22 de setembro de 2013

São Leonardo de Galafura

Bem no alto, no cimo de tudo, a ermida simples emerge do meio do penhasco de granito, imaculadamente caiada de branco, as costas viradas para o rio. De resto, em volta, só montes. Montes e silêncio. Os montes debruados por socalcos com um rendilhado de vinhedo explodindo na paisagem, precipitando-se para o rio que lhes foge, vê-se aqui, deixa de se ver logo adiante, em mais uma curva. O silêncio absoluto, de ruído e de movimento. Projetando-se no céu limpo, muito azul claro, nem pássaros nem nuvens. O tojo que nasce a custo, encolhendo os espinhos entre calhaus, quase temendo expor o amarelo da  flor à harmonia inóspita de tudo em volta.


Expontânea, a torga cresce por aqui e por aqui Torga se afirmou também, arremessando palavras enormes contra a paisagem agreste. Sem o rigor do bisturi e a precisão exigida à sua profissão de médico, desenhando mais detalhados diagnósticos. Não se consegue imaginá-lo a percorrer a calçada calcárea da rua da Sofia, pensando poemas de granito, a voz insubmissa, o sentido ultrapassando os limites de todos os montes de que é parte. Ainda por aqui se sente o silêncio bravio dos seus passos, se lhe adivinham as pegadas de que não ficaram marcas, nos sobrevem a emoção solene de saber que contemplou os mesmos horizontes e partilhou sonhos para além deles.

Não se imagina que tenha pronunciado uma palavra que fosse, perturbando o silêncio em que o rio, lá no fundo, mergulhou tudo em volta. Há palavras suas que ali, no cimo, podem ser lidas sem sequer mexer os lábios, Mas que devem ser apenas contempladas, com devoção. Não se adivinha como ali terão aparecido os azulejos que as suportam, todo o resto está à volta, sem outras palavras e sem mais nada. E aquelas, se ali não tivessem sido postas, não seriam necessárias, bastariam a quietude e o silêncio.


Trás contigo o olhar sereno com que me dás a mão suave por que espero. E, de mãos dadas, subamos o resto da ladeira, até os olhos se nos encherem de horizonte. Não digas nada, basta que nos extasiemos com o que nos passa na retina. Deixa-me sentir o calor silencioso com que o teu coração bate, é ele que dá vida à paisagem que desce pelas encostas!

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