Tsunamis
Confesso que ainda hoje não compreendo como foi possível à minha geração sobreviver sem o serviço público de televisão. Hoje, creio, teria toda ela perecido vítima da mortalidade infantil e da ignorância inadmissível. Não fosse o serviço público e ainda pouco ou nada teríamos ouvido falar da Mukata. A doença de Arafat e a sua evacuação para França conferiu a um monte de escombros onde o mesmo era mantido refém há dois ou três anos uma inesperada dignidade. Por mim, ainda hoje não faço a mínima ideia do que seja isso de Mukata e se calhar os jovens repórteres que relataram um funeral como se fosse o Sporting - Benfica de sábado passado também não. Mas soa bem Mukata, a par com mais dois ou três vocábulos de árabe e mais dois ou três de hebreu.
Judite de Sousa é das mais cultas figuras que se perfila frente às câmaras da televisão de serviço público, de sorriso pepsodent, cabelinho pintado que há coisas que a idade não perdoa. Sempre que a vejo ler o telejornal sinto-me mais incapaz do que um concorrente do quem quer ser milionário eliminado logo na primeira pergunta. Ela fala em tremores de terra, em maremotos, em tsunamis e creio já a ter mesmo ouvido falar em marmotas. Mas tsunami é, pelos dias que correm, o vocábulo que ofusca a fama e a celebridade do rei do quintal, que já não dorme sem o auxílio de barbitúricos. Ainda ontem um homem insuspeito como Nuno Guerreiro, de longe, realça na Rua da Judiaria tão ampla cultura e tão sofisticada dicção, até no uso da expressão "rizorte de luxo" que, como sabem os poucos portugueses que dominam o mirandês, quer dizer "estância de férias". Sendo certo que a maioria do português comum não sabe o que são férias e ignora completamente o que é estância.
Esta noite Fátima Campos Ferreira, outro rosto ladino da nossa televisão pública, promete fazer a reconstituição do terramoto ocorrido em Lisboa, a 1 de Novembro de 1755 e que, afinal, foi seguido por um enorme tsunami que inundou os túneis do metro - estando a prova ainda no Terreiro do Paço -, derrubou o cais das colunas, paralisou as carreiras para o Barreiro e levou a Carris a deslocar a sua frota de eléctricos para o alto do Parque Eduardo VII, antes deste ser dado ao engate e à pouca vergonha. Apenas, ao que parece, não prejudicou as obras em curso no actual Parque das Nações para não atrasar a inauguração da Expo 98, não deixar no desemprego o engenheiro Cardoso e Cunha e não inviabilizar qualquer negocizinho que, em conjunto, pudessem no futuro fazer o Dr. Nabais e o animador Represas.
No ano em que se comemoram 250 anos sobre o acontecimento, mesmo à expedita maneira portuguesa, parece um bocadinho tardia a reconstituição da catástrofe. Não adiantará nada ou adiantará pouco, como as sucessivas comissões parlamentares de inquérito sobre o acidente do Cessna de Sá Carneiro que, alternadamente, vão concluindo por acidente e por sabotagem. Mas é certo que na altura a invasão do tsunami não chegou ao conhecimento do conde de Oeiras, nem do marquês de Pombal, tão pouco do Sr. Sebastião José de Carvalho e Mello, primeiro-ministro de D. José e antepassado dos accionistas maioritários da Brisa. Porque, se lhe tivessem falado dele, não teria o mesmo falado apenas em enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Teria certamente referido a necessidade de domar o tsunami. Aquilo que a D. Fátima Campos Ferreira se prepara para fazer esta noite, capitaneando um grupo de forcados, mandado avançar expressamente da Moita do Ribatejo.

Esta noite Fátima Campos Ferreira, outro rosto ladino da nossa televisão pública, promete fazer a reconstituição do terramoto ocorrido em Lisboa, a 1 de Novembro de 1755 e que, afinal, foi seguido por um enorme tsunami que inundou os túneis do metro - estando a prova ainda no Terreiro do Paço -, derrubou o cais das colunas, paralisou as carreiras para o Barreiro e levou a Carris a deslocar a sua frota de eléctricos para o alto do Parque Eduardo VII, antes deste ser dado ao engate e à pouca vergonha. Apenas, ao que parece, não prejudicou as obras em curso no actual Parque das Nações para não atrasar a inauguração da Expo 98, não deixar no desemprego o engenheiro Cardoso e Cunha e não inviabilizar qualquer negocizinho que, em conjunto, pudessem no futuro fazer o Dr. Nabais e o animador Represas.
No ano em que se comemoram 250 anos sobre o acontecimento, mesmo à expedita maneira portuguesa, parece um bocadinho tardia a reconstituição da catástrofe. Não adiantará nada ou adiantará pouco, como as sucessivas comissões parlamentares de inquérito sobre o acidente do Cessna de Sá Carneiro que, alternadamente, vão concluindo por acidente e por sabotagem. Mas é certo que na altura a invasão do tsunami não chegou ao conhecimento do conde de Oeiras, nem do marquês de Pombal, tão pouco do Sr. Sebastião José de Carvalho e Mello, primeiro-ministro de D. José e antepassado dos accionistas maioritários da Brisa. Porque, se lhe tivessem falado dele, não teria o mesmo falado apenas em enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Teria certamente referido a necessidade de domar o tsunami. Aquilo que a D. Fátima Campos Ferreira se prepara para fazer esta noite, capitaneando um grupo de forcados, mandado avançar expressamente da Moita do Ribatejo.
0 Comentários:
Enviar um comentário
Subscrever Enviar feedback [Atom]
<< Página inicial