A actualidade nacional

Já ontem o país se manteve impaciente e nervoso, até às três da tarde, como se fosse casar a sua única filha, rica, com um pelintra que, com a comunhão de adquiridos, assinasse um passaporte para a fortuna. O drama da chamada comunicação social, a especializada e a outra, já era tentar adivinhar se Vítor Baía seria ou não um dos eleitos, ainda que estivesse cansadíssima de saber que o não seria. Como não foi.
Logo a seguir à enumeração, lenta e pausada, dos nomes dos seleccionados o Sr Scollari foi questionado sobre as razões porque decidira assim. Não sendo simpático, passando a vida a dizer em voz alta que não exerce o cargo para fazer fretes, tentou responder polidamente. Para acabar a dizer, aliás muito correctamente, que lhe competia falar sobre os 23 que escolhera e não propriamente sobre algumas centenas que deixara de fora. O que está rigorosamente certo.
Hoje os jornais preencheram as primeiras páginas com títulos de mão cheia e as páginas interiores com dados biográficos sobre os 23 cavaleiros da Távola Redonda. As datas de nascimento, a altura, o peso, a cor dos olhos e a medida do colarinho. Promoveram-se debates públicos, que ainda não terminaram, e auscultou-se a opinião dos ouvintes. Os portugueses podem ser preguiçosos, levantar-se tarde, abandonar a escola antes de tempo e produzir pouco como se não cansa de salientar o ministro da indústria. Mas sabem de tudo, especialmente de futebol. Hoje o seleccionador Scollari foi apelidado de cabo lateiro, sargento e general. Elogiou-se-lhe o critério - de que ele nunca falou - e reclamaram-se explicações, patrioticamente, em nome do país. Adiantaram-se conselhos tácticos e sussurraram-se infalíveis estratégias de vitória. Cantou-se o hino nacional, enrolou-se a bandeira das quinas ao redor do tronco, a emoção embargou vozes e outros, mais frágeis, deixaram cair a lágrima furtiva.
O governo? Bem, como tanto gosta, passou despercebido, sem se falar dele. Em plena estação do Rossio um bando de secretários de estado foi metendo impunemente a mão nos bolsos dos contribuintes que regressavam a casa. Sem polícia que os importunasse e muito menos os ameaçasse com a prisão e a companhia do Dr Vale e Azevedo. Ontem também, um ministro que não tem jeito nem para a prédica nem para o sermão, anunciara a privatização da água. Ninguém lhe ligou nenhuma, como se isso não interessasse. Com o Euro 2004 à porta, de facto, é espúrio estar a discutir a questão da água. Se Deus quiser, no próximo inverno, há-de chover muita!
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