25 de maio de 2018

Dia de África


Dia de África, hoje. Como se um dia chegasse para a conhecer, para a respeitar, para a entender. Como disse Albert Camus, um argelino de nascença, em África o mar e o sol são de graça. E é preciso pisar sua terra vermelha, sentir seus cheiros, saborear suas frutas, chapinhar suas águas da chuva, percorrer seus caminhos, saber suas distâncias, ouvir suas línguas, ver seus dias iguais, seus amanheceres, seus fins de tarde para saber isso.

África é sortilégio. Música, melodia, ritmo de nomes. Sombra de mulemba, peixe de rio, savana, anhara. Kameia, terras do fim do mundo, corrente do kubango a morrer no deserto, delta do okavango. Quimbele, songo, quitexe, caxito, cacuso, mussende, calulo, chinguar. Camacupa,  bailundo, caluquembe, menongue, mavinga, cuvelai, namacunde, benguela, malanje.


E ainda o vicanjo que eu lembro, no mato, com uma mulemba no meio do nome: Xamissassa. Xamissassa é um nome com todas as músicas, e todas as melodias e todos os ritmos. Com os mais velhos sentados na sombra dela, falando suas falas, rindo seus risos, dormindo seus sonos, sonhando seus sonhos. Porque Xamissassa sonha. Como África sonha. Todos os dias!

6 de maio de 2018

Mães


Mãe, hoje queria regressar contigo aos anos da tua infância. Aquela infância que não tiveste e de cuja falta nunca te lamentaste. Subir o caminho de terra, de mão dada contigo, em silêncio, vendo o tojo estender-se até ao cimo da colina, onde a estrada muda de direcção. Entrar contigo na casinha humilde, mais ou menos a meio da encosta. Ver o fogo a crepitar na lareira, a panela de três pés a ser lambida pelas chamas da fogueira, apenas a água fervente. Sentir a serenidade digna e pobre que, além de meia dúzia de filhos em volta, aquecem o ambiente à roda da tua Mãe. A mãe coragem naquele ignoto sítio que nem Brecht alguma vez seria capaz de imaginar. A dignidade e a coragem não precisam nem de altivez nem de abastança. Precisam apenas de amor. O amor de quem sustem as lágrimas num cantinho do coração, de quem tira a côdea da boca para a dar aos filhos. E de quem, no fim de todas as canseiras – e ainda de tudo isso! – desce ao centro da aldeia, entra na igreja e agradece a Deus. Para depois regressar a casa, tranquila, esperançosa e feliz.


Todas as mães, minha Mãe, são mães coragem. Mães que carregam os filhos que lhes deformam o ventre e lhes amiúdam os passos, enquanto mantêm uma esperança ansiosa à tona do sorriso azul e terno. Mães que se confrontam com as dores do parto, os dentes cerrados, as lágrimas de alegria e o riso feliz no rosto sempre infantil. Mães que se anulam, que abdicam de si próprias, que se entregam ao sacerdócio de serem coragem, de serem Mães, de escreverem amor com cada pequeno gesto. De pertencerem aos filhos, para além de si e para além deles. Queira ou não celebrar-se tudo isso num único domingo de Maio! Com a palavra Mãe eu escrevo saudade, sinto a tua fronte fria na palma da minha mão e deixo que as lágrimas me rolem pela face. E sinto que, contigo, perdi tudo!

23 de abril de 2018

Um barco pendurado do tecto

Um barco pendurado do tecto
Pela hélice de quatro pás
Com o motor fora de borda caindo-lhe da popa
E a luz dos candeeiros da rua
A afogar-se no brilho molhado do asfalto
Como se houvesse chuva que tivesse sobrado dos incêndios
Enquanto a tua nudez se projecta na parede do quarto
Como o silêncio que ainda resta da madrugada
E se picasso ainda pintasse a guernica
Sobre uma bandeira da catalunha
Onde se destacasse o rigor geométrico da tua silhueta.

Há sempre uma bandeira mergulhada num tanque de roupa
À espera do sol e da barrela
Como se as águas que correm nos rios
Lavassem todas as coisas
E tirassem todas as nódoas que o álcool deixa na ressaca
Para depois poder ser palete tela pincel esboço
Corpo inteiro beleza obra de arte
Lugar permanente em galeria de museu

É com as mãos limpas que irei acariciar os teus cabelos
Com as unhas cortadas rentes
E o teu pescoço de girafa esticado para a colheita dos rebentos novos
Nas pontas dos ramos
Como vinho tinto com mais de quatorze graus de graduação
E um universo de nevoeiro libertando-se das narinas
Com o barco à deriva e a âncora solta
Nadando como um peixe vermelho de águas fundas

As minhas mãos percorrendo a intimidade das tuas pernas
Como o simples começo da tua alma
Sob o tecido fresco da manhã
Que te veste de transparência e de desejo
Procurando o que de mais secreto tens para guardar
Nos escondidos segredos do teu corpo inteiro
A posição instintiva de decúbito dorsal de quem ama
Todo o alvoroço da cama com as roupas em desalinho
Aguardando pela arrumação
E pelo sol em chamas atravessando as frinchas da janela





13 de abril de 2018

No dia do beijo


Leio nas páginas do jornal que hoje é o dia do beijo

Por isso o dia começou diferente de tudo
E o despertar já me chegou com o ruído de beijos
Quando o telefone tocou o som era música de beijos
Intercalados com pequenos espaços de silêncio
E mesmo a tua voz se desfez em beijos sem tos pedir
No jornal todos os títulos são desenhados com beijos
E mesmo nos textos não se vêem outras palavras
A chuva de ontem deu lugar ao sol franzino de hoje
E as nuvens brancas só desenham beijos
No fundo azul do céu
Na rua as pessoas não se abraçam beijam-se
Não conversam beijam-se
Não reclamam beijam-se
Não correm beijam-se
Não discutem beijam-se
Um homem que atravessa a rua não fuma atira beijos para o ar
No café a chávena tem beijos desenhados por dentro e por fora
E o próprio café não precisa de açúcar para saber a beijos
Todas as pessoas que passam têm marcas de beijos nas roupas
Damos as mãos e quando as separamos elas só têm marcas de beijos
As floristas não nos entregam ramos de rosas mas de beijos
Na televisão todos os programas são de beijos
- alguns até um bocado ousados de mais! –
Nas igrejas as orações foram todas substituídas por beijos
E as próprias religiosas têm beijos estampados nos hábitos
À entrada dos quartéis estão todos os comandantes
A beijar os soldados que chegam
As ondas que embatem nos molhes viram beijos brancos de espuma
E as que vêm morrer à praia deixam beijos traçados na areia
Os cursos dos rios riscam o contorno de beijos entre as montanhas
E estas têm beijos esculpidos nos cumes
Brancos de neve se ainda se espera pelo tempo do degelo
Para a água cristalina serem beijos brotando das nascentes



Apesar da velocidade com que correm todas as coisas
E da rapidez com que nos chegam as notícias
Ainda não sabemos se a guerra na Síria passou a ser de beijos
E se no Iraque os jazigos de petróleo passaram a armazéns
De beijos de todos os tamanhos e de todos os formatos
Com beijos saindo como cravos dos canos das espingardas
Atingindo de pão e de ternura os peitos nus dos adultos
E as bocas inocentes e famintas das crianças
Hoje todas as fábricas de armamento passaram a fabricar apenas beijos
As respectivas empresas deixaram de estar cotadas nas bolsas
E de distribuir dividendos pelos accionistas
A quem apenas restarão beijos para promover a igualdade
E construir um planeta só de beijos
Em todos os oceanos e em todos os continentes

1 de janeiro de 2018

Nada se cria, nada se perde: tudo se transforma!

Conheci pessoalmente Alice Queirós e Rogério Barbosa há menos de dois anos, numa tertúlia de poesia na Praia da Granja. Tinha escrito há poucos dias o texto abaixo, tomando como mote o título de um poema seu, que acho extraordinariamente feliz. Pouco convivemos, tão curto foi o tempo e tão longo foi o caminho. Mas desde o início que não consigo separar o casal de namorados adolescentes e cúmplices, simples, despretensiosos, humanos. De facto “não é por acaso que existe um espaço entre dois braços”. E que continuará a existir, apesar da interrupção.

Hoje, como tributo simples a esse conhecimento e a essa amizade, republico o texto. Com uma orquídea para a Alice e um abraço fraterno para o Rogério.




Não, não é por acaso que existe um espaço entre dois braços. Não, não é por acaso que os olhos verdes dos gatos se aconchegam ao conforto morno dos regaços. Não, não é por acaso que o tempo e a vida se fazem e desfazem em tantos passos e cansaços. Não, não é por acaso que as curvas da estrada e do destino nos obrigam a frequentes paragens e compassos. Não é ainda por acaso que uma palavra solta, um suspiro ou um olhar mais longo nos causam embaraços.


Não é por acaso que tantos momentos passam tão depressa que não dão tempo para que no desenho se risquem todos os traços. Os traços rigorosos e perfeitos de um desenho de Cruzeiro Seixas, o vigor artístico dos braços e o rigor milimétrico dos espaços. Não, não é por acaso. Não, não é por acaso que a madrugada nos pode tirar o sono e fazer-nos os sonhos e a lua cheia em pedaços. Não é por acaso que muitas vezes nos apertam garrotes à garganta e os sentimos com a leveza meiga que aperta os laços. Porque fica sempre a imensa longitude do espaço entre dois braços. Para acolher todo o infinito que somos de ternura e dar o aperto necessário a todos os abraços.