14 de março de 2006

Estórias da Finlândia

Há um bom par de anos o acaso da logística e a certeza do programa fizerem com que em Birmingham me tivesse sentado à mesma mesa com mais dois ou três portugueses, três ou quatro italianos e um sueco. Este, - como rezam os manuais, as estórias de banda desenhada e as memórias do algarvio Zézé Camarinha - era alto, louro, de olhos azuis, bem disposto e pândego. Transportava a ironia fina que nunca descortinei por detrás dos bigodes de um viking e a palavra tão afiada como a do protagonista da Ópera do Malandro. Quase não parecia nem alto, nem louro, nem de olhos azuis. Ridicularizou aquela cena surrealista dos ingleses entoarem em coro o "God save the Queen" para, de seguida, se afogarem numa qualquer mixórdia morna como sopa a que chamam cerveja.

Quando chegou a altura das costeletas de borrego com batatinhas novas e um indescritível molho espesso, insonso e desenxabido, não se conteve que não dissesse: estes ingleses nunca souberam fazer comida, estragam tudo! Mediterrânico e ignorante - duas fatalidades! - tive que ripostar para lhe perguntar se no seu recanto escandinavo as coisas não seriam muito idênticas. Riu-se de forma sonora e largou, sibilino: mas nós contratamos quem saiba fazer!

Poucos anos depois quis o destino fadista que nos encontrássemos de novo, desta vez em Estocolmo. Sem sermos capazes de pronunciar palavra, vendo corredores específicos para escandinavos nos aeroportos, deparando com um conjunto de países ditos ricos unidos no desiderato comum de terem uma única companhia de aviação comercial que servisse a todos. E, pior do que isso, vendo menos automóveis Volvo do que é possível ver nas imediações da feira de Carcavelos ou nas cercanias da Cova da Onça.

Apesar da língua arrevesada, com palavras cujo sentido se mede ao metro como antigamente se media o riscado para os aventais, fomos sabendo que, de uma maneira ou de outra, todos os nórdicos se entendiam entre si. Com uma excepção: a dos finlandeses que ninguém conseguia entender. Mal eu seria capaz de imaginar como essa dificuldade nos iria ajudar nos conturbados dias que passam para que, depois de S. Mamede, de Aljubarrota e do 28 de Maio, o país pudesse sair da cepa torta, globalizar-se, aumentar a produtividade e deixar de prestar vassalagem aos senhores William - Bill para os amigos e para os ministros! - Gates e Herman José.

O engenheiro José Sócrates, na qualidade de sua excelência o primeiro-ministro, nomeou um grupo de trabalho - sem concurso e em que dispensou os "boys", optando pelos amigos e correligionários! - e encomendou-lhes um estudo sobre os modelos de desenvolvimento económico que melhor se adaptassem a esta praia lusitana. Viajou para Helsínquia em voo charter, alojou-se num três estrelas sofrível e posou para a fotografia ao lado dos responsáveis finlandeses. E anunciou, solene e grandioso, ignorante e torpe, que aquele era o modelo que queria para o país. Não tendo um assessor que lhe lembrasse que nada havia de comum entre o sotaque cavado da cova das beiras e o finlandês, o engenheiro Sócrates fez o papel do Dr. Mário Soares a conversar com a Rainha de Inglaterra, sem intérprete. Não foi capaz de perceber que para adoptar o modelo de desenvolvimento escolhido nos faltavam os finlandeses e quem fosse capaz de os entender!

2 Comentários:

Às 6:36 da tarde , Blogger contradicoes disse...

Ele tinha uma forma infalível de resolver o problema, entregar a governação aos filandeses convidando simulteamente os seus principais empresários a investir em Portugal.
Com um abraço do Raul

 
Às 3:22 da tarde , Blogger Hugo de Oliveira disse...

Descobri este blog enquanto fazia uma pesquisa sobre a finlândia para a universidade! Ainda hoje é o dia que me rio da notícia sobre a possibilidade de implementar o modelo finlandês em Portugal. É impossível de todo! Os nórdicos tem um estilo de vida totalmente oposto ao nosso, considero-o perfeito!

Abraço!

 

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