16 de dezembro de 2013

São os “númaros” estúpido

Portugal nunca foi um país, nem antes do Afonso Henriques. Foi assim um sítio encavalitado no promontório de Sagres, prestes a despenhar-se e sempre pronto a dar um passo em frente. Hoje é um sítio em vias de extinção, como o lince da malcata e os patriotas de Boliqueime. Quando mais perto esteve de ser país foi com o senhor Durão Barroso, um sósia de Miguel de Vasconcelos na defesa da causa pública, mas por quem o lajedo da Praça do Município ainda espera. Que nos garantiu um país com letra pequena, depois com letra grande, depois remediado, depois rico, depois muito rico. Até chegar ao primeiro lugar da lista ordenada dos países mais desenvolvidos do mundo, também conhecida por “ranking”. O paraíso ali mesmo ao lado, na ilha da Pessegueiro, ao alcance de uma canoa escavada num tronco de eucalipto. E que, à semelhança do que o senhor Cristiano Ronaldo fez com o Real de Madrid, assinou contrato com a senhora Merkel, na defesa do interesse nacional e do leão endémico da  Madeira, excluindo o senhor Alberto João, com ou sem poncha, no copo ou no bucho.


O sítio em vias de extinção, com a mania das grandezas, deitou-se a descobrir mundo, a levar a fé na ponta da espada e a trazer cominhos para tornar mais apetitosas as tripas à moda do Porto. Depois acabou a perder o que descobrira, a andar à deriva no caminho de regresso e a comprar os cominhos e os tomates aos vizinhos espanhóis. E a aprender estatística que lhe serve para tudo. De causas inúteis e perdidas, como a governação, até questões de superior importância, como o futebol e a posse de bola, na linguagem dos especialistas dos relvados e do pontapé na bola. É a ditadura dos “númaros”, sufragada uma vez por outra, à maneira que já de certo modo fazia o senhor Salazar, que jaz morto e arrefece, algures onde nunca aquece.

Os “númaros” servem para definir a fronteira da pobreza, por exemplo, trezentos euros. Uma moeda antes e é-se pobre, procuram-se restos de comida nos contentores, recolhem-se farrapos pelas esquinas, espera-se por sapatos sem solas e sem atacadores, deitados para o lixo, mais dignamente designado por resíduos sólidos, e cuidadosamente depositados à porta do vizinho. Uma moeda depois e é-se rico, o conforto da classe média, tão certo como cinco ser o resultado da divisão de dez por dois, mesmo sem máquina de calcular e sem tabuada. O almoço de domingo feito num restaurante do concelho ao lado, o passeio semanal à beira mar para ver a altura das ondas e o tamanho da sardinha. As férias numa ilha de Cabo Verde, esquema viaje agora e pague depois, vinte e quatro prestações sem juros e sem comissões, tudo já incluído no preço e nos pacotes da Agência Abreu. Nem moeda antes, nem moeda depois, trezentos euros exatos. Uma situação indefinida, um pé no degrau de baixo, o outro pé no degrau de cima, uma espécie de hermafrodita, com a mesma facilidade se é homem, se é mulher ou se é nem uma coisa nem outra, bem pelo contrário.

O sítio em vias de extinção tem uma vocação inata para a tragédia e está talhado para a desgraça. Como coisa menor a sua governação é confiada a gente menor, que ou não foi à escola ou de lá fugiu, cravejada de títulos, de pedras preciosas e de ignorância cheia de cifrões. Mas que nunca embarcou num cacilheiro para ir à margem sul, não sabe onde fica o concelho do Fundão, fala francês como o jovem Mário Soares e apregoa que o crescimento económico foi, no trimestre anterior, o maior na União Europeia, uma espécie de mafia dos tempos modernos que passa pela Bélgica em vez de passar pela Sicília. O governo embandeira em arco, a maioria aplaude na assembleia, o público canta o Grândola nas galerias, o senhor Portas autoriza o senhor Coelho a ir dizer banalidades à casa dos segredos. É a reforma do estado e da senhora Esteves. E o rigor dos “númaros” ó estúpido!


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