1 de janeiro de 2007

2007

O ano de 2006 partiu a noite passada como em anos anteriores têm partido todos os que o antecederam: como mais um vencido da vida. Por ele, à entrada, se perfilaram todas as demagogias e todas as esperanças balofas, arroladas nos manuais de uma qualquer surrealista ciência política. Como sempre, prometeu-se a abundância desbaratando recursos em projectos loucos e de loucos. Salientou-se a crise, invocou-se a capacidade que nunca houve, o método que sempre faltou. Com um estranho conceito de civilização e de justiça o ano velho pendurou pelo pescoço Saddam Hussein e exibiu-o horas a fio nas cadeias de televisão. Da mesma forma cruel e muito mais ética que, por falta de televisão, utilizou D. Pedro em relação aos assassinos confessos da sua amante.

O ano novo chegou, com todo o ministério patrioticamente entregue ao trabalho e à cadência do um, dois, três da valsa vienense. Tudo, como sempre se promete, vai mudar, ou vai mudando, ou mudou mesmo ao sabor das doze passas de uva e da taça de espumante. Do preço dos combustíveis, ao custo da electricidade, da avença do Dr Vitorino aos honorários do Dr Santana, do desapoio institucional do Dr Cavaco ao engenheiro Sócrates. Das portagens às contribuições estatais para a saúde dos que não têm recursos para a pagar. O governo, patrioticamente ainda, fomenta a coima e diz que aumenta a receita fiscal. O cidadão, portador de um qualquer cartão único com que se identifica, com que vota quando e em quem o deixam votar, com que conduz automóveis, mesmo à velocidade excessiva a que o ministro da economia voa em defesa da pátria, vê-se reduzido a um só número. De muitos dígitos mas primo, não divisível por coisa nenhuma e, mesmo que o fosse, não o seria certamente por uma boa causa ou por uma boa razão.

O único jornal diário cuja edição se não perdeu nas voltas do reveillon e ao ritmo do jive, enaltece a nomeação da Dra Maria José Morgado para presidente da comissão de arbitragem da liga de clubes, o major Valentim acha que o facto irá contribuir em muito para a subida dos preços do presunto de Chaves e o seu filho está convicto de que os atletas do clube de dirige por hereditariedade, irão aprender a andar de bicicleta mais depressa do que os porcos que poluem a ribeira dos milagres. Paralelemante anuncia que o governo fomenta a construção conjunta de creches para a infância e de asilos para os velhos. Enquanto isso não faz filhos e reduz quase a zero os índices de natalidade. Quanto aos velhos, esquece ostensivamente o que com eles aprendeu, rouba-os nas pensões de miséria e abandona-os em campos de concentração, esperando pela morte e pela hipocrisia do sermão do padre na missa de corpo presente. Enquanto emite portarias a promover a construção conjunta de lares e de creches, o que facilita enormemente o crescimento saudável dos velhos e a morte prematura dos jovens. Mais do que isso, facilita o recurso ao "outsourcing" - seja lá isso aquilo que for! - e a economia que resulta da utilização corporativa de factores logísticos. Doravante, a troco do rendimento disponível e do endividamento das famílias, será possível nascer, esperar, e morrer no mesmo local. Onde um magarefe dirigirá, cientificamente, estabelecimentos que o estado subsidiará miseravelmente e de onde limpará as mãos, invocando a sociedade civil e os interesses dos grupois Mello e Espírito Santo!

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