12 de janeiro de 2017

Gostar de ti é dizer-to

Gostar de ti é dizer-to. E repetir-to, como um “chatinho”, até o ouvires. Tanto, tanto, até o perceberes. Tudo, até o saberes, sem reticências e sem dúvidas. É sentir esta manhã cinzenta e húmida a entrar pela janela. Confortar-me com o teu sono tranquilo, aconchegar-te à penumbra do dia e ao branco dos lençóis. Acariciar-te as pálpebras cerradas, para que um sorriso se liberte dos teus lábios. Trazer-te à cama o pequeno-almoço, numa bandeja só para ti. A chávena de leite fumegando, soltando aquele inconfundível aroma a quente e a café. As torradas afagadas com manteiga, ainda a derreter-se. Sentar-me a teu lado, na beira da cama, pousar a minha mão sobre a roupa que te agasalha as pernas. Ver-te comer sem nenhuma pressa. Ver-te sorrir e sorrir contigo. Perder-me no fundo tranquilo e meigo do teu olhar. Darmos as mãos e vermos a sol subir pela cor promissora da parede.


3 de janeiro de 2017

Regresso do ano bissexto como quem regressa a casa

Regresso do ano bissexto como quem regressa a casa. Degrau a degrau, fui subindo pelos dias, como se fossem uma escada. Um de cada vez, sabendo que a meta está sempre no fim do nosso olhar. E que há uma coroa de louros à nossa espera. Porque chegar onde se cruzam todos os momentos, é sempre uma vitória, mesmo quando não ganhamos. Uma medalha que nos brilha, pendurada ao pescoço, presa por uma fita toda azul e ouro. Como uma condecoração ou um poema épico. Para diante fica outra distância que se abre, um caminho que ambos vamos descobrir. Voando sobre a brancura das nuvens, com o sol soprando-nos de flanco. Trazendo um calendário novo na ponta do primeiro raio de luz. Todos os anos, mesmo os comuns, começam sempre por Janeiro.



Ergue a tua mão, dedos abertos como uma rosa-dos-ventos apontada ao dia seguinte. Um diamante lapidado faiscando-te no castanho certo e fiel das pupilas. Não sei a cadência a que te bate o coração ou que desejo macio ainda te sobra a meio da manhã. Quando o sol de inverno é um véu nocturno que se estende pelos palcos andaluzes. E no teu peito viceja o ritmo quente do flamenco que se eleva do aço dedilhado das guitarras. Um copo de vinho calando o segredo das gargantas, sem necessidade de palavras. Nem de vinho. Por baixo, o quadriculado mágico da viagem, em suaves tons de verde. Temperado com o sal líquido com que olhas o vazio. Fronteira para o azul que chega de ocidente, trazendo a suavidade da espuma e o destino premeditado dos cardumes. No sabor doce da saliva que respiras.

24 de dezembro de 2016

Natal 2016

Sê lúcido! Não chores pelo que não tens. Não perguntes aquilo a que não te respondem. Despreza o que te ignora e o que te magoa. Mantêm-te lúcido: há sempre um dia seguinte!


21 de dezembro de 2016

Um Natal para os meninos de África

Para os meninos de África não há pinheiros nem caruma espalhada pelo chão. O sol brilha sempre – porque, na sublime imagem de Albert Camus, em África o mar e o sol são de graça! -  e os dias são sempre iguais às noites. Em África, branco ou preto são apenas a cor da epiderme e os meninos ainda jogam à bola com uma bola de trapos. Têm um riso franco e estridente e os dentes muito brancos, sem o excesso civilizado de açúcares e de cáries. Os meninos de África andam descalços, dão topadas nas pedras dos caminhos, perdem-se no meio dos capinzais. Tomam banho no rio e secam-se nas margens, à sombra de árvores de folha perene, enquanto brincam as inocentes brincadeiras deles.

O seu horizonte vai até onde chega o seu olhar, como a miséria desumana em que crescem e a fome de que se alimentam. Procurando nos sacos do lixo deixados na beira das ruas, os restos rejeitados por estômagos fartos de kamanga e de petróleo. Os meninos de África são universais. Na ignorância a que os condenam e na fome de que apenas os salvam as intenções e os decretos. E ainda na saudável ingenuidade de se entregarem sem condições e sem competição. Atrás de rótulos inventados por quem os condena a um destino fatalista de barriga vazia e pé descalço.

Os meninos de África não conhecem essa palavra Natal e nunca ouviram falar da Lapónia. Não sabem sequer que rena é bicho, nem que o Pai Natal viaja de trenó a distribuir prendas, descendo pelas chaminés. Para eles nem o domingo é dia de descanso, é só mais um dia de fome. Com a esperança ausente, e a brincadeira desabrida dos simples, dos ingénuos, dos que não têm maldade. Nem no brilho do olhar nem na pureza imaculada de corações pequeninos e solidários. Os meninos de África não sabem o que são prendas, o que são brinquedos, o que é coração.


A sua neve não cai nos cumes das montanhas nos dias frios de inverno. A sua neve cai com um tempo tropical e uma temperatura superior a 30 graus, os corpos pingando de suor. A sua árvore de Natal é um imbondeiro gigante, emergindo grandioso e imponente no meio da savana. Com zebras, girafas, palancas e outros bichos dispersos na paisagem. E reunindo em volta todos os muitos meninos, de olhar brilhante e pés descalços. As mukuas são bolas de cristal penduradas dos ramos, faiscando à luz das estrelas. Que se colhem e se saboreiam quando se pode e se lhes chega.

Natal não seria nem árvore, nem prenda, nem brinquedo. Nem doces, nem centro comercial, nem alegria breve. Natal era só um pão para cada menino, uma caneca de água para beber. Era uma roupa simples, um sapato barato.  Uma escola, um sistema de saúde, alguns cuidados de higiene. Uma palavra meiga, um carinho, uma festa na cabeça. Um Deus, sim um Deus. Um Deus omnisciente, um Deus omnipresente. Porque todos os meninos do mundo são filhos de Deus. E os meninos esquecidos de África também!

19 de dezembro de 2016

Da tarde de ontem trago a memória

Da tarde de ontem trago a memória dos moinhos de vento no alto dos montes. O granito das paredes da igreja e da calçada do adro. O cheiro nostálgico e meio bucólico do casario espalhado pelo verde tardio da planície. E uma nesga de mar, como um postigo aberto no termo do horizonte, para que víssemos as nuvens. Tudo somado, uma aragem fresca e perfumada agitando suavemente as folhas das árvores. Que me dá ao coração a cadência exacta dos relógios de cuco e o sorriso elegante de uma presença de mulher que se deseja. Com a delicadeza dos dias em que o vermelho das papoilas rompe o tapete rasteiro das ervas dos campos.



Um novo verde que se acende no pavio dos meus olhos, como se brilhasse no cimo de uma azinheira. Uma explosão de luz iluminando as fragas da serra, como se fosse uma aparição numa manhã de outono.