30 de junho de 2015

Do mais fundo da tarde

Do mais fundo da tarde emergiu este mar sereno e raso, sem ondas e sem espuma, estendendo-se pelo dourado das areias finas, como se fosse domingo. A oeste nada de novo, como no título de Remarque, nem ideias nem propósitos, ninguém que se prenda ao leme e dobre o cabo das tormentas, ousando enfrentar o dilúvio que se pode esperar para lá da escuridão de um céu sem estrelas e sem relâmpagos. É a oriente que nasce o sol, é a oriente que cresce a esperança que da vontade se faça algum futuro.

Não há nem porto nem cais e nem o oceano traz navios que transformem esta calma tranquila naquela azáfama de chegadas próximas. Há apenas um sol oblíquo, descendo lentamente no horizonte, projectando sombras de árvores que nasceram com a paisagem e que, nos dias que habitamos, se transformaram em fantasmas que assustam crianças e adultos. Os rios deixaram de terem margens, os afluentes secaram, os peixes morreram.


Nunca os homens fabricaram tantas armas em nome do desarmamento, nem fizeram tanta guerra, com o objectivo superior de implantar a paz, justa, duradoura e definitiva, na boca vazia dos políticos. A paz são milhões de barris de petróleo que as refinarias transformam em gases letais e em cotações nas bolsas de valores, onde os lucros jorram das torneiras. A paz são crianças subnutridas de África, vasculhando o lixo dos contentores à procura de alimento, morrendo de olhos esbugalhados, saídos das órbitas, tristes e famintos. Vítimas sem culpa e sem conhecimento de que haja Deus e do que seja petróleo.

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