17 de fevereiro de 2012

O impedimento


O país foi ontem percorrido por um autêntico espasmo patriótico que lhe arrepiou a espinha dorsal, de Chaves a Faro. E tal foi que, de súbito e de forma imprevista como é seu uso, foi sua excelência o senhor presidente de todos os portugueses, titular de uma pensão de reforma à imagem e semelhança destes, acometido de um atípico impedimento, quando se dirigia à escola António Arroio, e se encontrava já próximo desta, no cumprimento escrupuloso de um dos pontos da sua sobrecarregada agenda diária. Tranquilizem-se todos os colegas que se espalham à volta de improvisadas mesas de sueca, do jardim da Estrela ao de São Lázaro, que sua excelência não teve convulsões nem perdeu os sentidos e se manteve sempre lúcido e de olhos abertos.

Fontes fidedignas, como as que alimentam de notícias a agência do regime e a televisão do ministro Relvas, adiantam mesmo que sua excelência despertara à hora habitual, ao som dos primeiros acordes da sinfonia número 40 de Mozart, tendo em fundo o conhecido corridinho Tia Anica de Loulé que, por respeito às origens, sua excelência continua a exigir no protocolo da sua vida em Belém. Com o quarto convenientemente climatizado, e ainda de pijama, fez sua excelência o seu exercício físico matinal, composto por seis flexões, três alongamentos e quatro bocejos, sempre com o sorriso saltando-lhe dos lábios e o seu conhecido sentido de humor soltando-se para deleite dos camareiros e do chefe da sua casa civil.

Foi ao duche habitual, usando champô de frequência e gel de banho que qualquer sem abrigo poderá encontrar nas lojas do Pingo Doce. O chefe da sua casa civil, em pessoa, fez questão de lhe estender o lençol de banho, em pano turco branco de não sabemos quantos gramas, para que se enxugasse. Vestiu a roupa interior habitual, incluindo a camisola interior e as ceroulas, pôs a gravata com o nó desenhando um rigoroso triângulo equilátero e envergou o fato indicado pelo assessor que tem a seu cargo essa complexa tarefa política, antes de tomar o seu frugal pequeno almoço. Composto, como sempre, por produtos integralmente nacionais, com exceção dos corn flakes, fabricados em Rio Maior e dispensando a habitual fatia de bolo rei, dado o adiantado da hora.

Tomou lugar no banco traseiro do Mercedes vulgar em que sempre viaja e a comitiva, precedida por duas dúzias de batedores e respetivas sirenes, meteu-se a caminho até que o insólito acontecesse. Sua excelência exercitava palavras de incentivo aos jovens que ia visitar, no sentido de se aplicarem no estudo e poderem rapidamente concluir um curso superior e um mestrado, engrossando a classe dos desempregados mais qualificados da Europa, que até a senhora Merkel inveja. Quando os serviços de informação e a maçonaria trouxeram ao seu conhecimento a perigosa concentração de meliantes em frente da escola, exibindo cartazes que reclamavam uma refeição diária, transportes a preços razoáveis e invocavam o valor das pensões de reforma dos pais, que não dão para as despesas.

Sentiu sua excelência, com sensatez, que a sua segurança corria riscos graves, o que de imediato lhe fez subir a tensão arterial e o ritmo cardíaco. De tal modo que teve de ser o seu ajudante de campo a ordenar a inversão de marcha e a retirada para Belém. E sua excelência, sempre tão afoito e determinado a pular barreiras e a subir a coqueiros, perdeu as estribeiras e não controlou a tripa. Apesar disso a agenda prosseguiu normalmente, depois da interrupção para novo duche e mudança de roupa.

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