21 de dezembro de 2013

Amor

Amor é uma palavra de quatro letras a que faltam todas as outras, minúsculas, maiúsculas, sinais de acentuação, acordos ortográficos, dicionários, enciclopédias. Um labirinto de carreiros na profundidade líquida dos teus olhos, calor, quarenta graus, solstício de verão, inspiração, transpiração, o mar chão, a água muito salgada, a caminho dos trinta graus. Árvores frondosas num jardim público, um banco à sombra, as mãos dadas hoje, começo oficial do inverno, o presépio erguido no adro da igreja, os plátanos de braços nus, levantados numa prece, só promessas. O coreto vazio, tudo gente em volta, o choro arrastado de um saxofone rompendo o escuro da noite, melodia breve, a luz tombando dos candeeiros de iluminação, o som ruidoso dos aplausos que não há. Tantas palmas, chuva oblíqua!


Quatro letras por qualquer ordem, sem ordem nenhuma, alinhadas em qualquer sentido, dispersas, sem alinhamento, sólidas, voláteis, gás raro, oxigénio, falta de ar, a altitude a que voam as cegonhas que nos trazem o sonho de tão alto, para lá das nuvens. As manhãs sem nevoeiro, o frio ausente, regresso adiado, torrente vulcânica confluindo num desfiladeiro de ternura, o sol que aquece. Barco à deriva, nau catrineta, arriba arriba gajeiro, vento norte, todas as velas pandas, caminho da Índia, o Brasil descoberto por engano, paixão e drama, tragédia, Inês de Castro, quinta das lágrimas, o rendilhado de um túmulo no mosteiro de Alcobaça.


Amor sólido, líquido, gasoso, vegetal, milho, trigo, cultura de sequeiro, regadio, toda a água do lago de Zurique, a vertigem no cume do Matterhorn, neves do Kilimanjaro, verdes colinas de África. Arrepio na espinha, a queda livre do trapézio, o lombo contra  o frio do lajedo, calçada do quebra costas, a falta de rede, o risco. Aves de arribação, porto de chegada, barcos de longo curso vindos do polo sul, escorrendo pela barra dentro até ao cais, marinheiros, ode marítima, um roteiro lisboeta de Pessoa, Brasileira do Chiado  em flagrante delitro, cartas ridículas escritas a Ofélia!

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial