Fátima, ontem!

De terços para benzer, de madeira a madrepérola, Senhoras de Fátima de tamanhos e preços variados. Santos Antónios, de menino ao colo e hábito longo, sem nenhum cordel infame que lhes pudesse ser puxado pelas costas. Cauteleiros apregoando lotaria, popular ou clássica, ao preço das possibilidades de cada um e à medida das suas reais necessidades ou ambições. Ciganas de tez morena, cabelos compridos e roupas escuras lendo sinas, vendendo almanaques, Borda d'Água e Seringador. Cegos apoiados em bengalas, tinindo moedas de euro na lata destinada às esmolas esperadas, com segurança prudentemente reforçada por um cadeado comprado num loja dos trezentos. Barracas vendendo recordações e souvenirs e o mais que lhes chamam noutros dialectos dessa Europa por aí fora que não sei.
Velas de pôr a arder na manhã sem vento, vendidas ao preço do que se quiser dar e ainda a metro, de vinte centímetros à altura de uma tabela de basquetebol. Brinquedos artesanais feitos de madeira, coloridos como a romaria, de raparigas de blusas escarlates, barriga à mostra, dragão tatuado ao fundo das costas, os seios erectos nesta adoração ao sol que queima. Memórias que a Irmã Lúcia não escreveu e que, sob a azinheira, apareceram feitas livro. Santos, santinhos, pedintes espojados a todas as entradas e ladrões na mira do bolso onde a carteira tenha acoito.
Esplanadas cheias, cerveja jorrando por goelas secas fora das horas a que se recomenda vender álcool. Cachecóis do Benfica, fotografias dos três pastorinhos, camisolas do Cristiano Ronaldo, desenhos de Bordallo, canecas das Caldas, orações impressas, incensos para males de amor e extermínio de ratos. Água benta, como dantes, ao litro e ao quartilho. Restaurantes e tabernas de mesas postas, tendas montadas à sombra das azinheiras, caldeiradas de cabrito feitas em equipamentos de campismo. O suor, viscoso como a multidão, escorrendo pelos rostos, à mistura com o vinho que empurra o picante e a feijoada.
Impávida e serena a Senhora de Fátima exposta em montras e passeios, de tamanhos e materiais diversos, mantendo-se neutra, sem cachecóis ao pescoço e sem camisolas vestidas. A Cova da Iria é uma festa. A par com gente que caminha de joelhos, cumprindo promessas, a Ave Maria é recitada do altar em todas as línguas, de ocidente a oriente, de português a polaco. A peregrinação dá em desfile de automóveis novos, topo de gama, com matriculas estrangeiras, ar condicionado e ABS. E em negócio santo e santificado para tudo e para todos, com pessoas a falar francês de Aljustrel e português de não sei quê sur Marne. Ontem foi a do emigrante!
1 Comentários:
Excelente, como sempre :)
(Se não foram os "pop-ups" este seria, sem dúvida o blog mais lido, ao menos por mim) :-)
Um abraço
AMNM
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