14 de novembro de 2019

Raça de preto, branco, mestiço e pele vermelha


Desde sempre convivi com pretos, brancos e mestiços. Convivi, vivi, brinquei, chorei, estudei, rebolei na terra vermelha, chapinhei na água da chuva, quebrei morro de salalé. Em casa, no quintal, na rua, na escola, no kimbo, na estrada da vida, caminho longo para são tomé. Brancos, pretos, mestiços – todos, cafusos, mulatos, cabritos e por aí fora. Tudo ainda antes de aprender as cores.

Depois fui na escola e me ensinaram as cores. Preto, branco, encarnado, sei lá mais o quê, benfica, sporting. E ainda as raças humanas, conforme a cor da pele, mesmo depois de lavar com sabão macaco ou até lifeboy. Sabia lá se havia raças humanas antes das cores e da colecção de cromos que a gente ia desconseguindo, tão poucas macutas que sobravam para os candengues daquele tempo, bola de trapos, arco de barril, fio de amarrar fardo de bacalhau.

Nesse tempo veio a confusão na minha cabeça, eu não era normal, eu não era branco. Branco mesmo era o muro da casa, caiado de um branco alvo e limpo, uma cor que nem sei explicar. E o zé sapalo, a outra metade de mim, não era mesmo preto, era mais um bocado escuro do que sei lá o quê e mais branco do que o tal de preto. E o senhor aires das mentiras era menos preto ainda ou mais claro, sei lá. Lhe chamavam de cabrito mas não tinha quatro patas, não comia capim, não saltava na rua, fumava francesinhos, sentava numa cadeira.


O zé me xingava de branco e os dois ríamos com os catuitis em cima da nossa cabeça. Eu lhe chamava de preto e ele ria para dizer que preto era carvão de fazer churrasco. Mas se lhe xingava de matumbo ele ficava zangado, às vezes até mesmo mais triste ainda. Quando  a carreira me levou para luanda e nos separou ficámos só metade, um de cada lado. E quando a senhora, que era a minha mãe, me contou da morte dele, fiquei calado e chorei sozinho, ficava só eu com a minha metade.

Desse tempo me lembro do adolfo, uma da manhã, a gritar pela rua do comércio, ó coimbra anda cá que tu és branco – não era, nem tinha a cor do muro da casa – olha o guarda nocturno a perseguir-me porque eu sou preto – não era, era até menos que assim-assim. E dos convites colectivos do nosso mais velho adelino de benguela, quando a dona voltava da viagem na catumbela e trazia o dendém para a muamba de domingo e ele nos falava que almoço era à uma hora. Nunca ele falou que primeiro sentavam os escuros porque ele era preto - bem, não era preto, era só assim-assim – e só depois os brancos, como eu, que ainda hoje nem me pareço com o muro do quintal.

Agora nem quero esferográfica preta, escondo o jornal dentro da camisa, por causa da cor da tinta. Ainda acabo a ser chamado de racista, melhor mesmo é ficar calado. O preto, nem sei quem foi que descobriu isso, é a ausência de todas as cores, até mesmo a ausência dele. Racismo não foi aquele senhor ruivo, dono de um alto cargo, olhar para mim de alto a baixo, lá para o conde redondo, quando lhe perguntei onde era a casa de banho e, altivo, seguiu adiante. Então não se via logo que homem ruivo, em alto cargo, nem sequer mija? Não responder não é racismo nem segregação, é só diferença social.

20 de outubro de 2019

Foi domingo


Foi domingo. O outono encolhendo-se numa tarde de outubro, a estrada correndo para sul, ladeando a ria, a maré cheia. Nenhum vento, a longa calma das coisas quietas. Três flamingos na margem, as pernas esguias, o pescoço sinuoso. Os ninhos das cegonhas vazios no alto dos postes de electricidade. O céu deserto daquele voo majestoso de asa aberta. Tempo de migrações, as colunas de Hércules, a África do outro lado. O calor silencioso do deserto.



18 de outubro de 2019

No teu 108º. aniversário

Esta fotografia tem catorze anos. Com todos sentados à mesa, foste o centro do mundo e ainda mais se te acendeu o brilhozinho nos olhos. O teu sorriso simples foi uma flor silvestre erguendo-se do tojo.
Hoje completas mais um passo a caminho da eternidade. Apenas quero assinalá-lo e deixar pendente este sinal. Para que saibas que não estás só, que o mundo continua à tua volta.

9 de setembro de 2019

Doze anos, minha Mãe


Doze anos, minha Mãe. E as tuas mãos nas minhas mãos, o teu sorriso nos meus olhos, a tua serenidade no meu peito. As palavras que me faltam e o caminho de regresso que percorro. Já não conheço a estrada que me leva e já não me acenam as árvores que lhe cresciam nas margens. A aldeia são as mesmas casas vazias no fundo do vale. Mas esta desabrida canícula de Setembro chegou corrida a ventos fortes e trouxe com ela as chamas do inferno. Desapareceu o verde dos pinheiros e as cinzas ainda fumegam pelas encostas.

Apesar de tudo, não deixa de fazer-se a Festa Grande. Com os mesmos enfeites, singelos e simples, em papel de seda. A mesma banda, que vem de fora, tocando por entre o pó que se levanta sob a inclemência do sol, até ocupar o palco ao lado daqueles dois carvalhos centenários. A procissão atrás, com o pálio à frente, protegendo o padre – que também vem de fora, para dizer a missa, para a festa e para o que for preciso – e acrescentando dignidade ao cortejo. Depois, cabisbaixos e tristes, os homens dentro dos seus fatos de domingo, suportando o peso dos andores. E as mulheres, quase velhas, arrastando os pés e carregando à cabeça o desequilíbrio esguio das fogaças.

Tudo se arruma à volta do adro, procurando o fresco da sombra sob a copa das árvores. No melhor sítio armei a cadeirinha para te sentares e mantenho-me a teu lado, como se te guardasse. O teu sorriso é uma explosão tranquila que inunda o local, toda a gente te conhece, toda a gente traz palavras doces nas mãos com que te toca. Como a Gata, com aquele azul tão longo a encher-lhe os anos e a sair-lhe dos olhos. Aquele azul tão grande que atravessou o mar ainda antes de o ter visto. Sinto-te feliz sem precisar de to perguntar. Compro um bolinho que mais tarde iremos partilhar. No palco a banda começa a fazer-se ouvir no compasso simples de uma marcha. Porque no meu caminho, silencioso e triste, a dor e a saudade também se tocam alto!

20 de julho de 2019

Escrevo amigo com apenas cinco letras


Escrevo amigo com apenas cinco letras
E ficam-me todas as outras para emoldurar a palavra
E rodeá-la de folhas flores e frutos
Estender as mãos e os dedos
Abrir os braços
Cruzar distâncias e construir navios

Quando te conheci ainda não havia escrita
Nem cores nem raças nem religiões
E a brancura dos teus dentes
Iluminava-te o sorriso como se o sol nascesse
Nas quilhas frágeis que abriram o mediterrâneo
Aos fenícios e aos cartagineses
Para que o nilo pudesse ser o rio que é
Tão longo como o abraço que nos une
E tão estreito como a distância que nos separa
Mesmo depois de inventarem mares e continentes
E planetas longínquos
E estrelas para além deles e desta luz que nos brilha nos olhos

Ainda hoje quando escrevo amigo
Também escrevo cadeira e prato e peixe
E me sobram todas as palavras
Quando te sentas à mesa
De olhar doce e braços nus
Como se do mar nos chegasse o cheiro a maresia
E a cor única das acácias que nos perfumaram a infância
Tens os pés descalços
Pousados sobre a areia fina
Onde não chega a fúria das calemas
Mas se sente a brisa fresca afagando as casuarinas
E o voo dos pássaros no regresso a casa
Ao fim do dia é ainda este sentimento que fica
Este silêncio de veludo que nos aconchega
Este sussurro que nos amacia o olhar
E nos entra pelos ouvidos como se fosse uma balada
Quando nas mãos da noite
Chegam os sapatos de cristal
Que vão cobrir os teus pés simples de princesa
Porque a amizade é esta claridade de todos os momentos
Estas mãos e estes dedos
E este calor da noite que se estende pelo caminho
Que percorremos lado a lado
Como se fossem infinitas todas as horas