No dia mundial da poesia
No dia mundial da poesia
Um grito surdo
Um espesso escarro contra a
cal branca da parede
Num dia de sol frouxo
Uma larga mancha infame
A desordenada peregrinação
do povo da Palestina
Fugindo Faixa de Gaza abaixo
Faixa de Gaza acima
Arrastando os seus mortos
pelos cabelos
Tentando furtar-se à
metralha dos bons heróis
Que sobreviveram ao
holocausto do século passado
Ferozmente armados até aos
dentes
A poesia diária é tudo isso
mesmo com dentes
Um horizonte de escombros
fumegando
Tresandando a morte e a tragédia
Como se fossem fruta a cair
de madura
Trazendo-nos o último e cavo
lamento
De quem morre soterrado
Com cães a farejarem à
superfície
Envolto numa irada revolta sem
medida
Que há-de perdurar por todos
os dias do futuro
Sempre ansiando por justiça
Mas antes da esperança
De que precisa uma criança?
De um peito farto de mãe em
que se alimente
Olhando o teto que a proteja
Num horizonte largo que se
veja
E que se possa apertar com a mão quando se mama
As notícias da manhã foram
diferentes
A judiaria cerrou os dentes
e quebrou o cessar fogo
O que me levou a ter
saudades de Castelo de Vide
Onde o branco das paredes
brilha ao sol
E isso seja apenas o princípio
Porque correndo ou não pela
Faixa de Gaza fora
Hão de morrer muito mais do
que os quatrocentos que já morreram
E fico a pensar se as
crianças
Sendo mais pequenas e com cabelos
aos caracóis
Também morrerão mais
depressa e cansando-se menos
Porque não há poesia nenhuma
em que as crianças morram devagar
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