18 de outubro de 2020

No teu 109º aniversário


Repassar fotografias é afagar o futuro que tivemos em dias passados e que temos hoje. Cada uma delas é uma história e um caminho longe e perto. Há sempre uma data, um local, um ambiente morno derramando-se sobre a mesa. Um prato, um copo, uma companhia, um sorriso espontâneo e feliz. E pessoas, pessoas de hoje e de todos os dias. Expostas, recolhidas em casa, ocupadas numa discreta rotina quotidiana. Descendo para o centro da aldeia, procurando a cidade, desbravando a vida na azáfama da viagem até ao fim do mundo. Porque o fim do mundo é onde nós paramos para descansar, onde alijamos a mochila e montamos a tenda. Onde nos apercebemos da verdadeira dimensão do mundo e onde a tenda cria raízes, tijolo sobre tijolo, a argamassa dos dias contínuos, as madrugadas secas e frias, a construção definitiva. A caminho do paraíso, aquele mesmo paraíso do imbondeiro estendendo os braços largos do sonho, que se alaga e alarga como um rio, num delta único, navegável à flor da pele. O delta natural e livre que enche o horizonte do canto dos pássaros e das flores dos nenúfares.



Hoje queria – queríamos todos – levar-te uma simples rosa de porcelana, envolta numa qualquer verdura que lhe desse a cor da esperança. E sim, a gulodice de puderes sentir a felicidade do dia e de erguer uma taça para o celebrar connosco. Parabéns, minha Mãe!

9 de setembro de 2020

Minha Mãe: treze anos

 

Minha Mãe: na ponta dos meus dedos, depois de treze anos, repousa ainda o insustentável frio do teu rosto. Alisaram-se-te as vastas rugas esculpidas pela idade, virou de pedra o teu sorriso de olhar o mar, voou sozinho o pequeno melro nascido no ninho feito no arbusto à esquina da casa. Está ainda distante o amadurecimento dos medronhos que vão crescendo à sombra esparsa dos pinheiros. O tempo parou sob a inusitada canícula de setembro. A sombra dos carvalhos protege do sol as melancias expostas no largo da igreja, enquanto o padre, vindo de fora, apressa o fim da eucaristia e o início da procissão à roda da colina, para celebração da festa grande e para venerar-te.



Tudo mudou, todos os velhos morreram e até eu já sou mais velho do que tu. Talvez por isso, sou o único a ter memória de todos os antigos caminhos que sobem pela encosta, até ao alto onde apenas rangem os ramos dos pinheiros mansos. O único ruído que atravessa o silêncio da tarde e a breve brisa marítima que chega da beira-mar, derrubando as pinhas abertas de onde caiem os pinhões que se espalham pela terra erma dos carreiros. Além do eco esganiçado e próximo do latido do rafeiro que me sai ao caminho, escorrendo do meio do tojo agreste. O último grande afecto que cultivámos em comum e que te protegeu todos os curtos passos, enquanto por ali andaste a desbravar passados. Até perder o faro e a companhia, e ver chegar as temporãs chuvas do outono.

 

4 de agosto de 2020

Boletim Cultural do Huambo Nº 2

O segundo número do Boletim Cultural do Huambo foi publicado em Dezembro de 1949, ano em que a cidade assinalou o seu 37º aniversário. Foi composto e impresso na Gráfica do Planalto, Lda, um marco nas artes gráficas e na informação da região, como proprietária do jornal periódico O Planalto, à altura “A Voz do Planalto” – e não sei se, à época, por lá já ou ainda andaria o pai do nosso amigo Manuel Seiça. Tem oitenta e duas páginas, considerando capa e contracapa, e colaboração variada. A partir da página setenta a edição é composta por publicidade de firmas que fazem parte do imaginário dos mais velhos e que, naturalmente, foram importante suporte financeiro do projecto. Não resisto a referir alguns dos nomes como, por exemplo, A Mutualidade, a Cooperativa a Nossa Casa, Eurico de Carvalho, Ferreira Bastos, Zuid – Casa Holandesa (publicitando “artigos para europeus e indígenas”), Alexandre dos Santos (publicitando a “permuta com o gentio”), Marta da Cruz, Farmácia Ultramarina (anunciando a “penicilina em comprimidos”), União Ciclista (com as bicicletas Humber e outras) e Robert Hudson (divulgando o famoso “Lifebuoy – o sabão preferido para a higiene”) entre outras.


A colaboração é variada, desde “A organização e exercício do poder entre os Uambos (sic)”, da autoria de Francisco Amaro, Estudos antropológicos no Huambo, de Alexandre Sarmento, os sumários das comunicações apresentadas às Primeiras Jornadas Agronómicas de Angola, realizadas na cidade em Maio anterior, salientando-se as dos engenheiros António Mendes da Ponte (engenheiro agrónomo da Junta do Café Colonial) e Augusto Manuel Sardinha (engenheiro silvicultor chefe da 2ª Zona Florestal).

O concurso literário teve a sua segunda edição e por unanimidade, sem necessidade do voto de qualidade do Director dos Serviços Culturais do Município, o júri premiou obras concorrentes nas modalidades de Conto ou Novela, Soneto, Poesia Lírica e Quadra. Detenho-me intencionalmente na Poesia Lírica, em que não foi atribuído o primeiro prémio, tendo o segundo sido atribuído a António Jacinto do Amaral Martins, de Luanda. António Jacinto tinha, por essa altura, 25 anos de idade. O seu percurso fez dele um dos nomes mais importantes da poesia angolana (recordemos, por exemplo, “A Carta de um contratado”), um destacado nacionalista e membro do MPLA, condenado em Luanda em tribunal especial e enviado para o Tarrafal conjuntamente, que me recorde, com Luandino Vieira e António Cardoso. Foi depois, entre 1975 e 1978 o primeiro ministro da Educação de Angola, vindo a falecer em Lisboa em 1991. O curto poema, intitulado Decena, é o que se transcreve do boletim em causa, com uma vénia à Universidade de Aveiro, pela tarefa de ter digitalizado e disponibilizado a coleção completa:

DECENA


Uma pomba me trazia

No seu bico delicado

Os beijos que me mandava;


Uma pomba lhe levava

Nas penas das suas asas

As cartas que lhe escrevia.

 

Um caçador a matou

Quando beijos me trazia

Ai amor! Que triste estou!

Adeus cartas que escrevia!

 


22 de julho de 2020

Jesus converte-se à globalização e ao transporte aéreo


Quando eu era miúdo Jesus chegava ao Bairro de São João em Dezembro, por alturas do Natal. E, ano após ano, era por sistema o padre Abel que previamente tratava das boas vindas e do alojamento do próprio e da curta comitiva. A um dos lados da nave principal da igreja mandava erigir um presépio provisório, sem licença da câmara, acolhido sob a telha marselha do templo para, de alguma forma, o resguardar do nocturno frio exterior e da frequência das chuvas do planalto central do Huambo. E ainda do inclemente céu azul e definitivo que povoa os dias de África. Era pequena a comitiva: o próprio, a mãe com a criança ao colo, o padrasto carregando a enxó e a plaina, um burrito sem moscas, manso e submisso e uma vaquita que se mantinha teimosamente de cabeça baixa, debicando a palha seca onde o menino repousava de perninhas erguidas, róseas e rechonchudas.


Nunca soube como chegara porque no adro nunca vi carroças ou caravanas que o burro e vaca pudessem ter puxado desde muito longe e o assunto fica por esclarecer. Isto porque o próprio padre Abel, que jogou à bola connosco nas traseiras da igreja, que casou mais de metade das pessoas da minha geração e depois lhes baptizou os filhos, quando era mais preciso, resolveu deixar-nos a correr sozinhos atrás da trapeira e decidiu recolher-se a um descanso em que não há toques de alvorada às seis horas da manhã. Mas, pela situação do bairro e da própria igreja, era de presumir que a comitiva viesse dos lados do Bailundo ou do Sambo, tanto fazia, a estrada era de terra batida dos dois lados. Ficava apenas a dúvida se a mesma se deteria no Cuando para banhos nas águas da barragem e para que se dessedentassem o burro e a vaquita.

Agora Jesus chega no Verão, em plena canícula do mês de Julho, e não há gps que lhe valha para acertar nas coordenadas. Vai parar a um qualquer descampado, cercado de arame farpado, onde meia dúzia de fiéis de cabeça coberta estenderam lençóis vermelhos festejando o seu regresso a casa, Como se o Bairro de São João, mesmo com o padre Abel ausente, pudesse deixar cercar o recinto da igreja com arame farpado e permitir a mudança do presépio fosse para onde fosse. Mesmo que a comitiva, carregando mochilas às costas, viajasse de avião e viesse das vizinhanças da terra do papa e se furtasse às câmaras de televisão como São José se furtava aos microfones do Rádio Clube do Huambo e do devoto Sebastião Coelho.


Depois é de todo inadmissível a violação da privacidade de Jesus, nem no Bairro de São João alguma vez a Pide exigiu à comitiva o preenchimento do questionário habitual para saber de onde vinha, quanto tempo ia ficar e se trazia dinheiro suficiente para as despesas da estadia. Quanto mais vigiar-lhe as horas, revelando o local e o momento em que atravessava a fronteira e escarrapachar fotografias do avião com a legenda a dizer “Jesus está aqui dentro”. Só faltando mesmo acrescentar que lavava as mãos, punha a máscara, contornava os domínios do vírus ou mesmo qualquer pormenor mais íntimo e recatado que o bom senso e a devoção impedem sequer de mencionar. Também é verdade que “O Planalto” não era o “Correio da Manhã”, só se publicava duas vezes por semana e todo a uma só cor e era uma folha honesta, apenas com uma gravura ou outra para mostrar a inauguração dos candeeiros de iluminação pública no largo da Escola 21 ou a entrada para as matinés do Cine São João.


13 de maio de 2020

Duas lágrimas sobre o orvalho da manhã [Mais uma lágrima tombando com o nevoeiro]


[O texto que se segue é de há três anos e foi uma evocação saudosa às memórias de minha Mãe. Que ali esteve quando Fátima era só Cova da Iria, um “bajanco” de água da chuva no cimo da serra agreste, as azinheiras sobrevivendo no meio do horizonte de pedra. E porque hoje o local é um sítio deserto, escapando-se suavemente entre o nevoeiro que desce, como se fosse uma cortina que se fechasse. Volto não alterando o texto, mas apenas acrescentando-lhe mais essa imagem. E mais uma lágrima, tombando com o nevoeiro.]


Duas lágrimas sobre o orvalho da manhã. O sol atravessando as copas perenes das azinheiras. Algumas nuvens brancas riscando a serra. E quase cem anos de permeio. E tu menina, feliz no teu vestidito novo e pobre de chita barata. Correndo pelo carreiro, quando te é curto o passo, para acompanhar a marcha de mulheres adultas, a quem a tua mãe te confiou: não me percam a rapariga.

Duas imagens e a proximidade a que me ficas, na larga distância dos anos. Da Cova da Iria não resta quase nada, nem o nome. Desapareceu o charco na cova do terreno, as pedras que emolduravam a serra e, mesmo as azinheiras, vão escasseando na beira estreita dos caminhos. Pararam por desuso, ao abandono, os moinhos de vento da Fazarga e da Ortiga.


Hoje fizeram santos os pastorinhos que morreram crianças. Sabes, não é importante. Cada mulher é canonizada com cada filho que dá ao mundo. Aos anos que te tenho neste altar que trago na cabeça, minha Mãe. Apenas por isso te trago aqui!