13 de junho de 2015

Hipotético responso de Fernando Pessoa a Santo António

Fica sabendo, Santo António, sejas tu de Pádua ou de Lisboa, que eu sou anterior a tudo e que o mundo me cabe inteiro e completo no número 4 do Largo de São Carlos, com o mar preso nos dentes e o sol agitando as velas dos grandes navios que aportam aos cais. Manuel da Fonseca, que não conheci por me terem julgado morto antes, e ainda porque a estrada de Sintra não passa por Santiago do Cacém, garatujou algures que antigamente o largo era o centro do mundo, uma perspectiva mínima de tudo, que não vê para o outro lado da rua, nem para debaixo da mesa sobre a qual se depositam os copos vazios de aguardente e os pensamentos com que encho o mundo e o encafuo nos recantos mais íntimos da minha cabeça.

Encarcerado num caixote de mármore no Mosteiro dos Jerónimos, sem o ter pedido porque não poderia pagar a renda do quarto que me destinaram, e porque perderia do horizonte oblíquo em que me penso, a silhueta burocrática de Ofélia, não me pude pensar e não me pude dizer, todo para dentro de mim. Até à náusea, antes de Jean-Paul Sartre atirar para os caixotes de lixo, onde as gaivotas procuram ramos de oliveira e restos de comida, o prémio que lhe quiseram dar nos fiordes escandinavos. Tanto mais que nem toda a cultura que bebo aos balcões das tabernas de José Maria da Fonseca está disponível na limpeza obscena que encarde o Centro Cultural de Belém, onde se conta com vizinhos a ler livros aos quadradinhos e se atropela a minha querida língua portuguesa.


A noite passada, mais do que encarcerado fui abstémio, e não cheguei à Mouraria por ter-me perdido no caminho. Não atinei sequer com o rio de ideias que sobe para o castelo e que inunda de luzes pequeninas as copas dos pinheiros plantados à entrada. Não terei perdido muita ou importante coisa, nunca fui grande apreciador de sardinhas, um peixe pequeno que voa muito acima das minhas possibilidades e que vive atrelado ao elevador que sobe a calçada da Glória. Muito menos ainda quando retiradas à força de cima das brasas em que se aquecem e depositadas sobre um pedaço de broa feita de milho, um cereal que conheço do dicionário e que nunca vi crescer no Martinho da Arcada, por mais poesia que escorresse das cadeiras.

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