21 de março de 2017

Dia mundial da poesia

Hoje é um calendário pendurado na parede, com um só dia a estender-se pelos meses todos. Um só dia, 21 de Março, fronteira exacta entre a folha e a flor. Um poema inteiro, como vento varrendo toda a cordilheira dos Andes, até à dimensão do oceano Pacífico, de norte a sul.


A boca sabendo-me a ternura, abraçando toda a melodia do oceano no aperto dos teus braços. Ensaiando um verso, alinhando uma estrofe, tentando uma rima simples, como passarinho fora do ninho. A poesia nascendo na frescura doce dos teus seios, o silêncio cúmplice com que respondes à ansiedade que me enche as mãos. “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, ambos temos os olhos cheios de silêncio e de destinos.

O coração sangrando-me na boca, repleta dos destroços em que se transformaram as cidades sírias. O grito de revolta com que me chega a fome sem culpa das crianças de África. A generosidade sem medida dos imbondeiros acolhendo a savana, na orla dourada dos desertos. Pergunto-me porquê e responde-me a sinceridade castanha dos teus olhos, um rio tão longo como o Nilo. Cabem-nos nas mãos todas as estrelas que faltam ao brilho dos olhos das crianças.

A poesia doce, sabendo a amor, sabendo a mel. A poesia trágica, sabendo a dor, sabendo a fel.


16 de março de 2017

Eu não sei já como dizer-te

Eu não sei já como dizer-te. E quanto mais tenho para dizer-te, menos sei como dizer-to, porque se me escapam o teu ouvido atento e o teu olhar sereno. Tenho a boca cheia de palavras, todas à espera. Todas secas, como as areias do deserto, onde não viceja o verde de um carinho. Onde não há sombra que me abrigue ou rio que me refresque. Os pés descalços, sem rumo e sem caminho, porque nada tem nome nem destino. Tudo o que choro são palavras, lágrimas incandescentes caindo-me dos olhos próximos e vazios. Da cor do silêncio de que se há-de fazer o universo.



Sento-me tranquilamente. Com aquela tranquilidade ansiosa de quem espera por nascer. Inteiro, de um só golpe, os olhos abertos para as esquinas que não conhece, as cidades inexistentes e abruptas, o céu por nomear. É indescritível a urgência desta espécie a que o dia me fará pertencer, quando vier. Foi ela a separar os continentes, a dar nome aos oceanos, a inventar a escrita para que ficássemos longe. E existissem corpos sólidos, líquidos e gasosos. Até que Arquimedes viesse devagarinho, por ainda não haver pressa para nada, descobrir a impulsão e o princípio que inventasse os barcos e construísse os portos. Para que houvesse um cais e ali nos pudéssemos encontrar!

13 de março de 2017

Numa folha de papel atravesso o risco do teu corpo

Numa folha de papel atravesso, a lápis, o risco do teu corpo. Nada mais do que a lassidão com que despertas e o gesto sereno como os teus dedos desenham raios de sol nos teus cabelos. O calor perfumado dos teus braços enche de manhã todo o quarto, mesmo para lá da ondulação do cortinado e do assobio nas pontas do vento. A um canto do perfil esbelto do pescoço, vai-te crescendo a sede inquieta de um beijo. Vai ser ele a despertar-te para os segredos do dia claro.


10 de março de 2017

O poema da Caixa Geral de Depósitos

Hoje, contra o meu gosto, a poesia é outra. Porque os prejuízos anunciados pela CGD não são um poema, são um crime. São 1.900.000.000, um bilião e novecentos milhões de euros, entre inverdades e imparidades. Comecemos por aqui, pelas palavras. Uma inverdade é uma mentira, ponto final. Imparidade é um palavrão criado apenas para evitar que o homem comum entenda o que está em causa. No essencial, é crédito mal parado, ou incobrável, atribuído ao longo dos anos, não se sabe a quem. Nem em que condições nem com que garantias. Crédito concedido de forma negligente, de forma dolosa e de forma criminosa. Na impossibilidade de o recuperar, decide-se anulá-lo e deitar as dívidas ao lixo. Se esses prejuízos não forem cobertos com dinheiro novo, a CGD vai à falência, situação em que, aliás, há anos se encontra toda a banca nacional. Este dinheiro sai do Estado e o Estado, directa ou indirectamente, somos todos nós. Apesar dos donos disto tudo que por lá andam.

Então é elementar saber que dinheiro se emprestou, a quem e em que condições. É preciso publicar a lista e esclarecer todas as dúvidas, saber quem são os vigaristas, agir criminalmente contra quem foi responsável. Qual sigilo bancário! Quem não tem rabos-de-palha, não tem nada a esconder. Por alguma razão o senhor Domingues não queria revelar o que iria ganhar nem o que possuía. E quem persiste em esconder as cuecas é muito provável que as tenha sujas!


8 de março de 2017

Mulher

Penso-te o nome e ele enche-me o cérebro. Sobram-me as ideias, desfaço-me em ternura. Transforma-se-me a vida num conjunto aberto de convicções. Penso Mulher e desde logo Mãe. A primeira, a maior, a mais nobre das funções de que te vestes. E, como se isso fosse preciso, chega-me a memória e a saudade da minha. Os olhos que se me toldam, rasos de água. O teu corpo franzino, a energia desmesurada, o trajecto longo. A vida tão ingratamente cheia de espinhos, sem o perfume das rosas. A saudade inteira. E todas Mães, nobres, compreensivas, complacentes, protectoras. Apesar de todas as maldades que todos sempre lhes fizemos, inconscientes e ignorantes. Os cabelos desalinhados, as saias puxadas, o caldo entornado, a irritação a que cedes por momentos. Depois da pequena tempestade, sempre a bondade e a bonança infinitas.

Penso Mulher e desde logo Companheira. Com cerimónia ou sem ela, os relacionamentos não são fruto de papéis, escrituras, rezas e tabeliões. São mais fruto da amizade e da compreensão cúmplice que nos mora na profundidade do olhar. Verde ou castanho, azul até para lá do farol que assinala o início de tudo o que partimos a descobrir, com a verdade por destino. Os ombros que se alinham, as mãos que se dão, os passos que se caminham pela vida. Dar e receber, entrega e partilha, qual de nós sou eu, até onde me sou, se transbordas para lá do meu horizonte. Somos um, qualidades e defeitos, sonhos e aspirações, cabeça e ombro que se alternam, duas lágrimas e um sorriso. Uma vida cheia de esperanças e de futuro.

Penso Mulher e desde logo Amante. O infinito que começa nos olhares que se cruzam, as palavras que se calam, os gestos que se dispensam. Os corpos de que prescindimos, para sermos apenas um, diferente e igual. Só beijos e ternura, a entrega que é tão toda como se não fosse nenhuma, tão apertado abraço. Apenas o arco-íris nas fronteiras do paraíso, o céu é como o amor que nos une, não tem limites, não principia nem acaba. Vinte poemas de amor e uma canção! Uma casa debruçada sobre o oceano, as ondas a morrerem-nos nos pés descalços.



Penso Mulher. Hoje, um dia só, se o ano tem muitos, todos teus de pleno direito Sem simbolismos ou diferenças que te diminuam. Trago-te apenas uma camélia, doce, macia, frágil, terna e sensível. Como o amor que me conforta e que me aquece o peito. Este mesmo que te entrego, hoje e todos os dias para além dele. Sejas tu Mãe, sejas Companheira, sejas Amante. E entre todas as datas, todos os dias são teus!