15 de março de 2005

O circo volta à cidade

Depois do maremoto no sudoeste asiático, a que os repórteres televisivos de erudição estrábica, entenderam por bem chamar tsunami, Lisboa apavorou-se. Como se já não bastassem as obras de Santa Engrácia, a original solução para armazenamento de água no túnel do Terreiro do Paço e a inutilidade do túnel do Marquês, passou a dedicar-se especial atenção ao terramoto de 1755 e ao maremoto que se lhe seguiu e do qual nem o próprio Marquês de Pombal se terá apercebido. Tanto assim que não teve palavras que não fosse para os vivos, para cuidar deles, e para os mortos, para os enterrar.

Lisboa, como tanto gosta, especulou com o tsunami passado e com as perspectivas do tsunami futuro. Que amplitude teria, arrastaria por completo toda a praça a começar pelo cais das colunas, chegaria ao Saldanha, estaria a salvo a segunda circular e as arenas que a orlam, o que poderia acontecer à calçada de Carriche. Não se preocupou minimamente com o maremoto que, entretanto, o Dr. Santana Lopes levava à residência oficial de S. Bento, vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana, mesmo que as televisões o fossem dando em directo, chamando-lhe eufemisticamente actos de estado. Apenas frente à Praça do Império - qual império, porra? - o Dr. Sampaio entornava a sopa pelo guardanapo abaixo, perdia o apetite para os filetes de pescada, arrasava-o o fastio quando chegava à sobremesa e ao pudim do abade de priscos.

Ontem, depois de ter despejado o Dr. Santana Lopes da residência de S. Bento, Lisboa esqueceu-se por um dia que espera por um imberbe e efeminado D. Sebastião há não sei quantos anos, assim no meio de uma manhã de nevoeiro como aquela que acordou hoje. E excitou-se no meio da dúvida e da incógnita sobre a sorte nos números do euromilhões e o paradeiro incerto do presidente da câmara que não retomara o lugar nem a ele renunciara. Enquanto isso, sem ironia e sem nenhum sarcasmo, o Dr. Santana Lopes dormia a sono solto e uma empregada de quartos fez mesmo constar que ressonava.

À tarde as mais antigas profissionais do mundo viram Monsanto ser invadido por batedores da polícia, seguranças de dois metros de altura e limusinas importadas da América para levar ao altar noivos felizes e determinados na condenação do divórcio e do aborto com a mesma exuberância daquele padre que só dá a comunhão a quem primeiro tiver aproveitamento num curso de cristandade. O presidente que tinha sido e aquele que era reuniram-se numa casita rural de que a câmara dispõe no meio da mata, dada como pagamento de um qualquer dízimo para que não havia moedas de ouro. Como se fosse na Convenção de Évora Monte, o engenheiro Carmona - este apelido é fatídico, seja qual for o cargo que se desempenhe! - Rodrigues acedeu o que o presidente que tinha sido voltasse a ser e juntos, logo ali, decidiram emitir um comunicado e subir juntos, na manhã seguinte, a escadaria dos Paços do Concelho.

Hoje a cidade assiste à chegada tranquila dos cacilheiros vindos da outra margem. Excita-se ligeiramente com o fanatismo benfiquista do engenheiro Seara, exilado em Sintra, e questiona-se se ele acha mais bela a águia do que a D. Judite. Acredita que este ano é que é e que mesmo sem mudar pneus, como agora impõem os regulamentos, o Benfica vai por o Sr. Eusébio da Silva Ferreira a chorar de alegria e o Sr. Veiga a vender, com lucro, o Sr. Simão Sabrosa para uma qualquer equipa de amadores do Luxemburgo. Enquanto isso o Dr. Santana Lopes e o engenheiro Carmona Rodrigues, de braço dado, sobem a escadaria do edifício da Praça do Município. Para alegrar a cerimónia há raparigas de perna ao léu, dançando músicas alegres e agitando vaporosos véus de tule e organdi enquanto soltam gritinhos de histeria e de paixão.

Hoje eu gostava de estar em Lisboa e não era para visitar o Mosteiro dos Jerónimos. Era para ver a cara dos coitados dos lisboetas. Mas tenham esperança que em Outubro isso passa: o Dr. Santana Lopes perdeu hoje a Câmara de Lisboa.

1 Comentários:

Às 10:35 da manhã , Anonymous Anónimo disse...

O Santana Lopes não consegue fazer uma e só uma de jeito! Luis Villas

 

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