9 de setembro de 2013

Seis anos

Há seis anos que me debulho em lágrimas, minha Mãe. O mesmo espanto incrédulo nos olhos, a mesma lança cravada no peito, uma dor ainda maior a estender-se pelo horizonte, até onde a terra se faz redonda. A tua mão trémula apertada entre as minhas, a pele tisnada pelo sol de anos difíceis, mirrada de carnes, os ossos mal cobertos, os olhos cansados, pousados no infinito, um sorriso ocasional e breve, a saudade tranquila, amarga e doce. Tantos anos!


Faço a minha romagem dolorosa a todos os sítios onde não fomos, falando sozinho todas as muitas conversas que não falamos em conjunto. Atravesso o povoado de lado a lado, as ruas desertas de sentimentos e de gente, às vezes um velho, as memórias que se resguardam para lá das portas, o céu azul, o sol parado. Não conheço ninguém, não há uma sombra a que me acolha, a fartura dos campos entregues ao pousio, nada mais resta. Primeiro fim de semana de setembro, nem a festa grande, o adro, a procissão, as fogaças, os andores, os enfeites em papel de seda, a filarmónica e a procissão contornando a igreja velha. A quermesse e uma caneca numa rifa, depois de tantas sem nenhum prémio, a tradição que se enterra um pouco mais em cada ano.

É uma peregrinação inútil ir procurar-te onde sei que estiveste, porque por ali nasceste. E por ali também deixou de haver gente. A estrada que sobe, o barranco de um lado, a chada do outro, as cepas ao abandono, as oliveiras resistindo a tudo, aguardando que as chamas um destes dias desçam pela encosta e lhes roubem o persistente verde da ramagem. Nem vivalma, só o canto estridente das cigarras e os restos de uma pequena casa, em ruínas, o pinhal ao cimo da estrada, esperando que outro inverno corra tumultuoso nas valetas. Sozinho, não sei como se me toldam os olhos e o que se me prende na garganta, enquanto o peito me doi como sei que te doía a ti o abandono desolado da paisagem.

...

A tua mão seca que seguro entre as minhas. Os meus dedos desenhando carícias nas tuas palmas, o teu sorriso breve, as lágrimas que o meu coração verte. Há seis anos!


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