2 de dezembro de 2004

Do contra

Os portugueses têm, desde sempre, uma relação agitada, excessiva, incestuosa com a expressão "ser do contra". Ser do contra é assim um género de herança malévola, de desígnio nacional, de tentativa falhada e alarve de se afirmar a diferença em relação seja lá ao que for. Um homem que conheço, perfeitamente imputável porque nada juridicamente ainda dispôs em contrário, engenheiro mecânico licenciado pelo processo revolucionário em curso, faz luxo em afirmar que é bruto, na presunção idiota de que invoca uma rara qualidade. O que ele de facto quer dizer é que é decidido, o que até não é verdade e que, para mais, é completamente diferente. O que realmente acontece é que nem sequer é grosseiro, dizer que é medievo de certeza ofende quem viveu por aí, talvez lhe assente à medida a catalogação como raro e primitivo australopiteco.

Se numa viagem de comboio para Lisboa se avaria a locomotiva - o que é menos raro do que assistir à mudança da administração - e a composição queda imobilizada na linha, será lícito pensar que os passageiros se unam no esforço de empurrar as carruagens até à próxima estação, apenas a cem metros. Ele persiste sempre, na peregrina e inútil ideia de fazê-lo sozinho, sem que ninguém lhe tivesse alguma vez dito que as coisas tinham limite e que aquelas histórias do super-homem pertencem aos filmes e ao reino do imaginário. Por ele, afirma-o enquanto solta a gargalhada bronca, fá-lo apenas porque é bruto e porque é do contra.

Se atentarem nisso por alguns momentos hão-de facilmente concluir que em Portugal se está sempre contra tudo. O que desde logo afasta a ideia do mau feito, do temperamento irascível ou mesmo de uma figura política que já fez moda: a bipolarização. No país, ser do contra é uma simples questão de genética, um objectivo problema de ADN. As pessoas comentam a desconjuntada actualidade política do país, recriminam a qualidade do frango e o preço especulativo das portagens. Criticam um sistema de saúde a que apenas sobram doentes e listas de espera, lamentam o miserável aumento das pensões e referem enfaticamente que isto só se resolvia com um Salazar. E acrescentam muito pressurosamente que até sempre foram do contra.

Ainda a semana passada, por exemplo, um parente menor da família Horta e Costa, que para desmantelamento e completa ineficácia dos serviços postais preside à administração dos Correios, dizia não compreender uma qualquer greve feita por uma dúzia de carteiros quando reclamavam o pagamento de horas extraordinárias e o fornecimento de um burro auxiliar que os ajudasse a carregar os duzentos quilos de cartas, tanto mais que, segundo adiantava, a empresa tinha resultados estáveis. Só poderiam ser do contra, não tinha a greve outra racional e inteligente explicação. Como, naturalmente, se não pode compreender que uma qualquer diarreia leve a que se borrem umas cuecas que, afinal, até estavam limpas, eram novas e tinham a mesma etiqueta das que usa o conde da quinta.

A situação estende-se aos profissionais da política, aos órgãos de soberania e à Assembleia da República. O ser do contra é uma infecção que não cede a antibióticos e que se não acalma com analgésicos. É uma virose permanente, que não vem apenas pela primavera e para que não há vacina, como para as alergias. Os grupos parlamentares estão uns contra os outros e os deputados também, na defesa dos seus mesquinhos interesses pessoais e no ataque ao combalido cidadão. Nenhum deles o defende, embora possam dizer o contrário e seguir estratégias diferentes. Uns começam-lhe pela carteira, outros pela mulher, sendo certo que mesmo esta não será senão um meio para chegar ao bolso interior do casaco.

Padecem disso, além de outras coisas, as leis que se fazem para que, pelo prazer do incumprimento e pela determinação de ser do contra, se possam transgredir. Transgredir, recorde-se, é ser do contra, é afirmar-se contra a proibição do estacionamento em cima dos passeios, manifestar o desacordo em relação ao limite de velocidade nas auto-estradas. As leis não são aprovadas em benefício do cidadão, nem no interesse do país: são-no na obscena protecção dos políticos que as redigem e que as fazem colher a maioria dos votos do hemiciclo de S. Bento. Uma lei dispõe que em eleições legislativas se elegem deputados e que, em princípio, o primeiro-ministro será indicado pelo partido político vencedor.

O que fazem os partidos? Com convencimento e circunstância reúnem os órgãos de decisão partidária para decidirem ao arrepio de lei que eles próprios cozinharam. Indicam candidatos a presidentes de juntas de freguesia ou a presidentes de câmara, cargos para que não estão previstos actos eleitorais. A outro nível ainda ontem assim aconteceu no selecto bairro da Lapa onde se reuniu, durante horas, a comissão política do partido do Dr. Santana Lopes. Para quê? Ora!, para nada ou simplesmente para ser do contra. Para anunciar que decidira apresentar o Dr. Santana Lopes como candidato ao cargo de primeiro-ministro nas eleições que se avizinham. Quer dizer, o Dr. Santana Lopes é primeiro-ministro nas circunstâncias que conhecem, por obra e graça do Espírito Santo, do Dr. Sampaio e por emigração do Dr. José Barroso. Teve durante quatro meses o astral em alta, o desempenho que se conhece e agradou a gregos e a troianos, exceptuando o Dr. Henrique Chaves que parece não ser nem uma coisa nem outra. E agora ele, presidente do partido, reúne a comissão política e empenhadamente impõe-lhe que o indique para o cargo. Um cargo para o qual, por força da lei e por vontade dos deputados, pura e simplesmente se não realizam eleições. Só para ser do contra! Ainda gostava de ver que ele ganhasse as eleições - acalmem-se que o cenário é de suponhamos! - e, para ser do contra, a comissão política decidisse indicar o Dr. Manuel Monteiro. Que, se calhar, para também ser do contra, não aceitava!

3 Comentários:

Às 3:09 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

Só para ser do contra: concordo contigo! Quem é que num debate de ideias não gosta de contrariar o outro só para termos discussão! Quem nunca assistiu a uma discussão de café sobre política... não sabe o que perde! É de ir às lágrimas.
Um abraço,
Aníbal
http:\\carago.blogs.sapo.pt

 
Às 10:47 da tarde , Blogger rajodoas disse...

Pois caro Luis, só para contrair, em não posso estar mais de acordo com este post que para além da grande verdade que encerra, a sua leitura proporciona uma certa hilariedade aliás o estilo que o caracteriza na abordagem dos temas que escolhe.

 
Às 5:08 da tarde , Blogger Francisco Nunes disse...

Concordo. Somos mesquinhos e temos afastado muita gente boa da política por causa dessa característica genética.
Também é verdade que essa realidade se tornou um argumento de Salazar e, mais consistentemente, de Marcelo Caetano para negar a democracia aos portugueses.
Confesso: às vezes já não sei se não teriam razão... basta ver a choldra a que esta democracia chegou...

Um abraço,
Francisco Nunes

 

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