31 de dezembro de 2004

Linguarejar

De há tempos a esta parte que durmo tranquilo e que deixei de me preocupar com os riscos que, pensava eu, corria a língua portuguesa. Tal aconteceu pelo efeito soporífero dos eruditos, profissionais encartados, possuidores de alvará, com colunas nos jornais, aparições celestiais nos telejornais e até mesmo com blogues com porta para o globalizado mundo virtual. A tranquilidade acentuou-se quando um dos meus descendentes em linha recta, não me recordo já com que grau de parentesco, me apareceu em casa com um ditado de três parágrafos, reproduzindo na perfeição os diálogos da Dra. Júlia Pinheiro com o seu interlocutor Professor Pavaroti de Jumento. Do cacarejar ao zurro tinha sido tudo fielmente reproduzido, senti que estava assegurada a continuidade da língua e a independência da Pátria. Admiti até que o Sr. José Saramago pudesse regressar ao país, desde que este fosse previamente desinfectado de Sousas Laras e que, a fixar residência na Zambujeira do Mar, pudesse haver chicas a passear-se na praia durante todo o ano a fim de lhe estimular a inspiração.

As jovens e os jovens repórteres que as televisões usam para os seus exteriores consolidaram-me o convencimento. Não me ficaram nem dúvidas nem receios. Apenas dois exemplos, que mais me não ocorrem de momento, o ilustram com toda a força da Guernica.

Exemplo A: A jovem repórter, destacada para uma reunião de pessoas importantes, é inquirida sobre o número de pessoas que já tinha chegado. Lesta, responde: já chegaram cerca de oito pessoas. Fico de imediato com a visão rigorosa da cena, teriam chegado entre 7,5 e 7,9 pessoas. A oitava teria meio corpo dentro da porta ou, sendo mulher e dependendo da medida, teria também já avançado com o par de mamas. O rigor da linguagem é muito bonito, não deve ser menosprezado.

Exemplo B: Esta manhã, na TSF, uma rádio de referência que incorre no erro de ainda não ter recrutado o Sr. Luís Delgado para o seu quadro de colaboradores e que, por isso mesmo, sintonizo menos. Uma jovem noticia o incêndio numa discoteca algures em Buenos Aires onde estariam algumas seis mil pessoas. E adianta que, segundo números oficiais, há 179 mortos praticamente. Fico certo, ciente e sabedor. Mas tenho pena daquelas 179 pessoas, todas praticamente mortas, quase no último estertor. Se Deus fosse de facto misericordioso pouparia ao menos umas quantas. Assim é mais que certo que à hora do noticiário seguinte estariam todas de facto mortas.

Por obrigações pessoais que não sou eu a estabelecer, não ouvi o noticiário seguinte. Mas, mesmo agora, estou atento. A ver se ouço repetir a notícia e se fico a saber se permanecem praticamente mortas ou se já estão só mortas, sem mais nada.

4 Comentários:

Às 12:19 da tarde , Blogger Hugo Garcia disse...

Desde que ouvi num noticiário "as pessoas que haverem" já aceito tudo.

Mas para ser sincero preocupa-me mais a dificuldade que muitos jornalistas sentem em ser imparciais.

 
Às 4:40 da tarde , Blogger rajodoas disse...

Aqui em concreto não se trata própriamente de uma manifestação de imparcialidade, trata-se isso sim de
um chorrilho de disparates a que muito bem o amigo Luis
faz alusão. Já não sei se estes drs. jornalistas que até
conseguem dialogar com jericos não estão de alguma forma
a sentir-se influenciados pela linguagem destes.

 
Às 10:58 da tarde , Blogger antonio disse...

Um feliz 2005 aqui para esta casinha.
Haja paz, amor, solidariedade entre os homens de boa-vontade.
Tudo de BOM para ti.

Um abração do
Zecatelhado

 
Às 1:10 da manhã , Anonymous Anónimo disse...

Tambem me aborrecem os tiques de linguagem, verdadeiras modas acéfalas, como o uso da palavra 'esse' e suas variantes onde nada fazem. P.ex.:

'Os convidados, ESSES, estão a chegar a conta-gotas ao jantar'

Pedro Baganha

 

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