17 de março de 2019

Nat King Cole


Nat King Cole nasceu há 100 anos, a 17 de Março de 1919, no Estado americano do Alabama. Negro! Morreu a 15 de Fevereiro de 1965, com 45 anos de idade, no Estado americano da Califórnia. Negro! Vítima de um cancro de pulmão, seguramente auxiliado pelos três maços de cigarros que consumia diariamente. Negro!


Eu tive uma felicidade na vida: foi ter nascido pobre. Isso possibilitou-me brincar com os miúdos da minha idade, sem lhes olhar para a cor da pele e usando, como eles, vestuário modesto, quase sempre saído das mãos diligentes e habilidosas de minha mãe.

Depois, mais tarde, a voz e as canções de Nat King Cole fizeram as delícias da nossa adolescência. Sem repararmos sequer no facto de ele ser negro nem, tão pouco, no facto de não termos nas carteiras assim tantos colegas negros como tínhamos nas brincadeiras de rua. Só demasiado tarde a vida nos chamou a atenção para esse facto e para outros. Infelizmente quase todos persistem, usando vestes mais ligeiras mas mantendo o essencial. Aqui, como no Estado americano do Alabama.

Surpreendentemente, Nat King Cole teve o seu próprio show televisivo em 1956. Negro! Durou um ano, teve de ser abandonado por falta de patrocinadores. Ainda em Abril de 1956 Nat King Cole actua no seu Estado Natal. Com um primeiro espectáculo para brancos e um segundo para negros. Quando Nat King Cole surge em cena, com uma orquestra de brancos para o acompanhar, é exigido que a cortina seja descida. A situação é momentaneamente ultrapassada mas, à terceira canção, o palco é invadido e ele é agredido. Por ser negro!

Em 1956 Nat King Cole tinha 37 anos e, espantoso, isto ocorreu apenas há 63 anos. Já os Estados Unidos tinham posto termo à II Guerra Mundial há mais de dez anos. Com a destruição de Hiroxima e de Nagasáqui e os generais japoneses assinando uma rendição incondicional, em lágrimas, no convés do porta-aviões Missouri.

11 de março de 2019

Artur do Cruzeiro Seixas


Conheci circunstancialmente Artur do Cruzeiro Seixas em Luanda, quase seguramente no primeiro semestre de mil novecentos e sessenta e três. E isto no decurso de uma exposição colectiva de pintura na qual, para além de outros que não conheci ou que não recordo, também participavam ele e o meu amigo Eduardo Pires Júnior.  Lembro-me que a exposição se realizou numa sala de rés-do-chão, num edifício do lado esquerdo de quem subia da Mutamba para o antigo largo de Serpa Pinto. Cruzeiro Seixas era, por essa altura, Conservador do Museu de Angola, na Rua de Nossa Senhora da Muxima, naquela cidade.

Eu era um jovem sonhador, compulsivo leitor acima das minhas possibilidades, que pensava que ia escrever poemas para a posteridade, mesmo antes de haver Mark Zuckerberg e Facebook que os pudessem espalhar pelo mundo. E recordo-me que, por esses dias, houve qualquer agitação com a Pide de triste memória que, de um dia para o outro, prendeu meio mundo, facto de que fui informado, segundo creio, pela mulher do Eduardo. Eu era tão insignificante que nem me assustei e nem fui incomodado. Mas aquela possibilidade de contacto com gente mais velha do que eu, de talentos já firmados, e naturalmente com quem muito poderia ter aprendido, acabou por se gorar. Não soube nunca quem foram todos os detidos, mas sei que, no seguimento disso, foram dar ao Tarrafal, sentenciados creio que todos a quinze anos de prisão, António Jacinto, Luandino Vieira e António Cardoso. Entretanto fui eu chamado ao cumprimento do serviço militar obrigatório, o que mais ajudou à dispersão.

Alguém me disse que Pires Júnior tinha ido para o Brasil, por lá se fixara e por lá continuara a sua vida. Nunca mais soube dele e nunca tive oportunidade de confirmar a versão. Venho a saber muitos anos mais tarde que Artur do Cruzeiro Seixas vive e Vila Nova de Famalicão onde, coisa linda, está com 98 anos de vida feitos. Retenho na memória o verdadeiro deslumbramento incomparável dos seus desenhos à pena, a segurança e o rigor geométrico do traço, o conteúdo provocante e surrealista do motivo.


A Fundação Cupertino de Miranda, detentora de grande parte do acervo do artista, vai inaugurar no dia 29 do corrente a exposição “Cruzeiro Seixas: ao longo do longo caminho”. Nesse dia quero estar em Vila Nova de Famalicão, depois do evento ter chegado ao meu conhecimento via Luísa Tavares.


2 de março de 2019

O Manel


Hoje encontrei o Manel a um dos cantos da Praça do Marquês de Pombal. Ia eu, como sempre, à procura de um café modesto, cabisbaixo, de olhos presos ao chão. Quando, em sentido contrário, ele me perguntou em voz alta, se eu estava bom. Levantei os olhos do chão e encarei-o, e as suas feições foram-me imediatamente familiares. Rapidamente cheguei a ele e aos anos que me trouxeram até aqui, quando já não encontro ninguém pela vida. Disse-lhe “estás com bom aspecto” e estava. Nem andrajoso, nem roto, nem sujo, nem descuidado. Simples, humilde, mas limpo e com bom aspecto. Um penso na parte posterior do pescoço, um quisto extraído, coisa sem importância, vinha do tratamento. Ainda bem.


Aos anos que te não via Manel, às vezes lembro-me, pergunto por ti ao meu filho mais velho, mas sabes que ele se mudou, os anos passaram, hoje não anda pela baixa da cidade como andava antigamente. Demoliram o prédio, a baixa é uma floresta de pensões e de tabernas à espera de turistas jovens, de mochila às costas. E ele “já deve ter alguns trinta e cinco anos”. E eu “vai fazer este mês quarenta e seis”. E ele “pois, eu já tenho cinquenta e seis, e continuo por aí, por onde calha. O tempo não para”.

Sabe, tenho a minha filha ali adiante, nas freiras, está bem, anda na escola, no nono ou no décimo, nem sei dizer. A escola é naquela rua, e aponta com o dedo. A mãe dela morreu, era muito alcoólica e outras coisas, sabe como é, problemas. Não tem uma moedinha para eu comer alguma coisa, é para comer. Para ti, Manel, tenho sempre uma moedinha, e dei-lhe uma nota de cinco euros, sem nenhuma recomendação. É para comer, insistiu, e não lhe respondi. Mas pensei, gasta-a naquilo que mais te fizer falta, seja no que for. E penso que, pelo menos, a tísica a terás vencido como um valente. Para além disso, o futuro a Deus pertence.

Nem te falei de mim, sabes que há muito tempo não tenho nada para falar de mim a ninguém. Mas nem sabes como foi bom encontrar-te e ver-te bem. A reconheceres-me, a cumprimentares-me, a estenderes-me a mão. E revi-te com pouco mais de dez anos, miúdo de rua, perdido na zona da baixa, na ilha onde sobrevivia toda a tua família. Entre a miséria, a violência, o álcool e as drogas. Foi bom reencontrar-te, mesmo que me tenhas deixado esta tristeza que trago nos olhos, mais funda e mais líquida, meu sacana. E que Deus te acompanhe! Sempre, para que se não extinga esta lágrima de conforto que trouxeste à minha manhã de sábado.

30 de janeiro de 2019

Não tem um dia para falar saudade


Não tem um dia para falar saudade. Tem só um dia para falar que é dia de domingo, para encontrar com os amigo, passear um bocado, adiantar beber meio litro de vinho ou quissângua até que pode ser caxipembe se lá na loja tem para lhe vender. Os outros dias até que não sei o nome deles, não adianta nada, é sempre sempre para trabalhar, sei lá se o nome deles se é sábado ou se é o quê.

Mesmo no domingo adianta sair só depois do almoço, depois de pegar o luíko, bater o pirão, assar o peixe seco no fogo, deixar os pratos todos lavados, todas as coisas arrumadas no sítio delas. Depois até pode ser que vou ter a minha sorte, vou conseguir levar a bicicleta Hopper para ir com ela até na Bomba, tomar bem conta por causa dos gatuno, conversar, beber um bocado, cuidado com a piela, o menino sempre fala.

Quando saí no vicanjo não sabia nem português, só mesmo esse umbundo que lhe aprendi nas costas da mãe. Quanto mais isso de vinho, caxipembe, sapato, saudade, todas essas palavras dos brancos. Quando saí sei só que a chuva tinha parado de chover, na estrada o camião chegou ao pé de mim, cheio dos sacos de milho em cima dele, parou um bocadinho, subi em cima, sentei num saco e fui até à cidade com os olhos espantados e o medo lá dentro de mim.

Com o menino adiantei aprender essa língua do puto muito difícil de falar, nem que cabe na cabeça. E fui-lhe dizendo como a gente fala o nosso umbundu, as asneiras todas primeiro, ele que quis, até que nem vou dizer aqui outra vez. Ele me disse como fala galinha porco água frio saudade tudo. Mas isso de saudade é palavra de confusão não é de comer, a gente não vê como que vai saber aquilo que é? Luíko a gente pega peixe a gente come vinho a gente bebe.

Saudade é palavra que o branco fala mas não dá para ver nem para lhe agarrar. Aprendi calça camisa sapato sabão banho tudo. Saudade ninguém que me diz é isso aí, tu come com a mão, mete no bolso se quer pode beber ou deitar fora. Diz que fica dentro do coração vai batendo com ele se ele para a gente pronto, uafa.


Adiantei perceber que saudade afinal é a mulemba que tinha no vicanjo, quando o sol vem a gente senta em baixo dela fala as nossas conversas brinca as nossas brincadeiras. Agora que estou na cidade, visto camisa e calço sapato, vou ter com os amigo, bebo o meu meio litro ando na Hopper. Mas fico sempre a pensar os amigos do quimbo, o tamanho assim grande da mulemba, os dias com o sol e nós todos em baixo com as conversas e os risos. E afinal sei que saudade é mesmo essa mulemba que ficou no quimbo, com os mais velhos sentados na porta, fumando o cachimbo deles, comendo as folhas do tabaco cultivado na chitaca. Saudade é a mulemba que ficou lá e não tem dia para lhe falar. Todos os dias ela está lá, como a Mãe!

25 de dezembro de 2018

De que alva pureza pintas os cabelos


De que alva pureza pintas os cabelos
Quando o dia é ainda só penumbra
E a luz é apenas um pouco da manhã futura
A projectar a tua silhueta no espelho
Quando acaricias o cabo da madrugada
E o sol se espreguiça subindo no horizonte
Com o luminoso brilho das estrelas