2 de junho de 2005

Referendo constitucional das autarquias

O regime político do país é uma ditadura alternadamente exercida por dois partidos, eventualmente com a cúmplice participação de um outro partideco mais ou menos fantoche - onde é que já vi esta expressão? - que ajude à formação daquilo a que os políticos profissionais designam por maioria estável e coerente. São 116 representantes num universo de 230 em que 226 labutam esforçadamente na defesa dos quase dez milhões que habitam no extremo mais ocidental da Europa. Mais 2 que defendem a curta meia dúzia de emigrantes que já falam francês como o Dr. Mário Soares e alemão como o Fernando Meira. Os 2 restantes representam as sedentárias e insignificantes comunidades de fora da Europa, obrigando-se a mais longas deslocações, mais frequentes viagens e mais numerosas jantaradas onde os prazeres de Baco saem ao preço exorbitante a que em Antuérpia se vendem, lapidados, os diamantes da candonga angolana.

Por comodidade e exigência da Desunião Europeia o regime dá pelo nome de democracia representativa. Expressão válida mesmo quando os dois partidos com mais adeptos inscritos ainda não conseguiram extirpar o regime dos grupelhos que ou não elegem nenhum deputado ou chegam a registar votações que são percentualmente tão vergonhosas como o défice que tanto atormenta o governo e o Dr. Vítor Constâncio. De resto, entre ser representado pelo Dr. Salazar ou pelos 230 ilustres deputados que se sentam em S. Bento - quando sentam! - há apenas uma diferença de 229 unidades, numericamente imaterial, mesmo que se não chame à baila a governanta D. Maria.

Ninguém melhor do que o segundo sargento do exército belga Joseph Desiré, promovido por mérito e despacho próprio ao elevado posto de general de muitos biliões de fortuna, sob o apodo de grande leopardo e o cognome de Mobutu, garantiu a digna representação do povo zairense. Sem que se sugiram comparações em que é perito o Dr. Jaime Gama, ninguém representaria o povo da Madeira melhor do que o Dr. Alberto João, sacrificadamente entregue ao trabalho mesmo depois de reformado da função pública com uma pensão de merda, cujo valor me impede, por decoro e esmerada educação, de pensar sequer em repeti-lo.

Agora, em mais um embuste que lhes garanta a alternância no ministério e a fartura da ração na gamela, os dois agentes democráticos da ditadura conluiaram-se mais uma vez. Depois da peça literária que foi a pergunta que injustamente foi rejeitada ambos acordaram em que o referendo sobre o tratado constitucional europeu se realize em conjunto com as próximas eleições autárquicas. Por mera questão de economia e para benefício do défice como, por esquecimento, ainda não disseram o Dr. Marques Mendes e o Eng. José Sócrates. Mesmo que não tenham outras vitais preocupações que não sejam a economia, com o aumento dos impostos, as viagens de Falcon a Bruxelas e o bem-estar incondicional dos habitantes da Beira interior.

Por mim, a norte, vou esperar que o Futebol Clube do Porto ganhe o próximo campeonato. Para convocar para a Praça da Liberdade e para o dia das comemorações uma manifestação contra o IPPAR por causa do túnel de Ceuta. Nesse dia, se ainda tiver alguma coisa a ver com isto, até o Dr. Rio vai rasgar em público o cartão de sócio do Boavista. E o problema vai acabar resolvido!

2 Comentários:

Às 3:11 da tarde , Blogger Carlos a.a. disse...

Grande texto, Luís Vieira, sobre "paradoxos", talvez...

Abraço

 
Às 5:12 da tarde , Blogger AM disse...

200 % de acordo

 

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