21 de junho de 2015

Domingo, Verão, 21 de Junho à sombra

Domingo, Verão, 21 de Junho à sombra. Nível médio das águas do mar, Foz do Douro, Portinho da Arrábida, Torricelli, pressão atmosférica, 76 centímetros de mercúrio, nenhum vento norte. A areia fina já escalda sob os pés descalços, chinelos na mão, uma toalha de turco estampado pendurada sobre os ombros, óculos escuros protegendo os olhos da luminosidade por demais, sol alto. Higrómetros parados, quase sem tripa, nenhuma humidade, nem relativa nem absoluta. António Gedeão morto, a pedra filosofal sobre a campa rasa, Rómulo de Carvalho no desemprego, rejeitado no concurso do ministro obtuso dos professores.

Nenhuma química, nem orgânica nem hidrocarbonetos, só petróleo no Iraque. E a naftalina, sublimação, directamente do estado sólido ao gasoso, Herberto Hélder feito nuvem, cirrus ou lá que é isso, farrapos esparsos a trinta mil pés, para metros é só fazer as contas ou percorrer a distância, a cadela Laika andou mais do que isso e morreu sem chegar à lua, ainda o muro de Berlim não tinha sido construído para ser derrubado, nem a Ângela do lado de lá tinha ousado atravessar a linha de fronteira desenhada pelo arame farpado das baionetas pacíficas das Kalashnikovs.

Hoje sinto-me todo grego, mais do que é costume todos os dias, com o preço da electricidade e a subida dos impostos, bandeira toda azul e branca com uma cruz ao canto, Bruxelas uma cidade colónia de Berlim, sem catedral e sem a confeitaria do Zé Natário, forçando a cobrança de juros agiotas por solidariedade e tentando vender gravatas aos turistas descalços que chegam famintos das escarpas do Peleponeso. É preciso o aviso a tempo por causa do tempo, ler o que a vida curta deixou tempo a que António Maria Lisboa escrevesse, ao menos Mário Cesariny de Vasconcelos morreu de velho, puta da tuberculose.


As pessoas devem ser conhecidas pelo nome todo, inteiro como elas, sem falta de bocados nem contrapesos, mesmo que a rainha de Inglaterra possa tropeçar no seu, cair dos sapatos abaixo, partir o nariz e ficar entrevada até à idade com que o senhor Manoel de Oliveira voltou à Ribeira para filmar o Aniki Bóbó. Picasso assim, sozinho, não é pessoa nem coisa nenhuma, parece nome de chulo a viver à custa das prostitutas do Intendente. Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso sim, é nome de pessoa, com direito a mais de setenta virgens para lá dos Pirenéus. Pode sair a primeira para o  Château de Vauvenargues!

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