25 de abril de 2017

Quarenta e três

Quarenta e três!
Quarenta e três é tamanho de sapato,
Número de sorteio,
Terminação de lotaria.
Sapato rima com carrapato
Sem nada de permeio
Um barco directo para a Trafaria.
E depois de lá chegados o que se faria?
Deixava-se a idade envelhecer p’ra tia?
Amarrava-se o olhar ao horizonte, à espera do sol que não subia?
E depois?
Aparelhava-se a canga à junta de bois?
Dormia-se na enxerga despida de lençóis?
Comia-se à pressa só um pão e dois rissóis?

Com o tempo o que fizeram de ti tantas águas mil,
Amorfo e cinzento e inteiro mês de Abril!
Pararam a música,
Terminou a dança,
Faltou-te a cadeira,
Cortaram-te rente quase toda a esperança.
Os anos foram-te deixando nua e sem futuro,
Derrubaram uma parede,
À tua volta ergueram um alto muro.
Vestiram-te de gravata e fato escuro,
Uma nítida flor vermelha
Presa com revolta atrás da orelha.
Um lenço branco
Agitando-te a mão de espanto,
Calando-te a voz com que quase já nem canto.

Tantos caminhos e tão longos destinos por tão estreitos percursos,
Tão aplaudidos e tão geométricos discursos,
Tão farta a pia onde se vêm enfartando gerações de ursos.




4 de abril de 2017

À maneira de Bertolt Brecht, com Salgueiro Maia morto há 25 anos

Salgueiro Maia era capitão num quartel de Santarém.
O quartel era todo dele?
Tinha sido ele a construí-lo?
Sozinho?
Não tinha nem superiores, nem subordinados?
Decidiu, isolado, marchar sobre Lisboa?
E foi ele que fez a chaimite que o levou,
Já com rodas e motor e tanque cheio de combustível, pronta a disparar?
E foi a corta-mato?
Ou fez durante a noite uma estrada directa ao Terreiro do Paço?
Vestiu uma farda que lhe fez a mãe, que era costureira?
Montou ele o cerco que obteve a rendição do quartel do Carmo?
E não quis nada em troca?
Que coisas ou cargos lhe ofereceram?
Deram-lhe honrarias e comendas?
Prestaram-lhe homenagens?
Deram-lhe senhas de refeição quando precisou de uma esmola para a sopa?
Já que lhe recusaram a pensão mínima,
Por nada ter feito que a merecesse!
Ou recusaram-lhe um subsídio para por meias solas nos sapatos?
E trataram-no como herói enquanto foi vivo?
Cuidaram-lhe da mulher e educaram-lhe os filhos?
Deram-lhe o nome a avenidas, fizeram desfiles militares?
Promoveram-no a sargento-ajudante?
E herói porquê? Só ele? E porque não ele?
Foi ele que conquistou Lisboa sozinho?
E que depois voltou para Santarém para limpar o quartel e arrumar a caserna?
Ou foi para agradecer, à míngua, os bons empregos que a liberdade deu aos outros?
Mandaram-no jogar à bola, deram-lhe o nome a um aeroporto?
Baptizaram um avião, fizeram-no padrinho de uma criança?
Morreu por vontade própria, deixou-se morrer, suicidou-se?
E hoje mostram a sua fotografia às crianças das escolas?
Ensinam-lhes o nome como se fosse a tabuada?
Plantam estátuas suas à sombra das figueiras?
E a vila de Castelo de Vide, vista lá do alto,
Continua ao sol, indiferente e branca, como o berço onde nasceu?
Com telhados vermelhos como cravos,
Espetados nos canos das espingardas?
Porque é que agora o celebram depois de morto?
Porque já não mete medo nem pode tirar cargos a ninguém?
Porque é inofensivo?
E acham que Brecht disse tudo o que pensava?
Ou ficou muito por dizer sobre um homem que não quis nada?



24 de março de 2017

Não queiras domar o rio

Não queiras domar o rio, nasce com ele. Acolhe nos olhos o brilho cristalino das águas da nascente. Segue os saltos inquietos sobre os acidentes do percurso. Estende o leito sob a sombra fresca das veredas, contempla as neves do inverno, no alto dos braços nus das árvores. Converte-te de todo ao fascínio da planície, enche de verde os campos das margens. Ouve o canto dos pássaros, aspira o perfume das flores silvestres. Acompanha a construção dos ninhos e o voo alto das cegonhas. Celebra o nascer do sol, o crescimento das crias, a chegada da noite, as promessas luminosas da madrugada. Abre os braços para a vida, sorri para o fio do horizonte, oferece o peito às ondas de ternura. Sente o coração que te pertence, deixa que bata ao ritmo que entenda. Enche as mãos de quanto desejas, ignora a aridez solitária do deserto, cuida de ti. Deixa que te amem, acaricia a felicidade no teu colo, entrega-te à certeza dos dias futuros. Ama-te!


21 de março de 2017

Dia mundial da poesia

Hoje é um calendário pendurado na parede, com um só dia a estender-se pelos meses todos. Um só dia, 21 de Março, fronteira exacta entre a folha e a flor. Um poema inteiro, como vento varrendo toda a cordilheira dos Andes, até à dimensão do oceano Pacífico, de norte a sul.


A boca sabendo-me a ternura, abraçando toda a melodia do oceano no aperto dos teus braços. Ensaiando um verso, alinhando uma estrofe, tentando uma rima simples, como passarinho fora do ninho. A poesia nascendo na frescura doce dos teus seios, o silêncio cúmplice com que respondes à ansiedade que me enche as mãos. “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, ambos temos os olhos cheios de silêncio e de destinos.

O coração sangrando-me na boca, repleta dos destroços em que se transformaram as cidades sírias. O grito de revolta com que me chega a fome sem culpa das crianças de África. A generosidade sem medida dos imbondeiros acolhendo a savana, na orla dourada dos desertos. Pergunto-me porquê e responde-me a sinceridade castanha dos teus olhos, um rio tão longo como o Nilo. Cabem-nos nas mãos todas as estrelas que faltam ao brilho dos olhos das crianças.

A poesia doce, sabendo a amor, sabendo a mel. A poesia trágica, sabendo a dor, sabendo a fel.


16 de março de 2017

Eu não sei já como dizer-te

Eu não sei já como dizer-te. E quanto mais tenho para dizer-te, menos sei como dizer-to, porque se me escapam o teu ouvido atento e o teu olhar sereno. Tenho a boca cheia de palavras, todas à espera. Todas secas, como as areias do deserto, onde não viceja o verde de um carinho. Onde não há sombra que me abrigue ou rio que me refresque. Os pés descalços, sem rumo e sem caminho, porque nada tem nome nem destino. Tudo o que choro são palavras, lágrimas incandescentes caindo-me dos olhos próximos e vazios. Da cor do silêncio de que se há-de fazer o universo.



Sento-me tranquilamente. Com aquela tranquilidade ansiosa de quem espera por nascer. Inteiro, de um só golpe, os olhos abertos para as esquinas que não conhece, as cidades inexistentes e abruptas, o céu por nomear. É indescritível a urgência desta espécie a que o dia me fará pertencer, quando vier. Foi ela a separar os continentes, a dar nome aos oceanos, a inventar a escrita para que ficássemos longe. E existissem corpos sólidos, líquidos e gasosos. Até que Arquimedes viesse devagarinho, por ainda não haver pressa para nada, descobrir a impulsão e o princípio que inventasse os barcos e construísse os portos. Para que houvesse um cais e ali nos pudéssemos encontrar!