1 de abril de 2012

Dia das mentiras


O dia um de abril vem sendo, desde há muito, celebrado como o dia das mentiras. A tradição deve vir de muito longe e hoje deixou de fazer o mínimo sentido. Aparentemente seria um dia em que se poderia mentir livremente, sem vergonha e sem recriminação, pública ou privada. Mentir no dia um de abril era politicamente correto, socialmente recomendável, religiosamente perdoado. Nem Eça, que eu tenha conhecimento, alguma vez gastou aparo e tinta com o assunto. O cozido à portuguesa, no barracão de José Estevão, era definitivamente mais importante e mais patriótico.

Hoje, um de abril é sempre que um político quiser. Seja ele presidente, primeiro ministro, ministro ou ajudante, presidente de câmara, Fátima Felgueiras ou Isaltino Morais, governante das ilhas ou Alberto João. É confrangedor ouvir Passos Coelho, com o ar solene de um palhaço de circo, anunciar a liberalização dos despedimentos a pretexto de criar emprego. Na linha filosófica alinhavada por Manuel Carrilho e José Lello, de quanto mais porrada me deres mais eu gosto da tua filha. O país não é nem impostor nem hipócrita, é apenas um pedaço de terra, abandonado ao pousio e entregue à tutela de amanuenses com o diploma do 2º. Grau.

Qualquer falhado sacristão de Miranda do Douro chega às cadeiras de São Bento, enriquece sem causa e viaja para o Brasil para tomar um café np Rio de Janeiro. Com maior facilidade do que ir ao cinema a Bragança viaja para o oriente no dia seguinte, apenas porque alguém lhe disse que Pessoa – o do flagrante de litro! – dedicara ao assunto alguns quatro versos e sete pensamentos. Mais longo e difícil é o caminho para a penitenciária de Lisboa onde o erário público o alimenta e lhe paga as faxinas. Mais facilmente viajou o inocente Vale e Azevedo do estádio da Luz para Londres onde se debate com os problemas de condução pela esquerda, ele que é dextro. Para além de vigarista, uma ocupação acima de qualquer suspeita e de qualquer lei.

Não sendo proíbido, há até quem tenha nascido a um de Abril, como se alguém pudesse levar isso a sério. Quem nasce num dia destes já vem com o curso tirado. Licenciatura em engenharia civil e mestrado em filosofia, pelos cafés de Montmartre. Que o diga alguém que hoje, algures, faz 53 anos e, no único assomo de consciência que teve até hoje disse tudo de si em duas palavras: “não presto”. E é que não prestas mesmo. Para nada. Como a banca, os seguros, as gasolineiras e os governos. Entre outros! Como o país, que de certeza faz também anos a um de abril.

1 Comentários:

Às 7:59 da tarde , Blogger kittysite disse...

LOLLLLLLLLL.
Adorei,adorei,adorei.

 

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