13 de outubro de 2015

O vento ao sol

O vento ao sol, gemendo alto nas copas do outono, o rio lá em baixo, no fundo do leito escavado entre as margens de granito, contorcendo-se com as dores do parto a três quilómetros da foz, onde vai parir gaivotas em voo plano e barcos prenhes de petróleo, apontados às bombas de abastecimento e às cotações das bolsas de valores, a azáfama habitual de chegada próxima, a crise instalada para além do cais, intemporal e sempre.

Come chocolates pequena, come chocolates, enquanto Pessoa encarna Álvaro de Campos, uma forma de promoção social, engenheiro naval em vez de amanuense, a escrever poemas no português escorreito que aprendeu nas escolas de Durban, de pé, encostado ao balcão das tabernas do Cais do Sodré, o fígado desfeito, a caminho do hospital dos franceses, tresandando a tabaco e a bagaço, os Jerónimos à espera, o governo apostado em torná-lo herói nacional, sóbrio e lúcido, e em erigir-lhe uma estátua no centro do largo.

É, se eu tivesse casado com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz, se ainda houvesse lavadeiras que tivessem filhas e tu fosses uma delas, procurando casamento, hoje um, amanhã outro, a roupa esfregada à mão, aquele cheirinho antigo às barras de sabão, nenhum risco de haver filhos, a menopausa transposta há mais de uma dúzia de anos, só mesmo pelo prazer que se alcança quando se sente o perfume fresco das maçãs camoesas a entrar-nos pelas narinas, até ao fundo dos pulmões, o paraíso na palma da tua mão.


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