7 de dezembro de 2016

O amor é esta coisa

Sussurro amo-te e respondes-me que o amor é outra coisa. E tens razão, o amor é outra coisa. E a mesma coisa. E mais uma coisa. E todas as coisas. Uma coisa que me faz faltar o ar. E que me enche os pulmões. Uma ternura que me afaga os cabelos. E um vento fresco que me despenteia. Uma névoa líquida que me tolda o olhar. E um brilho verde que me dilata as pupilas. Uma mão quente no teu peito. Uma mão fria no meu bolso. Um sonho nos teus olhos. Um desgosto na tua apreensão. Um conforto nos teus braços. A tua cabeça no meu ombro. O amor é outra coisa. Um triângulo equilátero sem lados iguais. Uma esfera sem fórmula matemática para o volume. Uma dízima infinita no meio de um segmento de recta. Em cujos extremos estamos apenas nós. Os dois. A tua mão na minha mão. Os teus dedos nos meus dedos. O teu sorriso nos meus lábios. O amor é esta coisa!


4 de dezembro de 2016

Um rio calmo na manhã de domingo

Um rio calmo na manhã de domingo. Meia dúzia de casas térreas na margem plana. À sombra imponente das copas tropicais. Ficus elastica, morácea tropical, palavrões eruditos. Antes do rio se torcer numa curva logo adiante. Lavando as águas que, devagar, leva para o mar. Esfregando o sol nos olhos da paisagem. Espreguiçando-se pelo verde descansado da planície. Como gatos sobre os telhados quentes do inverno. Esgotadas todas as horas de descanso incluídas nos decretos. Velhos sem tempo, sentados às portas, de pés descalços e barbas brancas escondendo a idade. E a semana que vem, na tarde do dia curto de solstício.



Cada palavra um espaço. Uma sinfonia entoada pelo voo dos pássaros. Asas abertas e penas coloridas. Rasgando as nuvens e o azul, em si bemol. Como cavaleiros medievais cercando fortalezas. Batendo o ferro em brasa no gume futuro das espadas. As conquistas e o cansaço das bigornas. O galope dos cavalos, o tinir do aço no auge da refrega. Uma estrela cadente em Alcácer Quibir, que não há norte para Dom Sebastião. Nem sul ou meridião. 

30 de novembro de 2016

No escuro da noite escrevo vida

No escuro da noite escrevo vida. E escrevo morte. E nenhuma se vê. É como se te desse a mão numa sala de cinema, enquanto passa o filme. E a rapariga da fita, que não tira os olhos de nós, não consegue ver-nos. O escuro abre-nos a noite, traz-nos a ternura de mansinho, sem que ninguém veja. Não há sol nem pássaros nos meandros da noite. Fica todo o tempo para o amor e para a alvorada. E para a chuva que cai dos beirais. E para a neve que se acumula no alto das serras. Somos mais cúmplices no calor do abraço nocturno, é mais intenso o aroma que os nossos corpos libertam sob o aconchego dos lençóis que vêm da noite. Nunca os teus seios me parecem uma sedução ou um convite. São apenas uma parte de nós e nós somos apenas um. Sem bocados e sem múltiplos. Não precisamos dizer-nos nada, o silêncio do escuro é todas as vozes e todas as árvores perdendo as folhas e os frutos. As mãos cheias de tudo. Com poemas desprendendo-se-nos dos dedos. E as palavras caindo a um canto do nosso escuro absoluto. Irreversível e inteiro, sem necessidade nenhuma. Partilhando certezas pelo infinito. Despovoado de estrelas e de luzes, sem mares nem oceanos. Todos os peixes pintados de silêncio e de segredos íntimos.


25 de novembro de 2016

Ao por do sol as gaivotas voam para norte

Ao por do sol as gaivotas erguem-se num voo alto e quase solitário, rumam para norte e atravessam o horizonte a caminho do refúgio. É a hora mágica a que as chamas do incêndio explodem no crepúsculo fresco dos teus lábios. Quando a noite vai caindo devagar, por entre as cores douradas do outono e me traz o sonho azul por que espero na brevidade do teu colo. Para acolher todas as estrelas que enchem o firmamento e aí cintilam ao ritmo a que me bate o coração, protegendo-me o sono e a chegada da manhã seguinte. Se eu soubesse, escrevia o teu nome no segredo tranquilo dos teus olhos. E enchia todas as paredes da semana com a pele macia do teu rosto, como se fossem pinturas urbanas penduradas nos alçados dos arranha-céus. Mas, apesar disso, faltam-me a habilidade e as cores para desenhar um coração pequenino no mais secreto cantinho dos teus seios. Onde eu possa morar contigo!


22 de novembro de 2016

Poema debutante

para uns a poesia é métrica
e cada verso com dez sílabas
já que a extensão do alexandrino
não é brincadeira pra menina ou pro menino.
a rima
sempre a preceito
a de baixo com a de cima
e depois é como der mais jeito.

o verso livre já não obriga a essas regras loucas
trinta palavras e ainda são tão poucas
ou só uma já é de mais
degrau a degrau
    lá
       se
           cais
três suspiros e quatro ais.

depois é preciso um editor
que se encarregue do projecto
menos poeta e mais doutor,
capaz de avaliar com rigor
os custos contabilísticos do afecto.
uma sala da escola,
da junta ou da paróquia,
mais um coelho na cartola
uma tarde ou uma noite de sábado
e cem cadeiras,
com tampo, costas e pernas,
todas inteiras
para sentar a assistência.
porque sem cadeiras não há amigo
que vá assistir só pelo copo de vinho fino
como se fosse um sem-abrigo
a enganar na porca rima a desdita do destino.

à hora certa a abarrotar, a sala à cunha
poemas declamados
poemas ditos
poemas soletrados.
nas cordas tensas da viola
o indicador já quase deixa a unha
a voz feita em bocados.
a bicha para a compra da obra-prima

a dedicatória e o autógrafo do autor
de todo grátis, ainda por cima
aqui, nesta página, se faz favor.
com um beijo e um abraço,
se não se estender,
ainda tem e sobra espaço
num largo canto do papel.

pois, e a seguir?
vamos esperar,
e ver o que estará para vir.
mas, como é que se chama aquele gajo
que este ano ganhou o prémio Nobel?
só sei que era do Mindelo ou do Soajo!
quanto ao nome, traiu-me a memória infiel…