5 de junho de 2015

São intermináveis as horas

São intermináveis e longas as horas que o sol leva a chegar de oriente, onde nascem a vida e todos os sonhos, a ocidente, onde a noite alimenta todas as esperanças e todas as madrugadas, quando o crepúsculo o esconde no mar, além da linha indefinida do horizonte. São tempos de espera, a ansiedade crescente, a dor sem medida nem localização, como se a alma me tivesse sido atravessada pelo gume infalível de um punhal, do tamanho deste ângulo raso que não cede nem a receitas nem a remédios que se vendem nas farmácias.

O nada te trouxe do vazio, sem corpo e sem aviso prévio, um riso permanente saltando-te do olhar, uma disposição que encheu os campos verdes do vermelho rútilo das papoilas, acenando aos dias de verão que se aproximam. A noite te vestiu e te deixou a flutuar ao sabor da imaginação com que te sonho, os braços abertos para o abraço, a boca sequiosa para o beijo, envolta nos crepes que a pouca luz da lua nova e a distância das estrelas deixaram disponível para o silêncio. E as palavras sucederam-se com a mesma frescura com que a água cristalina corre das nascentes que brotam das montanhas.

Com o sol alto, nem a mais ligeira brisa que agitasse a caruma na copa dos pinheiros e trouxesse o perfume macio das glicínias que te nascem dos cabelos e te cobrem a frágil nudez dos ombros. Não sabe a nada este ar quente e poluído que me enche as narinas e me morre no cansaço dos pulmões, o passo inseguro e sem destino. Até que chegues de novo pela noite, com o mesmo horário irregular a que os comboios se imobilizam nos cais das estações e eu vá ao teu encontro, a dar-te uma mão cheia de ternura.


0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial