3 de dezembro de 2013

O sucesso do arremesso do calote para os incobráveis

O país regurgita hoje um incomensurável orgulho nacional, como se tivesse voltado a conquistar Lisboa aos mouros ou reconquistado Olivença aos espanhóis. E tal foi o facto ímpar e o sucesso com que, na erudita linguagem dos ministros, dos secretários de estado e dos apresentadores dos telejornais, se conseguiu trocar uma dívida por outra. Ou, para que se entenda, não pagar uma dívida que se vencia e esmolar aos respetivos credores que condescendessem em receber dois ou três anos mais tarde, cobrando o calote e os juros relativos ao período adicional.


O sucesso foi tanto que a própria ministra, aquela dos swaps e de aspeto meio muro de Berlim, declarou que o aumento do prazo se não fazia por falta de dinheiro. O que, desde logo, faz crer que terá sido por excesso dele. O que calha perfeitamente com aquilo a que o Dr. Cavaco e o presidente da junta da Reboleira denominam de economia global. Quanto mais dinheiro se tem, pior e mais tarde se paga, ou não se paga mesmo e invoca-se a crise. Como fazem os bancos, o Continente e o senhor Amorim, que vale em barras de ouro mais do que o seu peso, e tem aspeto pesado como um lenhador finlandês!

A história pátria está cravejada de sucessos como se fossem diamantes, a começar por Álcacer Quibir onde parece que o efeminado D. Sebastião ainda anda, de calções, a correr atrás da moirama, a ver se lhes dá cabo do canastro. Ou de qualquer outra parte, mesmo pudibunda, que lhe venha à mão. D. Pedro IV, soberano português dos quatro costados e das vértebras cervicais, proclamou a independência do Brasil, de que foi coroado imperador. O exército português, numa desproporção mais longa do que o dízima infinita do valor de pi=3,14159 26535 89793 23846 26433 83279 50288 41971, ridicularizou o numeroso exército indiano, assobiou para o lado, sacudiu o pó do uniforme e regressou triunfante ao cantinho luso de Monção, a ver no que dera a colheita do alvarinho.

Portugal, definitivamente, é um sítio – como dizia o senhor Eça, da Póvoa de Varzim! – talhado para o sucesso, para a corrupção e para um destino irrevogavelmente marítimo, povoado de submarinos, navegando Douro acima, até Barca de Alva, sob o comando daquele rapaz do palácio das laranjeiras, vestido de marinheiro! Que, se o deixarem, há-de irrevogavelmente levar os submarinos até ao alto da serra da estrela!
   

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