8 de setembro de 2005

Espermatozóides perfeitos

Tenho dois filhos, facto que, nos dias que correm, é quase uma aventura irresponsável. Mal ou bem, vieram sem culpa que se lhes possa atribuir, nem sequer foi o preservativo a romper-se, são filhos legítimos, não foi preciso mover-me nenhum processo de paternidade para os reconhecer. São fruto de um casamento celebrado na conservatória do registo civil, muito festejado à saída com quilos e quilos de arroz carolino, confirmado posteriormente na igreja românica de Cedofeita, depois de três requerimentos ao abade, duas exposições ao bispo D. Armindo e um memorando de sete páginas ao cardeal patriarca que as não leu nem deu a ler ao mais humilde sacerdote do Campo de Santana.

Mas os cabrões dos filhos têm-me queimado a paciência, os neurónios e uma fortuna que o patrão sustenta que é um desperdício inútil. Como estudantes, são perfeitamente normais. No português dão despreocupadamente três erros de ortografia em cada duas palavras, falam um filho da puta de um dialecto que ninguém entende, sabem a marca do chapéu que o Bono levou enfiado nos cornos quando acedeu visitar o presidente Sampaio e conhecem tudo sobre telemóveis, SMS e fertilização in vitro, como a Clara Pinto Correia. Na matemática são mais normais ainda: não houve um ano em que tivessem obtido aprovação e nunca tiveram mais do que oito. Quer dizer, fixam-se pelo meio da tabela como o Gil Vicente, o que sempre é melhor do que ficar no fim como aquele árbitro que não atendeu a chamada telefónica do presidente da liga e acabou despromovido para os distritais. Este ano nem o Salgueiros apita!

Desisti de os castigar, de lhes cortar a mesada, de os proibir de sair à noite e de lhes chamar filhos da puta com todas as letras. A mãe, que é minha mulher, não achou grande piada à qualificação, disse-me que disso ela é que sabia e que convinha recordar-me que nunca chamara pelo corno para o jantar. Supus que fossem assim burros de nascença, como há tantos neste país, com gravatas de seda ao pescoço e fatos com a etiqueta Rosa e Teixeira. Vi pelas pautas que havia muitos nas mesmas circunstâncias, com nomes sonantes e títulos de nobreza e cheguei a pensar que, por isso, tivessem até sangue azul. Desiludiram-me os mais esclarecidos colegas de trabalho: que não, que sangue azul quem tem é D. Duarte Pio de Bragança e a sua descendência e que, mesmo esse, tem de usar óculos de cor para o ver.

Quis crer que fosse uma questão de hereditariedade, como na política. Filho de mãe burra nunca deu cavalo lusitano. Quando muito dá uma égua de merda ou um macho que, com frequência, de macho não tem mais do que o nome. Aí passei a atribuir as culpas à mãe que ainda hoje pensa que quem descobriu o Brasil foi o Artur Albarran, que quem escreveu os Lusíadas foi o polícia Moita Flores e que quem tem a seu cargo a dita requalificação da Avenida dos Aliados são os donos da Zara, do Cortefiel e o Calvin Klein.

Ontem, finalmente, o governo devolveu-me a tranquilidade e restaurou-me a puta da auto-estima. Num acto até politicamente simples e muito mais barato do que ir de férias para o Quénia ver macacos quando há por aí tantos à solta, para não falar no jardim zoológico onde tem que se pagar bilhete. Fê-lo dizendo que o ensino de matemática que se ministra no país é uma merda e que, em consequência, os professores que assim são formados são professores de merda. Como resultado o país não poderia aspirar a mais do que à merda de alunos que tem. E assim sendo vai ser dada formação adicional para que os professores deixem de ser de merda e os alunos, daqui a alguns anos, deixem de ter a merda de aproveitamento que têm.

Esta noite dormi como um justo, ressonei livremente até acordar, sonhei com a Nicole Kidman - eu, que tenho um metro e cinquenta e seis! -, peidei-me tantas vezes como as que Isaltino Morais afirmou ser um homem honesto, o que não deixou dormir os vizinhos de baixo. Foda-se! Afinal os espermatozóides não eram coxos nem atrasados mentais. Eram normalíssimos da silva. Estavam era a ser ensinados por professores incompetentes, gerados por um sistema incompetente e agora vão ser competentemente reciclados.

E o recrutamento dos formadores? Onde e como é que vai ser feito?

3 Comentários:

Às 3:10 da tarde , Blogger Teófilo M. disse...

Li, reli, vou passar aos amigos que têm os mesmos sintomas.

Eu, já desconfiava que os miúdos não eram assim tão tapados, pois ganham-me sempre nos jogos de computador, mas como não sabiam sequer quem era o abade de Jazente, depois de terem o canudo da licenciatura em Português, pensei que era a minha exagerada noção de cultura que punha a fasquia muito alta.

Já mandei um telegrama ao governo a agradecer, mas a si agradeço as boas gargalhadas que dei enquanto lia este suculento naco de bom humor.

 
Às 6:38 da tarde , Blogger rajodoas disse...

Pois é caro Luis já escrevi sobre isso
embora não tenha agradado muito aos visados, é sempre fácil aos docentes culparem a falta de aproveitamento escolar aos discentes e muitas vezes os próprios encarregados de educação que não fazem um acompanhamento devido das actividades escolares dos filhos.
Mas tal argumento caí pela base. Este post como aliás os demais escritos neste estilo contribuem para a minha boa disposição. Com um abraço do Raul

 
Às 7:59 da tarde , Blogger João Monge disse...

Tenho dois filhos.

 

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