21 de abril de 2009

Uma história

Joaquim, nome fictício de uma história real, é transmontano com mais de 50 anos. Na terra fez o segundo grau com distinção e com o sacrifício dos progenitores. Aos doze anos perfilhava-se-lhe no horizonte o futuro do sacho, da enxada e da guarda das cabras, saltando montes e penedos para devastarem as parcas couves galegas dos vizinhos. Como se isso fosse o melhor para si,entenderam os pais mandá-lo para a cidade, a aprender um ofício e a virar-se na vida. Foi assim que escreveram a um primo que labutava no Porto como privilegiado caixeiro de uma próspera mercearia que, anos mais tarde, sem queixas e sem crise, as grandes superfícies haveriam de sufocar e de levar a uma morte sem ressurreição. Por esta via, pedido emprestado o dinheiro para o bilhete só de vinda, chegou à cidade invicta com a melhor roupa coçada que a mãe pudera aprontar-lhe e com um desconfortável par de tamancos que lhe protegessem os pés do frio das calçadas.

Por empenho do primo o seu patrão fez o subido favor de o empregar a troco de dormida, comida e nenhum salário. Pondo-o, aos 12 anos, a entregar as encomendas pelas portas, embasbacando-se com as distâncias, a altura das casas, o comprimento das ruas e o ar solenemente atarefado das pessoas sentadas às mesas dos cafés que o tempo haveria de transformar em balcões de bancos. Levantava-se pela madrugada, tiritando de frio ainda que fosse Verão, e partia a descobrir a cidade e a decorar-lhe o nome das ruas, vergado ao peso da ceira. Roendo uma côdea seca de conduto ia esbugalhando os olhos enquanto apertava o estômago vazio de alimento e deixava sangrar o coração, saudoso da terra, dos pais e das cabras invadindo as modestas hortas dos vizinhos.

Foi crescendo, enquanto insistiam em dizer-lhe que se estava a fazer homem. Acabou recebendo o primeiro salário de miséria que, apesar disso, o fez chorar. Usou as primeiras cuecas, comprou os primeiros sapatos baratos para se aperaltar aos domingos e, espigadote, deitar o olho às jovens sopeiras cujos seios se deixavam adivinhar para lá das blusas de chita barata. Teve o primeiro namoro. Nem sabe como, arranjou um tecto pobre numa ilha, casou, teve filhos. Afeiçoou-se à cidade, fez alguns amigos da sua condição. Gente simples, gente sem maior ambição que não fosse subsistir.

A tísica roubou-lhe a alegria com que os pobres convivem tão facilmente, ao escolher-lhe um filho. Na esperança desesperada de o salvar, excedeu-se e cometeu um erro. Na farmácia, sem nenhuma intenção de se apropriar dele, utilizou dinheiro do patrão para pagar as injecções que a doença do filho urgentemente reclamava. Sem grémio, sindicato ou tribunal, foi despedido com justa causa, sem possibilidades de apelo para nenhuma instância superior. Marcaram-lhe a vida com um rótulo que carrega ainda hoje: ladrão!

Joaquim, nome fictício de outra história real, não importa onde nasceu nem que estudos concluiu. Mas presume-se que tenha feito o segundo grau, completado o liceu, frequentado uma universidade. Admite-se que tenha frequentado tabernas onde se vendia vinho a copo e a bebedeira se atingia a baixo preço. Caiu pelas valetas, enveredou pela política, opôs-se à ditadura, mesmo sem sentimento ou convicção. Nunca trabalhou. Pode até ter estado preso e usa o facto como um doutoramento. Começou por uma junta de freguesia, passou à vereação, fez inimigos, sacaneou conhecidos e desconhecidos, chegou a presidente de Câmara. Multado pessoalmente, por qualquer razão, decidiu democraticamente que os fundos da autarquia suportassem o encargo. Uma coisa que se chama Tribunal de Contas detectou a situação e classificou-a de ilegal e muito grave. No mínimo acha que o valor indevidamente utilizado deve ser reposto. Não houve nem haverá procedimento disciplinar ou criminal. Sua excelência não será despedido nem perderá o mandato. E tem a intenção de interpor recurso caso o obriguem a repôr o dinheiro de outros que utilizou em proveito próprio. Já é de novo candidato. O mais provável é vir a ser reeleito. Não lhe colaram nenhum rótulo à carreira ou ao currículo. Mas não deixa de ser um ladrão. E não é o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro. É apenas mais um! A história é que não é a mesma...

1 Comentários:

Às 10:22 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

Uma belíssima histórica, infelizmente, verídica.
Um belíssimo texto, como é habitual.
Um abraço.
Fátima

 

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