21 de março de 2025

No dia mundial da poesia

No dia mundial da poesia

Um grito surdo

Um espesso escarro contra a cal branca da parede

Num dia de sol frouxo

Uma larga mancha infame

A desordenada peregrinação do povo da Palestina

Fugindo Faixa de Gaza abaixo

Faixa de Gaza acima

Arrastando os seus mortos pelos cabelos

Tentando furtar-se à metralha dos bons heróis

Que sobreviveram ao holocausto do século passado

Ferozmente armados até aos dentes

 

A poesia diária é tudo isso mesmo com dentes

Um horizonte de escombros fumegando

Tresandando a morte e a tragédia

Como se fossem fruta a cair de madura

Trazendo-nos o último e cavo lamento

De quem morre soterrado

Com cães a farejarem à superfície

Envolto numa irada revolta sem medida

Que há-de perdurar por todos os dias do futuro

Sempre ansiando por justiça

 

Mas antes da esperança

De que precisa uma criança?

De um peito farto de mãe em que se alimente

Olhando o teto que a proteja

Num horizonte largo que se veja

E  que se possa apertar com a mão quando se mama

 

As notícias da manhã foram diferentes

A judiaria cerrou os dentes e quebrou o cessar fogo

O que me levou a ter saudades de Castelo de Vide

Onde o branco das paredes brilha ao sol

E isso seja apenas o princípio

Porque correndo ou não pela Faixa de Gaza fora

Hão de morrer muito mais do que os quatrocentos que já morreram

 

E fico a pensar se as crianças

Sendo mais pequenas e com cabelos aos caracóis

Também morrerão mais depressa e cansando-se menos

Porque não há poesia nenhuma em que as crianças morram devagar



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