Inquéritos e auditorias

Há inquéritos para tudo e para todos, inquirindo desgraças, tragédias e mesmo algumas disfunções, porventura até de natureza íntima e, se calhar, sexual. Exceptuando os licenciados em direito que, por dons sobrenaturais, estão habilitados a inquirir sobre tudo e a desempenhar todas as funções, os licenciados em medicina são peritos em literatura como Júlio Dinis, os licenciados em química poetas de rima fácil como Rómulo de Carvalho e os sociólogos afadigam-se pela participação em fóruns mundiais que protejam as espécies amazónicas. Inclua-se ainda nas excepções o caso patológico de Luís Delgado para cujas múltiplas competências e fáceis inflexões e golpes de coluna a ciência não conseguiu encontrar ainda nenhuma pecaminosa justificação.
Qualquer líder partidário que ambicione ser eleito deputado e chamado a formar governo ameaça, com ar sisudo, com auditorias às contas públicas sem saber o que diz, mesmo sabendo perfeitamente que as ameaças, como as culpas, hão-de morrer solteiras. Por estes dias o presidente Sampaio, que vai lançando os derradeiros foguetes e apanhando as últimas canas, se referiu à nacional idiotice de ter cursos superiores que nunca serviram para nada, são frequentados por menos de vinte alunos e custam ao contribuinte - como repetidamente afirma o ministro das finanças! - importantes verbas que poderiam investir-se no túnel do Marquês ou no chamado edifício transparente. Sugeriu que a propósito se realizasse uma auditoria de que pudessem extrair-se conclusões objectivas. Deformação de jurista que, creio, a sucessão de dois mandatos não conseguiu fazer esquecer. De imediato se conheceram as mais díspares reacções. Os sportinguistas, naturalmente, aplaudiram. Os benfiquistas vaiaram. Os portistas recomendaram a Pinto da Costa que se entendesse com o presidente da Liga e que, em conjunto, nomeassem o árbitro que agisse mais e falasse menos. Quanto ao Anacleto Louçã convocou uma convenção, fez coro no refrão quando foi entoada a internacional a garantiu que o poder, para não variar, há-de chegar na ponta afiada de uma auditoria!
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