6 de dezembro de 2004

Sebastianismo

Homem vulgar, de fracos recursos e curta erudição, socorro-me das ferramentas rudimentares e obsoletas de que disponho. Sempre são melhores do que nada e, no caso nacional, nem sequer é necessário que alarguemos demasiado a pesquisa e sofistiquemos as fontes. O país é fervoroso devoto do sebastianismo e continua fiel à crença de que D. Sebastião, desaparecido na batalha da Álcacer Quibir, daí há-de regressar, vitorioso, numa manhã de cerrado nevoeiro. Mesmo que sebastião, como substantivo e em sentido popular, não signifique mais do que ingénuo, pateta, matias.

D. Sebastião, o verdadeiro, aquele por cujo regresso ainda se espera, se rezam missas e se fazem promessas, nasceu em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554, e morreu em Alcácer Quibir, a 4 de Agosto de 1578, com a idade de 24 anos. Nunca ouviu conselhos de ninguém, e entregue ao sonho anacrónico de sujeitar a si toda a Berbéria a trazer à sua soberania a veneranda Palestina, nunca se interessou pelo povo, nunca reuniu cortes nem visitou o País, só pensando em recrutar um exército a armá-lo, pedindo auxílio a Estados estrangeiros, contraindo empréstimos a arruinando os cofres do reino, tendo o único fito de ir a África combater os mouros.

Chefe de um numeroso exército, na sua maioria aventureiros e miseráveis, parte para a África em Junho de 1578; chega perto de Alcácer Quibir a 3 de Agosto e a 4, o exército português esfomeado a estafado pela marcha e pelo calor, e dirigido por um rei incapaz, foi completamente destroçado, figurando o próprio rei entre os mortos.

Outro desiderato sebastiânico dá pelo nome mais vulgar de Alqueva. Um projecto que, segundo aqui se refere, teve início há exactamente cinquenta anos com a aprovação do Plano de Rega do Alentejo. Hoje a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas de Alqueva mantém um site na rede, diz que o Alqueva está à cota de 147,61 e informa, com grande utilidade, que o mesmo se encontra em remodelação.

Um outro site mantém na rede um dossier sobre o Alqueva e anuncia, com grande rigor e indesmentível utilidade que o sistema de rega pode ser antecipado dez anos e estar pronto antes do ano de 2015, como estava previsto. Ou seja, mais de sessenta anos após a aprovação do plano de rega. Entretanto o incontornável Dr. Salazar caiu da cadeira no forte onde apanhava algum sol nos artelhos, foi operado, passou pela unidade de recobro, foi substituído e acabou por morrer na messiânica convicção de que, do Minho a Timor, ninguém mandava mais do que ele. Enquanto religiosamente confiava na restauração da soberania sobre a Índia e o forte de S. João Baptista.

Hoje mesmo também foram divulgadas as conclusões de mais uma comissão parlamentar de inquérito que se ocupou, pela ducentésima vez, do acidente aéreo de Camarate que vitimou, entre outros, o Dr. Francisco Sá Carneiro, primeiro-ministro da altura, quando se dirigia à cidade do Porto para participar num comício da campanha eleitoral para a presidência da república. Luta política que, segundo confessara dias antes em Coimbra, estava perdida. Passaram, entretanto, vinte e quatro anos. A dúvida entre o acidente e o atentado percorreram-nos lado a lado, sem nenhum resultado definitivo, sem nenhuma utilidade para as gerações futuras. A competência dos nossos deputados tem-se esgotado no acto inútil de fazerem de Sherlock Holmes. Sem que isso antecipe o regresso do muito desejado D. Sebastião. Sem que isso antecipe ainda mais o plano de rega do Alentejo.

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