20 de outubro de 2019

Foi domingo


Foi domingo. O outono encolhendo-se numa tarde de outubro, a estrada correndo para sul, ladeando a ria, a maré cheia. Nenhum vento, a longa calma das coisas quietas. Três flamingos na margem, as pernas esguias, o pescoço sinuoso. Os ninhos das cegonhas vazios no alto dos postes de electricidade. O céu deserto daquele voo majestoso de asa aberta. Tempo de migrações, as colunas de Hércules, a África do outro lado. O calor silencioso do deserto.



18 de outubro de 2019

No teu 108º. aniversário

Esta fotografia tem catorze anos. Com todos sentados à mesa, foste o centro do mundo e ainda mais se te acendeu o brilhozinho nos olhos. O teu sorriso simples foi uma flor silvestre erguendo-se do tojo.
Hoje completas mais um passo a caminho da eternidade. Apenas quero assinalá-lo e deixar pendente este sinal. Para que saibas que não estás só, que o mundo continua à tua volta.

9 de setembro de 2019

Doze anos, minha Mãe


Doze anos, minha Mãe. E as tuas mãos nas minhas mãos, o teu sorriso nos meus olhos, a tua serenidade no meu peito. As palavras que me faltam e o caminho de regresso que percorro. Já não conheço a estrada que me leva e já não me acenam as árvores que lhe cresciam nas margens. A aldeia são as mesmas casas vazias no fundo do vale. Mas esta desabrida canícula de Setembro chegou corrida a ventos fortes e trouxe com ela as chamas do inferno. Desapareceu o verde dos pinheiros e as cinzas ainda fumegam pelas encostas.

Apesar de tudo, não deixa de fazer-se a Festa Grande. Com os mesmos enfeites, singelos e simples, em papel de seda. A mesma banda, que vem de fora, tocando por entre o pó que se levanta sob a inclemência do sol, até ocupar o palco ao lado daqueles dois carvalhos centenários. A procissão atrás, com o pálio à frente, protegendo o padre – que também vem de fora, para dizer a missa, para a festa e para o que for preciso – e acrescentando dignidade ao cortejo. Depois, cabisbaixos e tristes, os homens dentro dos seus fatos de domingo, suportando o peso dos andores. E as mulheres, quase velhas, arrastando os pés e carregando à cabeça o desequilíbrio esguio das fogaças.

Tudo se arruma à volta do adro, procurando o fresco da sombra sob a copa das árvores. No melhor sítio armei a cadeirinha para te sentares e mantenho-me a teu lado, como se te guardasse. O teu sorriso é uma explosão tranquila que inunda o local, toda a gente te conhece, toda a gente traz palavras doces nas mãos com que te toca. Como a Gata, com aquele azul tão longo a encher-lhe os anos e a sair-lhe dos olhos. Aquele azul tão grande que atravessou o mar ainda antes de o ter visto. Sinto-te feliz sem precisar de to perguntar. Compro um bolinho que mais tarde iremos partilhar. No palco a banda começa a fazer-se ouvir no compasso simples de uma marcha. Porque no meu caminho, silencioso e triste, a dor e a saudade também se tocam alto!

20 de julho de 2019

Escrevo amigo com apenas cinco letras


Escrevo amigo com apenas cinco letras
E ficam-me todas as outras para emoldurar a palavra
E rodeá-la de folhas flores e frutos
Estender as mãos e os dedos
Abrir os braços
Cruzar distâncias e construir navios

Quando te conheci ainda não havia escrita
Nem cores nem raças nem religiões
E a brancura dos teus dentes
Iluminava-te o sorriso como se o sol nascesse
Nas quilhas frágeis que abriram o mediterrâneo
Aos fenícios e aos cartagineses
Para que o nilo pudesse ser o rio que é
Tão longo como o abraço que nos une
E tão estreito como a distância que nos separa
Mesmo depois de inventarem mares e continentes
E planetas longínquos
E estrelas para além deles e desta luz que nos brilha nos olhos

Ainda hoje quando escrevo amigo
Também escrevo cadeira e prato e peixe
E me sobram todas as palavras
Quando te sentas à mesa
De olhar doce e braços nus
Como se do mar nos chegasse o cheiro a maresia
E a cor única das acácias que nos perfumaram a infância
Tens os pés descalços
Pousados sobre a areia fina
Onde não chega a fúria das calemas
Mas se sente a brisa fresca afagando as casuarinas
E o voo dos pássaros no regresso a casa
Ao fim do dia é ainda este sentimento que fica
Este silêncio de veludo que nos aconchega
Este sussurro que nos amacia o olhar
E nos entra pelos ouvidos como se fosse uma balada
Quando nas mãos da noite
Chegam os sapatos de cristal
Que vão cobrir os teus pés simples de princesa
Porque a amizade é esta claridade de todos os momentos
Estas mãos e estes dedos
E este calor da noite que se estende pelo caminho
Que percorremos lado a lado
Como se fossem infinitas todas as horas




4 de julho de 2019

Cartão de cidadão


O meu Cartão de cidadão caduca a 29 de Agosto próximo. Depois de ter visto a questão da sua renovação ser tema de abertura de trinta telejornais e de saber que as pessoas iam de véspera para a porta das repartições, como se vai para comprar um bilhete para o estádio da Luz quando lá vai jogar o Gil Vicente, achei por bem acautelar-me e tratar do assunto com antecedência. Informei-me onde poderia tratar do assunto e na quarta-feira, dia 26 de Junho, na parte da manhã, dirigi-me a um cartório notarial de competência especializada. Como era de esperar, correu mal. Uma simpática e diligente funcionária veio atender-me ao balcão, numa sala absolutamente às moscas. Não estamos a fazer esse serviço, não temos sistema informático. Mas tenho informações de que a avaria é geral e não se prevê que seja resolvida hoje.


Com bom português, desconfiei. Porque ser português é isso mesmo, desconfiar do governo, da oposição, dos árbitros, da Câmara e da junta de freguesia. E fui a outro lado, onde nem chegou a correr, nem mal, nem bem. A maquineta que distribui uns papelinhos para evitar a formatura militar da bicha lá tinha, bem visível, o aviso: serviço do cartão do cidadão suspenso por razões técnicas. No caminho aproveitei e tomei um cimbalino – que maravilha de vocábulo, carago! -  num café modesto e voltei ao primeiro local. Poderia a ministra ter exorbitado das suas competências, ameaçado um qualquer amanuense, e ter resolvido a questão do sistema informático. Voltou a correr mal e a simpática funcionária, sem haver sistema, estava de saída para a sopa do almoço.

No dia seguinte descansei e deixei que o sistema pudesse regressar, com calma, sem pressas e que o drama do cartão de cidadão continuasse a abrir telejornais e a fazer abanar as orelhas ao senhor Rodrigues dos Santos, aquele que aos fins de semana escreve livros sobre os governadores e as suas amantes. Mas voltei na sexta-feira, dia 28. Pelos vistos o sistema informático recuperara dos cuidados intensivos. Havia uma pessoa a ser atendida e outra à espera, sentadinha numa cadeira. Aproveitei e sentei-me ao lado, folheando o jornal que, previdente, levara comigo. No máximo meia hora depois estava na rua, com o pedido de renovação feito e pagas as taxas correspondentes, no valor de 18 euros.

Vocês não vão acreditar e têm toda a razão. O português - se de facto vocês são portugueses de pendurar a bandeira nacional na varanda quando o Ronaldo vai à Madeira! - duvida de tudo. Desconfia do governo, da oposição, dos árbitros, da Câmara e da junta de freguesia. Mas hoje, dia 4 de Julho, ao sexto dia depois de ter ido tratar dele, tinha na caixa de correio a cartinha cheia de dobras e de códigos para ir levantar o meu novo Cartão de cidadão. Quer dizer, amanhã, quando se completa uma semana sobre a data em que foi pedido, posso ir levantá-lo.

Só espero que a notícia não corra rua abaixo. Porque certamente a ministra cai, o primeiro-ministro volta a Bruxelas para aquelas profícuas reuniões de dezenas de horas e o doutor Rio há-de vir ao meu encontro a insultar-me em alemão. Para eu lhe responder em umbundo. Mas registem porque vale a pena. O meu Cartão de cidadão demorou meia hora a pedir e menos de uma semana a chegar. Onde tratei dele? Pois bem, no 1º Cartório Notarial de Competência Especializada do Porto. Um serviço que eu até desconhecia!