24 de agosto de 2016

A melancolia fresca de uma tarde de Agosto

A melancolia fresca de uma tarde de Agosto, a areia nua estendendo-se num deserto macio até onde vêm morrer as ondas estreitas de noroeste. Um nevoeiro tardio subindo pelo rochedo e acolhendo o voo ruidoso das gaivotas, vestindo de crepes a capela com uma cruz altiva erguendo-se-lhe acima da cabeça. Como se a noiva, quase solteirona triste, esperasse pelo beijo breve dos sobrinhos, o vestido comprido varrendo o chão e escondendo-lhe a estatura curta, um ramo de flores levado de braçado, a caminho do altar e do sacramento. Para acabar a ser feliz para sempre, como o oceano de um azul imenso e largo.


Para além do nevoeiro denso, a persistência salgada do mar, arredondando as arestas da pedra glaciar. E ainda o silêncio oculto de mulheres jovens, com saias acima do joelho, os seios erectos e maternais espreitando pelos decotes generosos das blusas de chita leve. Encostadas a velhos cascos de barcos abandonados na praia, com as quilhas perdidas durante a faina, nas vagas do mar alto. Já só servindo para a repouso de voos prolongados e para dar um eco cavado ao som bruto das tempestades que chegam de longe. Como se fossem viúvas prematuras de pescadores que lançassem as redes à procura de peixe e de pão.

22 de agosto de 2016

O poema não desce pelas encostas das nuvens

O poema não desce pelas encostas das nuvens, escorregando pelas cores do arco-íris, não é cristal fino de granizo em noite enluarada de agosto, não é visão de sereia em dia de mar sereno sem ventos de levante. Não é rima certa e musical, métrica exacta, quadratura do círculo, verso sobre verso, como tijolos de que se ergue uma parede, catorze versos contados pelos dedos, uma régua de cálculo que se mete de novo no bolso da camisa, “erros meus, má fortuna, amor ardente”(*), glória ou sofrimento, a vila de Constância e o abraço definitivo de dois rios a caminho do oceano. O poema, mais do que forma, calcário ou granito, pedra sobre pedra, é conteúdo, é substância, são todos os sentidos à flor da pele, todas as palavras de corpo inteiro e completo.

O poema é uma ideia breve, uma frase curta anotada à pressa numa folha de jornal, uma junção laboriosa de vocábulos, dois cadeados presos a uma das pontes sobre o Sena, testemunho do amor eterno das águas que, de mão dada, correm para o mar. O poema é o grito, a voz solta da garganta, a boca de coração aberto, a pele arrepiada, um calafrio polar descendo pela espinha, a engelhar um papel de circunstância que serve de memória. É sonho, é vida, flor abrindo como papoila na primavera, fruto amadurecido apanhado na época das colheitas, o pão quente para as noites longas do inverno, o calor da lareira atravessando-nos a alma até à chegada das manhãs frias, o movimento perpétuo, o “vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima”(**).

(*) – Luiz Vaz de Camões, Sonetos.
(**) – Fernando Pessoa, heterónimo Álvaro de Campos.

16 de agosto de 2016

O trigo vai crescer para cima

Em mil novecentos e cinquenta e sete, nas margens do antigo e famoso rio Tibre, os mais altos responsáveis de uma mão cheia de países, sentaram-se à mesma mesa, posta para o almoço com talheres de prata e copos de cristal. E decidiram solenemente, batendo com a mão convicta no peito descaído, como se estivessem na basílica de São Pedro, desmentir as teorias verdes e absurdas de Bertolt Brecht. Com a maior e celebrada das imaginações e na mais elegante e bela das caligrafias, chamaram ao farto repasto “Tratado de Roma”, instituíram comunidades, debruçaram-se longamente sobre a excelência do menu e decretaram, com as faces carregadas e o ar circunspecto e responsável que, doravante, em todas as searas o trigo cresceria para cima. Posto o que, decididos e ágeis, ensaiaram a pirueta, fizeram o pino e, de cabeça para baixo, assinaram os tratados.



O futuro foi de mulheres engravidando sob o olhar competente e virgem do clero e dos ministros, com uma só comunidade unindo-se à beira Tejo e expandindo-se para além das margens do Danúbio, ao som azul e rosa das valsas de Strauss. Cresceu para além de todos os dedos que enfeitam o grotesco corpo humano, sempre sujeita à mais do que igual e inteligente supervisão das ordens de Berlim. Novas verdades se escreveram nas paredes e outras certezas despontaram no horizonte, do mesmo lado de que nasce o sol. Inventando os mercados para descobrir o sucesso e aumentar os lucros da alta finança, saber que é preciso mais esforço para menor cansaço, menor salário para melhor vida, menos lugares para mais emprego e nenhum desesperado presente para toda a desesperada falta de esperança no futuro. E feita a cambalhota, assim vamos: quanto mais se escavam as covas para enterrar os mortos, mais os buracos crescem para cima e mais depressa se sobe para o paraíso.

14 de agosto de 2016

Chamar Cabo da Boa Esperança ao Cabo das Tormentas

Chamar Cabo da Boa Esperança ao Cabo das Tormentas, deixar zarpar frágeis caravelas ateando fogo aos promontórios, o Adamastor na ponta da língua afiada de Pessoa, uma jovem adolescente adormecida, coberta por um véu de tule branco, virada para a gateira da porta por onde às vezes entra a vadia liberdade dos felinos. O Índico ali logo ao dobrar da esquina, como um rebelde pingo de água que caísse da torneira e se fizesse onda que apenas fosse morrer às praias brancas de Madagáscar, deixando os destroços de todos os naufrágios à deriva nas correntes frias do mar alto. Águas transparentes como um aquário do tamanho do oceano, povoado de coloridos peixes tropicais, os recifes de coral elevando-se do fundo, como uma submersa cordilheira dos Himalaias.



A praia imensa de águas claras, correndo pela linha indefinida da maré, um lugar sem tempo e sem horário, o luar como se fosse sempre lua cheia, afagando as noites e as folhas das palmeiras onde descansa uma brisa a que apenas falta o voo dos pássaros. Uma miragem, como se um oásis lentamente nascesse no meio do deserto, logo abaixo do cruzeiro do sul e de todas as estrelas de que se borda o firmamento. Nós ali, imóveis e perfilados de medo, pensando que não houvesse verão e que o sol afinal não servisse para nada. Aguardando pela nossa vez, como se estivéssemos nas bichas dos centros de emprego e da distribuição de pão, como se o amor precisasse de alimento. As mãos dadas, os dedos escorridos, o amor caindo em gotas breves sobre o silêncio, e tudo tão natural como se fosse hoje.

10 de agosto de 2016

Subiu o sol pelo calendário

Subiu o sol pelo calendário, muito acima do equador, cumprindo a agenda de um ano bissexto, até esbarrar com o trópico de câncer, um paralelo geograficamente perdido nas páginas ardentes de um romance de Henry Miller. Marcou o solstício, despiu-se dos últimos agasalhos que lhe tolhiam os movimentos, pendurou o verão num cabide preso ao branco caiado de uma parede e deixou que as flores virassem frutos e amadurecessem. Sorriu aos oceanos, aquietou calemas, espalhou pela areia das praias um vento fraco e fresco, trouxe o abandonado verde das algas até à espuma onde morrem as ondas, à falta de forças para chegar mais longe e mais além, e partiu o horizonte ao meio como se fosse uma laranja acabada de colher.


Aqueceu, fez subir os índices nos termómetros que noutros tempos eram de mercúrio, rebentou o espaço limitado onde o aprisionavam, ardeu, espalhou-se até onde falta o horizonte que desce das nuvens, subiu sôfrego e faminto por todas as encostas, ocupou o cimo de montes e colinas, consumiu tudo quanto se lhe atravessou no caminho, fosse ou não resistência que se opusesse ao seu domínio. Reduziu a nada todas as vontades que apenas se unem nos momentos de tragédia, deixou crianças sem o peito farto das mães, cobriu com espirais de fumo denso e cheiro a desolação, tudo quanto nos cabia no olhar vasto. Impotentes e inúteis, homens sábios, importantes e circunspectos, sentaram-se à mesma mesa, discutindo o sexo dos anjos e aguardando pela ementa.