25 de Novembro de 2009

Mau-ó-mé!|



O respeitável Dr Vítor Constâncio é o muito respeitável governador do Banco de Portugal. Organização entretanto tornada obsoleta pela entronização do Banco Central Europeu e pela ineficácia no desempenho das funções que, ainda assim, lhe ficaram residualmente atribuídas.

Periodicamente vem a terreiro, protegendo-se com o ilusório cariz profissional do cargo, ditar regras e lançar bitaites como o preclaro professor Hernâni Gonçalves. Ou, como diz o povo que compulsivamente lhe paga o chorudo ordenado, cagar sentenças.

Agora veio declarar, preparando o caminho para os próximos 150.000 desempregos que o licenciado em engenharia, Sócrates de seu nome, há-de criar durante a legislatura, que os impostos têm que aumentar e que os funcionários públicos devem ganhar menos do que os operadores de caixa do engenheiro do Continente. Apenas porque para fazer face ao desenfreado consumismo do orçamento não há alternativa ao forçado aumento das receitas.

Investido no cargo de Mau-ó-mé, profeta da desgraça, sugeriu que lhe reduzissem o ordenado em 25 por cento? Prescindiu de algumas das mordomias que certamente não consegue enumerar? Recomendou que a tributação dos lucros da banca fosse elevada ao nível da que incide sobre um ordenado equivalente a dois salários mínimos? Não, nada disso! Quando se fala de ladrões apenas refere possíveis irregularidades e inventa um termo que, creio, não integra ainda o acordo ortográfico: imparidade. Quando simplesmente se pretende dizer roubo. É preciso preparar-lhe o mausoléu!

9 de Setembro de 2009

Dois anos

Dois anos passados. E dois anos, Deolinda, é muito tempo.Tão longo tempo para lavar a saudade do corpo e varrer a memória dos meus olhos vazios. A angústia cresce na solidão que me atravessa de lés a lés, persistente e transversal. Não consegui entrar na vida pela escada das traseiras, nem sequer sair dela nas manhãs frias de inverno em que a geada cobre de branco todas as ervas em volta. Falta-me tudo, só me sobre a desesperança.

30 de Abril de 2009

Democracias

Segundo os seus próprios dirigentes, os partidos políticos são os suportes fundamentais daquilo a que os mesmos chamam democracia. Ao cidadão comum, que neste âmbito se denominará eleitor, competirá no dia da eleição incorporar-se no rebanho que se desloca às mesas de voto a depositar um papel numa caixa a que pretenciosamente chamam urna. E, com isso, contribuir para a eleição de um vogal de uma junta de freguesia, dos deputados ou do próprio presidente da república. Esse voto é disputado violentamente pelos membros dos mesmos partidos políticos, utilizando os mais ínvios e falsos argumentos. Desde promessas que nunca houve a intenção de cumprir, à oferta de sacos para o transporte das compras domésticas ou de esferográficas baratas que nunca escreveram ou escreverão.

Os eleitos serão oficialmente designados por representantes do rebanho e o tipo de democracia por representativa. E terão à sua frente um mandato de alguns anos em que viverão à custa do orçamento, viajarão à custa do orçamento, utilizarão automóveis topo de gama à custa do orçamento e farão almoçaradas ainda à custa do orçamento. O eleitor, o zé que foi na conversa e vendeu o seu voto a troco de uma febra no pão e de um copo de cerveja, será reduzido à sua verdadeira dimensão até às eleições seguintes. E será pura e simplesmente ignorado e esquecido, até que voltará a ser despudoradamente assediado com promessas de casamento, prémios do euromilhões e milhares de empregos estáveis e bem remunerados.

Os representantes dos partidos nunca se entendem entre si, facto que leva o zé a acreditar que de facto isso acontece porque eles têm ideias diferentes para o radioso futuro do país e dos seus habitantes. O que é inteiramente falso porque o que caracteriza os políticos é a circunstância rasteira de nunca terem ideias que extravasem do seu círculo pessoal de interesses. Aí são pródigos e perfilham as ideias mais mirabolantes e inimagináveis para atingirem os seus objectivos.

Como aconteceu agora, em que todos os partidos com assento parlamentar, por consenso, se reuniram à porta fechada - certamente por causa das correntes de ar e da ameaça da gripe suína - e acordaram em tempo-recorde em alterar a lei de financiamento dos partidos políticos, aumentando em mais de 55 vezes o actual tecto das contribuições a receber em dinheiro. Mais do que isso, a maioria dos artigos foi aprovada por unanimidade, com os Drs Louçã e Portas a cumprimentarem-se efusivamente ao som das palmas, tipo assistência do concurso o preço certo, dos deputados Jerónimo de Sousa, Paulo Rangel e Alberto Martins. O Dr Vital Moreira, por razões de força maior, apenas aplaudirá hoje!

28 de Abril de 2009

Objectivos

A gestão por objectivos é, provavelmente, a expressão mais vezes invocada pelos gestores, sejam estes diplomados pelas universidades ou pelos estaleiros das grandes obras de betão. Mesmo os leigos e os ministros, como o Pino-Lino, por exemplo, já a ouviram e a ela se converteram sem resistência e sem condições. O ministro ainda há dias justificava, como só os gestores são capazes de justificar, o grande objectivo das obras que, ao que parece, vão ser realizadas na estrada nacional 125 que atravessa o Allgarve do também ministro Pinho-Linho. E, à falta de ouvintes, mesmo recrutados a garrafões de 5 litros, perguntava-se a si próprio se seria melhor deixar às gerações futuras uma estrada degradada e cheia de buracos ou uma estrada nova, sem curvas e sem irregularidades. Lamentavelmente, mas numa exemplar gestão por objectivos, não referiu sequer que as gerações futuras se irão confrontar também com o pagamento das obras, das comissões e de um ou outro enriquecimento ilícito que naturalmente tenha ocorrido.

Gestão por objectivos é assim como que um fruto natural e sem corantes ou conservantes do sistema neoliberal. Impõe-se hierarquicamente de cima para baixo, sem discussão ou acerto. E sem normas ou regras. É o vale tudo e o salve-se quem puder. E nos casinos, como se sabe, não são propriamente os jogadores que ganham, são mais os donos deles. A gestão por objectivos parece ter chegado à função pública, de que prudentemente se exclui a clique política, e à polícia. Cada agente da autoridade terá, doravante, objectivos a cumprir, que se não limitam a carregar a farda durante 8 horas diárias, engraxar as botas, saudar militarmente os chefes ou evitar habilidosamente o contacto com eventuais traficantes no exercício da respectiva actividade, no âmbito normal das horas de expediente e do horário de trabalho aprovado pelos organismos ou institutos competentes.

Cada agente terá de futuro de cuidar minuciosamente da sua preparação física. Para além do exercício, simples, de apertar o cinto à sombra do tísico salário que lhe pagam e da regularidade com que lhe atrasam a entrega das gratificações pelos serviços remunerados. Terá de ser capaz de correr os cem metros em 20 segundos para perseguir um pilha-galinhas ou em 15 para se escapar de meliante mais perigoso. Terá de mensalmente disparar meia dúzia de tiros de aviso para o ar e mais três para as pernas de larápios com cadastro, quer a pistola funcione quer não. Se as munições estiverem dentro do período de validade, pode mesmo acertar, mas sem deixar marcas. Tem ainda que gastar dois livros de multas de trânsito, metade de um deles por infracções muito graves e dez por cento puníveis com apreensão da licença de condução. Realizar 30 testes de alcolemia em que 6, pelo menos, claramente denunciem a embriaguez do infractor. Consumar 15 detenções, das quais 3 com perigo de vida e 2 em flagrante delito.

A avaliação anual de cada agente será feita em função do cumprimento dos objectivos. As promoções, se as houver, também. Bem como os aumentos de salário, se houver orçamento que sobre da construção do TGV,do aeroporto de Alcochete e das remunerações dos assessores políticos dos membros do governo. É bom que cada agente comece, diligentemente, a construir a sua carteira de meliantes e de facínoras. Bem vão precisar deles!

24 de Abril de 2009

26 de Abril

Em vésperas de completar 35 anos de idade o 25 de Abril deveria estar na pujança da vida. Ser adulto, ter-se feito responsável, adquirido uma consciência colectiva e solidária, ser respeitado e lembrado por aquilo que de facto deveria representar. Nada disso acontece, o 25 de Abril agoniza nos estertores da morte e não há perspectivas de regresso do seu profundo estado de coma. O 24 de Abril está mais vivo do que ele, inaugura benfeitorias, celebra Salazar, faz a apologia da xenofobia, insurge-se contra a promoção a coronel de Otelo e manifesta-se nas paredes de forma tranquila e impune.

Como prova disso basta atentar em quem, amanhã, celebra o quê e onde o faz. O país deixou de existir, não tem nem autonomia nem independência. Vendeu-as a troco de dez réis de mel coado que deram para a construção de algumas auto-estradas, para uma série de projectos megalómanos, para o enriquecimento injustificado de uma clique sem escrúpulos e, linearmente, para o roubo. O país não tem sistemas de educação, de saúde, de segurança ou de protecção social. Mais do que isso, não tem nem moral, nem ética, nem vergonha.

O país maltrata os jovens, reservando-lhes apenas a nova oportunidade de obterem um diploma académico sem terem frequentado a escola. De resto não têm nenhuma garantia de frequentar escolas condignas e de serem ensinados por mestres profissionais e responsáveis. A única perspectiva que se lhes oferece é o desemprego, depois de uma licenciatura de 3 anos e de um mestrado de mais 2. E a certeza da dívida incomensurável e criminosa que vão herdar da geração dos seus pais que se foram entretendo com a construção de centros culturais, exposições internacionais, estádios de futebol, comboios de alta velocidade e aeroportos que acolham os muitos aviões que garantam a muito necessária ligação aérea entre Alcochete e o Montijo.

O país ignora e sacrifica os adultos que, teimosamente, ainda acreditam que a democracia em que vivem é uma senhora digna e respeitável que usa meias de vidro e sapatos de verniz. Quando de facto ela se vai mostrando a medo e às escondidas nos portais esconsos das muitas pensões de passe a cujos quartos sobe, por profissão e por necessidade. Em plena luz do dia, sem esperar pelo lusco-fusco do crepúsculo ou aguardar pela protecção da escuridão da noite. Os adultos acordam a perder empregos, afogados em dívidas que não podem pagar, não sabendo que bucha terão para o almoço, ou sequer se a terão.

O país, literalmente, mata os velhos, não assumindo tão pouco a responsabilidade de enterrar os mortos, como fez Sebastião José de Carvalho e Melo. Ao invés disso, deixa-os morrer à míngua, sem dinheiro para as mezinhas para tratamento das doenças que sobrevêm com a idade e sem instituições que os acolham e os dignifiquem. Para um problema sério o país trás consigo, na algibeira das calças, a magreza da esmola em moedas de alguns cêntimos. E a fantochada de apregoar, em época de eleições, que todos os velhos sem dinheiro para a sopa diária, terão agora os medicamentos inteiramente de graça. Podendo doravante morrer por falta de dinheiro para a sopa, mas mais lentamente, porque poderão tratar da gota desde que as empresas do Dr. Cordeiro produzam os medicamentos genéricos necessários.

É preciso que se vire a página do calendário e se chegue ao 26 de Abril. É preciso reabrir os quartéis das Caldas da Rainha e de Santarém, reciclar blindados artesanais e obsoletos, fazer ressuscitar homens que daí partiram sem irem em busca do poder e da fortuna. Do 25 de Abril, de facto, apenas nos resta a memória deles, dos Capitães de Abril.