1 de junho de 2004

O dia internacional da criança

Sempre me pareceu uma chinesice este hábito urbano do dia internacional dedicado a todas as pessoas e a todas as coisas. O dia da mãe, o dia do pai, o dia da árvore, o dia sem carros, o dia da criança. Fica sempre a sensação de com isso se querer expiar a culpa e se avançar para mais um ano sem preocupações. Chegados ao dia da mãe, oferecemos-lhe um ramo de rosas, levamo-la a almoçar fora, reiteramos-lhe o nosso acrisolado amor filial e avançamos para mais um ano de esquecimento e de indiferença.

O mesmo se diga do dia internacional da criança, que hoje se comemora. Deveríamos dedicar às crianças todos os dias e todo o futuro. Como seres adultos e ignorantemente irresponsáveis apenas vamos aumentando as dívidas que hão-de pagar e aumentando os índices de produtividade que hão-de cumprir. Chamamos-lhe globalização e competitividade, e asseguramos-lhe uma luta titânica pela sobrevivência. Sem grandes perspectivas e sem nenhum futuro.

O dia da criança devolve-me à memória a ironia elegante e fina de José Rodrigues Miguéis, tão ignorado enquanto vivo, tão esquecido depois de morto. Conheci-o por intermédio de um pequeno livro, de edição modesta, já todo desengonçado na lombada, percorrido por muitas leituras, trazido por um amigo de muitos anos. É proibido apontar! Nunca mais esqueci o essencial do texto que aí está incluído sobre as crianças. Aquelas que - e socorro-me apenas da memória - ousamos classificar de ariscas quando nos rejeitam, depois de as lambuzarmos com beijos, de as atirarmos ao ar e lhe termos esborrachado as barriguinhas frágeis com cócegas. O que elas deviam era dar-nos facadas!

Neste dia é apenas um pequeno livro, delicioso, que recomendo. Se estiver disponível. Nas feiras do livro, nos escaparates das livrarias, na poeira sagrada dos alfarrabistas.

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