6 de Fevereiro de 2012

Novo acordo ortográfico


Em épocas coloniais passadas, diferentes das que atravessamos nos dias de hoje, Angola teve um governador geral com os apelidos Sá Viana Rebelo. Militar como quase todos, general como muitos. Porque, como se sabe dos compêndios e das preleções do Dr. Nuno Rogeiro, as certezas democráticas residem na boca das armas e no acre perfume dos fumos da pólvora.

Pela mesma época um indescritível escrevedor de prosas bárbaras, cujo nome o tempo e a memória me levaram, estaria de acordo com o ainda vigente Dr Salazar em tudo, exceto no essencial: não lhe tolerava a convicção democrática que o levava até a ter uma união nacional e uma câmara corporativa. Quando o ideal seria um sistema, democrático sim, mas em que apenas o Dr Salazar pudesse votar e representar os milhões de portugueses que se espalhavam pelas ruas da miséria e pelas fossas da Europa.

Mas este escrevedor que nem candidato ao Nobel chegou a ser, "desarrincou" um dia uma conclusão arrasadora, que consolidou a unidade do império e a cristandade do gentio. Disse ele que o governador geral, durante o seu mandato, tinha tomado duas decisões importantes e sensatas, apenas duas. Primeiro, ter nomeado um seu irmão presidente de uma câmara. Segundo, tê-lo exonerado para o nomear governador do distrito de Benguela.

Assim também com a paródia que vai sendo o novo acordo ortográfico, com apoiantes e desapoiantes, como num qualquer futebolístico Porto – Benfica. O que vai alimentando a divergência e a dúvida sobre se devem ou não trocar-se os bês pelos vês e onde. Nos escombros do bairro do Aleixo ou do Casal Ventoso? Haja Deus, que deu ao país e ao sistema solar, o Dr Graça Moura. Laureado poeta, competente tradutor de pronúncia irreprensível, incontornável parlamentar nas horas vagas e, agora, mandador do bailarico que vai no centro comercial de Belém.

E que, mal chegado, mandou às malvas, depois de enxotar as moscas, todas as muitas reuniões e contratos que sobre o assunto um governo, no patamar da puberdade, tinha assinado e decretado que entrasse em vigor. Determinando apenas que se não utilizasse, decisão sapiente e soberana, que terá sido apoiada pelos contínuos do ministério e pelos estafetas da presidência. De forma que farmácia se escreve com “ph” como nunca deveria ter deixado de ser. Pharmácia, a ver se desce o preço do óleo de linhaça!

Reabertura

Não sei se será para valer, mas gostava que fosse. Mais do que isso, gostava de ter as ideias que sempre me faltaram e a habilidade que nunca abundou para as contar. Porque os dias são de crise e de "troika" e, com a globalização do calote e a subida do juro não faltam lamúrias nos telejornais e miséria nas esquinas. Vamos a ver!

18 de Outubro de 2011

Centenário


Estás infelizmente ausente, há mais de quatro anos, com o frio macilento da tua testa enrugada colado à minha mão trémula e ao meu espírito estupefacto. Não fosse isso, te garanto que hoje estarias feliz, no teu sorriso franco e aberto, na simplicidade que a vida te ensinou desde sempre. Rodeada por quantos conhecias, que eram todos, e te elogiavam a conduta de uma vida sofrida de trabalhos, de canseiras, se sacrifícios e de privações.

Nem eu sei, nem tão pouco imagino a dimensão desses trabalhos, cedo iniciados e só parcialmente saiba de algumas canseiras, de alguns sacrifícios e de algumas privações. Tenho a consciência de que tentei garantir-te a dignidade a que a gente comum regra geral não tem direito. E sei também que, quando partiste após dois anos de sofrimentos que não sei avaliar, me não senti realizado com o esforço despendido, porque teria sido sempre possível fazer melhor do que fizemos e conseguir mais do que conseguimos.

Doi-me que nessa fase final a vida, mais uma vez,me tenha traído.E tenha contribuído para que alguns significativos momentos fossem subtraídos ao teu convívio, mesmo que este já não tivesse para ti grande conteúdo. Mas, como dizias com a sabedoria simples que o povo te ensinou, elas cá se fazem, elas cá se pagam. É neste momento a grande e a única certeza que tenho: que essas perdas serão resgatadas.

De resto, ficam estas linhas simples a assinalar o dia 18 de Outubro de 2011. Exatamente cem anos depois daquele em que nasceste. Num pequeno lugar da freguesia onde repousas e onde me vou deslocando com uma frequência de que me não julguei capaz.E aqui o prometo solenemente: vou continuar!

19 de Setembro de 2011

Quatro anos e dez dias

Ficará a princípio a ideia de que a data passou em claro. Mas nenhuma data, nenhum mês, nenhum dia, nenhum momento passam em claro, Deolinda. Desta vez exprimi-me no Facebook porque aqui se me afogou a vontade de dizer fosse o que fosse. Dias antes estivera perfilado defronte do sítio onde penso que pouco ou nada restará de ti. Não me compreendo, pensei que nunca fosse capaz de o fazer. E faço-o, calmo e tranquilo, com as lágrimas correndo-me pela alma como se fossem rios. Lembro-me da tua alegria da última vez que estivemos no Agroal, com o Miguel. E é no Agroal que se me afoga toda a esperança. Ao menos num sítio de que gistavas tanto.

Fui à Festa Grande, sozinho. Nunca mais voltara, desde que te levara e te sentara numa cadeira de praia para que visses o teu mundo, falasses com os teus conhecidos, que eram todos. A ternura com que dizias “conheci muito bem o seu pai, a sua mãe, o seu avô, a sua avó”, de tantos anos que já levavas da vida. Fui por ti e pela tradição. Tu estás comigo, em todos os sítios e em qualquer momento. A tradição deixou de o ser e caminha para a extinção. Apesar de uma missa cantada que terminou a meio da tarde e do preço exorbitante dos bolos, que não comprei.

Sem ti não fazem sentido nem a missa, nem a quermesse, nem os bolos. Nada mais faz sentido minha Mãe!

20 de Outubro de 2010

A saúde

A senhora aqui ao lado é a ministra da saúde de um ministério mais que defunto e mal cheiroso. Mas podia, mesmo que apenas uma vez por outra, manifestar alguma sensatez. Mesmo que isso, politicamente, prejudicasse o seu perfil para o cargo e para as boas graças do grupo Melo. Devolvendo-a às ruínas de um consultório num qualquer centro de saúde, a prescrever medicamentos genéricos para a caspa e para o enriquecimento do dono da Associação das Farmácias.

Mas não, ela tem artes que faltam ao senhor Luís de Matos, sem que este tenha, por enquanto, sido nomeado ministro. Ele pode conseguir fazer jorrar moedas de euro de narizes ranhosos, adivinhar uma carta que nem sequer constava do baralho, meter até o Cristo Rei no bolso das cuecas. Mas não consegue, como ela, uma redução de seis por cento no preço dos medicamentos e, ao mesmo tempo, fazer com que todos paguemos mais por eles. Que o mesmo é dizer que quanto mais barato é, mais caro nos fica. É preciso encaminhá-la para a farsa das novas oportunidades, a ver se com a ajuda de um computador Magalhães adquire uns rudimentos de aritmética. Porque a sua conduta é de vendedora da banha da cobra, e os seus conhecimentos da matéria também.

18 de Outubro de 2010

O assalto

Sem nenhuma intenção de ferir a reputação do autêntico e histórico Zé do Telhado. Que, consta dos anais da memória, roubava aos ricos para distribuir pelos pobres. Este, Zé do Telhado Sócrates, distribui por si, pelos elementos da quadrilha, pelos assessores e compadres de clube e, especialmente, pelos ricos. Visto que são estes os seus patrões, que lhe permitem sacar à comissão, sem recibo, sem irs e sem iva.

O assalto, planificado durante dias e noites sem dormir e, mesmo assim, entregue aos chefes, incompleto e fora de prazo, mesmo depois de pessoalmente estes terem feito questão de lhe fornecer pessoalmente as instruções consideradas necessárias. O que pode representar um factor negativo na avaliação para a manutenção dos empregos do gangue. No horizonte já se perfilam novos candidatos, ansiando pela abertura do concurso. Enquanto não houver ajuste directo!