16 de dezembro de 2004

Par de botas

Senhor Ministro das Finanças,

Ouso dirigir-me a V. Exa. contando com a compreensão e a benevolência que a quadra festiva justifica. Faço-o na qualidade de português de pleno direito, maior de idade, portador do bilhete de identidade como manda a polícia e convenientemente calçado como, para bem do país e aumento da produtividade, em tempos decretou o governante Nandim de Carvalho. Nunca, nem em pensamentos, atentei contra a autoridade e segurança do Estado, nomeadamente introduzindo palitos de madeira nas ranhuras das fechaduras das portas que tanto embaraço causaram ao ministro Ângelo Correia. Penitencio-me por não ser nem sócio nem simpatizante do Benfica mas posso apresentar certificado da junta de freguesia atestando que não frequento o estádio do Dragão, não empunho bandeiras aos quadradinhos e nunca me cruzei com o senhor Pinto da Costa em nenhuma casa de alterne. A título meramente informativo cometo a inconfidência de referir que a junta a que pertenço é superiormente dirigida por um militante do outro partido da coligação e que o mesmo não bebe, não fuma, não dorme a sesta e nunca foi condenado em juízo. Quanto ao resto, não sei de nada mas, como não sou de intrigas, não me meto na vida de ninguém.

Tenho percorrido a Rua de Santa Catarina mirando as prenditas que poderia comprar para as crianças e enjoando com os preços que, não sei porque razões, me causam náuseas, vómitos e até aquela coisa que deu ao Vítor Baía no Japão e que, em Portugal, não sei como se chama. E as crianças o senhor sabe como são: querem patins em linha, bicicletas, play stations que, mesmo sem recibo e recorrendo ao crédito pelo telefone, custam os olhos da cara.

Como está na moda e me tranquiliza a facilidade com que o doutor qualquer coisa das Neves lhe chamou simples operação financeira, ouso vir propor-lhe um negócio. Dos bons, daqueles em que se diz que ambas as partes saem a ganhar, embora a melhor parte reverta a bem do orçamento do ministério, do progresso do país e do futuro radioso das gerações futuras, incluindo a dos nossos filhos. E, sendo assim, poderá certamente o senhor ministro comprar uma coleira nova para o gato, uma trela em couro para o cão e até um pirilampo novo, de cor vermelha, para o tractor em que se entretém pelo monte, assustando as ovelhas e espantando os melros. Melros, disse eu, não corra V. Exa. a imprudência de perceber Mellos, que são um tipo de passarocos completamente diferente.

Proponho-me vender-lhe um belo e vistoso par de botas, maneirinhas, número quarenta, de boa marca, com meio cano, nada cambadas, biqueiras não esfoladas e solas de couro em bom estado e prontas para as voltas. Custaram-me uma fortuna, mas a necessidade obriga e vendo-lhas baratas, por ajuste directo se isso não ferir a ética política que ontem o ouvi referir e que fez pulsar mais rápido o meu pobre coração de patriota. De igual modo me comprometo a tomá-las de aluguer e assumo o compromisso de as engraxar todas as semanas, substituir-lhes os atacadores, mandar mudar-lhes os tacões e aplicar-lhes meias solas sempre que sinta que os pés se me encharcam na água das sarjetas.

Com a mesma paciência de sempre fico a aguardar o favor da sua pronta resposta, dentro dos próximos quatro anos. Antes que o senhor tome a pouco patriótica decisão de se reformar ou a Assembleia da República que para aí vem faça a revisão da constituição e legisle ao arrepio dos princípios de ética que V. Exa. comprovadamente defende. E com que tanto se excita este meu tão emocional coração!

4 Comentários:

Às 6:03 da tarde , Blogger Carlos a.a. disse...

Ó Luís Filipe Vieira, já agora, por favor, inclua aí umas ceroulas que me ofereceram e nunca estreei por não terem berguilha!
Diga-me depois se foram ou não ajustadas directamente ou por interposta pessoa.
Antecipadamente grato.

 
Às 6:35 da tarde , Blogger LFV disse...

Claro que sim, claro que incluo, amigo Carlos. Sendo as ceroulas novas só devem ser daquelas que apertam no tornozelo com uma fitinha de nastro. Tudo de qualidade, cem por cento em algodão!

 
Às 9:26 da tarde , Blogger rajodoas disse...

É impagável, amigo Luis, confesso que cada vez mais me
imponho a obrigatoriedade de passar por seu Cabo Raso
que entre outros fazem as minhas delícias de leitura. Mas alguma vez o meu sarcásmo lhe chega às botas com que está a tentar negociar por ajuste direto com o titular da pasta, nem pensar.

 
Às 9:51 da manhã , Anonymous Anónimo disse...

Eu sugiro que, se o ministro comprar as botas, lhe ofereça uma cadeira de lona e um manual: "Como Observar o Mar, Sentado e de Botas Calçadas, Sem Cair da Cadeira". Um excelente Pack 3!!!
VG

 

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