiro no tamanho
Que lá vai tirando a cabeça do caixote

Difícil foi contar os elementos da multidão
E assegurar-lhes completa segurança
Porque se esperava mais de um milhão
Crescendo ainda a esperança
De contar pelos dedos mais um montão
Se tivesse chegado a tempo a camioneta de bragança
E todos juntos enchessem a rua da betesga

Mas as coisas são como são
E não foi possível somar o tal milhão
Tão facilmente contados pelos dedos da mão

[*] – Vulgo “drone”, vocábulo do português ultramoderno, um século depois do acordo ortográfico continuar a aguardar promulgação de todos os subscritores.

20 de novembro de 2018

Os juízes estão em greve


Os juízes estão em greve. Não sei por quê, nem para quê, nem ao abrigo de quê. Mas eu gosto muito de juízes e, se tivesse posses para isso, tinha dois em casa, para darem alguma vida às prateleiras da estante: um conselheiro e um desembargador. E, se a minha bolsa o permitisse, solidariza-me no aumento dos seus salários e das suas pensões. E permitia, muito justamente, que se reformassem mais cedo na vida e a aproveitassem. De preferência nos casinos, do Estoril e de Monte Carlo, onde sempre aparece gente de lacinho ao pescoço e de barba escanhoada.


Se tiverem dúvidas do limiar da pobreza em que vivem – não constando das estatísticas oficiais apenas por decoro religioso – vejam que, em Dezembro próximo, alguns passam à situação de aposentados, com a pensão que se indica:

Juiz conselheiro                                                         6.129,97 Euros
Juiz de direito                                                            5.048,82
Juiz desembargador                                                  5.778,09

Felizes são os pobres que, se isso não provocar a derrocada da economia pátria e a insolvência do capataz dos patrões, verão o seu salário aumentado de 20 euros a partir de Janeiro de 2019. E, felizardos, poderão ter em casa o Juiz conselheiro e o Juiz desembargador que eu não tenho e cuja falta me faz suspirar durante o sono. De facto, não há justiça!

2 de novembro de 2018

Um bilhete do doutor e uma resposta…


O bilhete…

Não respondi ao teu último email porque o achei asqueroso.
Não achava possível que tivesses um comportamento como o que estás a ter.
Como fui ingénuo...
Mentiste-me quando, em Lisboa, me negaste os contactos que mantinhas com a minha mulher.
Horas e horas ao telefone, quando ainda eu e ela estávamos juntos ... que nojo de homem és tu ?
Atraiçoaste-me quando te meteste com ela na minha própria casa.
Não sentiste o mínimo de vergonha na cara ????
Não voltes a Portimão... nunca mais !!!! Eu já não vou suportar mais isso.
Não vás ao almoço em Pombal, porque eu vou lá estar e não te quero voltar a ver na minha frente.
És um monte de esterco que eu não quero ter que pisar.


A resposta…

Senhor Dr, sem extenso

Acuso a recepção da sua brilhante prosa cujo sentido não consegui entender, apesar das inúteis consultas ao Google e a Freud que, ao que consta, explica muita coisa. De qualquer modo a inquestionável erudição das dez linhas que teve a delicada gentileza de me enviar traçam, com rigor absoluto, o retrato fiel da sua personalidade única, pérfida e mais abjecta do que o somatório delas todas, mas que agradeço, como esperará, com vénia ao esterco e levantamento do chapéu.

Hesitei em dar-lhes resposta, porque é de uso não gastar cera com ruim defunto. E V. Exa., sem ofensa, é desde sempre o cadáver adiado de si próprio, sem consciência disso. Mas a incontornável qualidade da literatura não permite que deixe de salientar aspectos de relevante importância e da elevada sensatez e inteligência que, para sua glória, são mais do domínio público em cada dia que passa e lhe enriquecem o currículo e atestam o carácter.

Desde logo a irrepreensível caligrafia e o indisfarçável deleite com que V. Exa., sem ofensa, escreve e chafurda no esterco. E, ainda, a sua excelsa e não desmentida vocação para a mentira a para a calúnia, gratuitas e sem motivo. Bem como a sua conhecida coragem de sempre, atirando a pedra e escondendo a mão, que o mesmo será dizer, esfaquear pelas costas e pela calada da noite, pessoas e mesmo outros objectos, como muito bem sabe.

Tenta V. Exa, sem ofensa, imputar-me uma qualquer mentira, não sei quando, em Lisboa, sobre eventuais contactos mantidos com a sua respeitável esposa. Se por cada mentira contida nesta hipotética acusação, a si, lhe caísse um dente, certamente andaria V. Exa., sem ofensa,  à procura da prótese e dos destroços o resto da vida. Porque de forma vil e consciente você sabe que assim não foi e que, por se sentir nessa obrigação – se é de esperar que você se obrigue a qualquer coisa de útil! - apenas à saída de um almoço me referiu que o seu caso familiar iria terminar mesmo em divórcio, pouco ou nada mais adiantando, como também é seu uso.

Pergunta-me V. Exa., sem ofensa, que nojo de homem sou eu, como se nunca tivesse ouvido falar de mim. Pois claramente lhe respondo que, como sabe desde sempre, sou um homem com atitude erecta e porte vertical da cabeça, atributos de que não sei se alguma vez também já ouviu falar. E, ainda, que tenho nojo de quem assume uma conduta sem princípios e se socorre de procedimentos clandestinos, talvez em função dos efeitos secundários das pastilhas para o sono, que aparentemente lhe estimulam a imaginação para o mal e lhe sacrificam outras funções que, muito justificadamente, ainda gostaria de conservar, mesmo que não soubesse o uso a dar-lhes.

Refere V. Exa., ainda sem ofensa, que o atraiçoei na sua própria casa, “metendo-me” com a sua respeitável esposa, segundo palavras suas, certamente escritas no delírio da febre alta e da loucura. Não sei a que se refere e V. Exa., sem ofensa, também não faz a mínima ideia e faz de professor Karamba, sem a competência deste. Ou então se terá certamente enganado no destinatário, que será outro, mais ao seu nível e da sua igualha, provavelmente em comunhão de mesa, de habitação e, provavelmente, de algumas outras coisas.

Registo a sua condição de régulo de Portimão e a sua jurisdição sobre as margens do rio Arade. Mas não creio que isso lhe confira direitos especiais e me obrigue a invocar o Acordo de Schengen para ir às festas da cidade. E não faço sequer questão de vir a ser convidado oficial do digno presidente da autarquia. Do mesmo modo aproveito para lhe indicar que o almoço de Pombal já tem data e creio que, oportunamente, será V. Exa., sem ofensa, oficialmente informado dos respectivos pormenores, incluindo a ementa e o preço, sendo  este de pagamento antecipado.

Quanto ao esterco, que V. Exa., sem ofensa, de forma tão sublime trata em prosa, recomendo-lhe vivamente que se acautele. Não vá dar-se o caso de, por excesso dele, vir a tropeçar nos seus próprios passos! E a sair enxovalhado no traje e ofendido na pituitária!

18 de outubro de 2018

No teu 107º aniversário


Ontem, de véspera, fui à confeitaria do costume e comprei o bolo. E ainda três velas que permitissem compor os anos que completas e o singelo raminho de três orquídeas cor-de-rosa que depositarás no sorriso fácil do teu regaço. Sim, mesmo as orquídeas quis trazê-las da confeitaria para que tivessem o doce com que quero carregar o mais ligeiro e mais breve dos meus gestos.


Esta manhã fiz-me ao caminho do costume onde tudo me é familiar. Conheço cada curva, cada lomba de estrada, cada árvore das bermas. Vejo vazios os ninhos altos das cegonhas, que já partiram para levar ao destino o primeiro voo das crias. Uma ligeira brisa agita as copas das árvores que resistiram ao verão e que me saúdam à passagem.

Encontro-te de surpresa, com duas lágrimas de felicidade caindo-me dos olhos. Quase nem dá por isso o teu olhar cansado nem a distância da tua ausência. Tão longe nos encontramos que estamos cada vez mais perto, a fragilidade das tuas mãos entre os meus dedos. Parabéns pelo aniversário, Minha Mãe!