15 de agosto de 2014

António José Seguro

António José Seguro nunca me enganou. Por detrás daquela carinha de bem comportado menino do coro, a que falta a bata branca, está o prodígio que aos cinco anos sabia de cor todo o catecismo – incluindo o Credo e a Salvé Rainha -, aos sete ajudava à missa de domingo e agora está predestinado a salvar a pátria, chegar a Marte e colonizar todos os satélites que giram em volta de Saturno. Indeferindo, logicamente, qualquer pedido para que se exume o que resta de D. Afonso Henriques na sé de Coimbra ou repita o torneio de Arcos de Valdevez, para tirar teimas.

Em prosa, que ele assina e que não se sabe quem redigiu, por sinal sem erros de ortografia nem calinadas de maior, anuncia-se a indústria como o novo motor da economia, uma novidade. Porque o país, como se sabe, não tem agricultura. Apenas algures dois casais de jovens agricultores, na casa dos oitenta anos, planta duas couves para o caldo e corta, à foice, umas ervas para as cabras. O país não tem pesca porque os barcos que restam sulcam o Douro à procura de Barca d’Alva, com turistas ingleses debruçados nos convés, e os pescadores à linha envelhecem nas margens, esperando pelo crescimento da tainha e pela baixa do custo da minhoca.

A indústria será de facto o motor que não há e que, se houver, se não sabe para que serve. Têm-se visto motores em muita coisa, de bicicletas a submarinos, mas nunca nenhum iluminado se tinha lembrado de atrelar o ministério da economia a um motor e a rebocá-lo para onde a indústria exista, representada por uma fábrica com os trabalhadores despedidos e as instalações em ruínas. O ministério da economia andará a reboque da indústria como a seleção de futebol – uma nova indústria(?) bem sucedida, onde alguns espertalhões enriquecem assim à maneira do transparente Ricardo Salgado – anda a reboque de Cristiano Ronaldo, montado em meia dúzia de carros de luxo, camas com colchões da Colunex e uma ou outra russa oportunista que prefere o euro ao rublo.

António José Seguro propõe ao país, assim tu cá tu lá, como se este fosse o sacristão que lhe deu a mão quando começou com a Avé Maria, um Plano de Reindustrialização 4.0 (PR 4.0) que, apesar das letras a que se resume, não tem nada a ver nem com Belém nem com Durão Barroso, que não quer para lá ir. E que assenta em três eixos como qualquer camião Tir de três rodados com força suficiente para galgar os Pirenéus. E propõe que se produzam mais tamancos, mais trapos para ceroulas, mais moldes para encher de gelatina, mais uma série de bugigangas para atulhar as lojas dos chineses. Que se dê prioridade aos setores endógenos, que não existem: a agricultura das couves para o caldo, a agroindústria do tomate para as maluqueiras dos espanhóis, a floresta ardida de fio a pavio e a indústria extrativa de esparguete das entranhas do Guadiana. Adopção de uma estratégia industrial 4.0, de que o país carece, desde que D. Pedro vingou a morte de Inês de Castro e D. Diniz interpelou a rainha Santa Isabel sobre aquela história das rosas.


O titular da pasta do motor, obviamente, só pode ser um: na impossibilidade de nomear D. Afonso Henriques há-de o senhor Seguro nomear Mário Soares. É de facto de um jovem destes de que o país precisa!

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