16 de outubro de 2013

Pela insurreição geral

Até 24 de abril, e por inspiração divina, o país foi conduzido por um iluminado ditador que o manteve na miséria, lhe negou instrução e recusou cuidados de saúde e dignidade. Sempre de joelhos, terço na mão, sussurrando padres nossos e avé marias, em coro com a igreja e mais meia dúzia de famílias que, inclusivamente e como convinha, se degladiaram, se traíram e se roubaram entre si. Houve medo! Medo de falar e ser ouvido, medo de pensar e sentir o pensamento invadido e condicionado.

O 25 de abril foi uma esperança, um amor platónico, uma utopia, um relâmpago breve. Chamaram-lhe revolução dos cravos e pensou-se ser suficiente para alterar o estado de coisas e fazer do país um sítio mais justo, um sítio mais para todos, com escolas, hospitais, medicamentos e a dignidade que se deve a quem tem atitude vertical e porte ereto da cabeça. Durou pouco, não foi além da tal abstrata esperança. Porque nunca, em nenhum lado, houve revoluções que se fizessem com cravos. As revoluções custam sangue, suor e lágrimas!


O 26 de abril veio a seguir e começou por meter na gaveta a esperança nascida no dia anterior. E pouco a pouco foi lá metendo muito mais do que lá cabia. Cilindrou quem fez, com armas na mão, uma utópica revolução com flores espetadas nos canos das espingardas. Restaurou o poderio das famílias de outros tempos. Alinhou com a ditadura burocrática a que chamam europa para se apoderar dos subsídios. Só viu vantagens – e teve-as! – na criação de uma denominada moeda única que nunca existiu. Pagou para que os campos de cultivo fossem deixados ao abandono, criando terra queimada e desemprego. Teve mais olhos que barriga, estimulou o gasto do que se não ganhava e o estado, voluntarioso e ladrão, deu o exemplo. O regabofe não teve nem dia, nem horário. Um qualquer rural do interior algarvio leva por diante projetos megalómanos, gasta mais sozinho do que a casa real dos vizinhos do lado e julga-se o iluminado dos tempos que correm. Em proveito próprio, da família, dos amigos e de alguns que lhe vão afagando as cervicais curvadas.

Até se chegar onde se chegou, sob a direção de ignorantes e analfabetos que nunca trabalharam para pagarem a sopa que comem, nem sequer estudaram para escrever duas linhas sem erros, ostentem os títulos que ostentarem. E, obviamente, não passarem de feirantes que trocam por patacos o muito pouco que resta e se alcandoram ao estatuto de governantes que não inspiram nenhum respeito mas que apenas instigam o medo. Quando roubam indiscriminadamente novos e velhos, sem vergonha, sem escrúpulos e sem o mínimo de honestidade. E se sente que o novo medo é um medo muito mais objetivo do que o nascido em Santa Comba.


É preciso suster o terramoto, é preciso acautelar o futuro, é preciso recorrer à insurreição geral!

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