22 de novembro de 2013

Um pássaro de fogo

Um pássaro de fogo, magnífico como o porte altivo das cegonhas, voando desde o Ártico, batendo as asas sob o céu azul embaciado dos trópicos. Um sol de vulcão, escaldante e próximo, vermelho e branco, como o poema de Drummond, as cores da vida, a distância a que se perde o sonho e se estende a grande muralha, China acima. A linha do equador logo ali em baixo, enrolando-se nas ondas tépidas que adormecem nas areias finas, uma palmeira real que acena uma brisa quente, pressão atmosférica de setenta e seis centímetros de mercúrio. Torricelli, um nome para a ciência, o barómetro, um instrumento para o museu dos tempos.


Perco-me no castanho silencioso dos teus olhos, para lá do sorriso breve em que os encovas, sem conseguir chegar-te ao coração. Digo silêncio e há um rio sem margens que te escorre pela face, nem barcos nem cais de embarque. Cada minuto uma eternidade passada e distante, caravelas largando de Sagres porque fica mais perto o desconhecido, cores garridas de papagaios, cantos estridentes de aves que se não veem, florestas tão carregadas de verde que continuarão virgens, até ao abate clandestino de todos os desejos. Gente diferente, os olhos prenhes de uma curiosidade ansiosa, perguntando-se sobre o que de novo lhes trás o oceano. Gente feliz, sem as roupas que ignoram, sem as lágrimas que não vertem.


Cada ramo de palmeira é uma folha caída em que se derrete o pássaro, percorridos quase os noventa graus de latitude, à procura dos dedos esguios das mãos pequenas que deixaste perder na bruma dos dias descontínuos. O coração cansado sob as penas de que se cobrem asas e sentimentos, a esperança num azimute virado a sul, para além de todos os destinos e de toda a rosa dos ventos, sem pontos cardeais. O pássaro feito gotas cristalinas, água pura de nascente de montanha, nuvens brancas de pureza, amor sem pecado, só desejo, ponto de confluência de rios correndo para norte. Só sonho que se fará vida, só distância que se fará perto.

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