25 de abril de 2012

25 de abril – 38 anos depois


Portugal é este sítio encavalitado no promontório do Cabo da Roca, aqui no cu de judas da Europa, a quem os “mercados” cortaram o crédito por má conduta e falta de pagamento e a quem uma coisa chamada troica vai emprestando alguns euros, a taxas de juros de agiota profissional e servindo de tutor, como tem de ser feito aos declarados juridicamente incapazes. Apesar disso vai-se reclamando de país, de democracia e de estado de direito.

E de facto o sítio tem uma constituição e os habituais orgãos de soberania. A constituição tem tido as costas largas e sido, na palavra sábia de quem a redigiu e a fez aprovar, o entrave ao crescimento económico e ao enriquecimento dos que já eram ricos com a constituição do Portugal uno e indivísivel, aprovada em Santa Comba Dão, e hoje, apesar de tudo, o são ainda mais. Dos orgãos de soberania pouco se sabe do que fazem e nada se sabe sobre para que servem. Ou, de outra maneira, fazem muito pouco e não  servem para nada.

Desde logo, a presidência da república. Que a sensatez perversa do acordo ortográfico levou a que se escrevesse com minúsculas, à exata dimensão da sua importância. Tem sido, por sistema, um cargo ocupado por gente reformada, forçada pela exiguidade das pensões a socorrer-se de um extra que ajude a pagar a conta da eletricidade, produzida em Espanha. Uma vez por ano o palácio é aberto ao público – entendendo-se por público duas dúzias de criancinhas e respetivos progenitores – para que possam verificar o verniz dos soalhos, o estuque dos tectos e a mudança dos cortinados. E olhar de soslaio para o fato (terno, para os nossos irmãos de Vera Cruz) coçado do presidente, com as calças curtas, os sapatos cambados e o equilátero nó de gravata feito há anos para lá do canal da Mancha e para o garbo da D. Maria, também respondendo por primeira dama.

A Assembleia da República, porque o regime se diz republicano na voz do Dr. Soares que anda há mais de 80 anos a tentar fazer-se ouvir e a acumular fortuna. E cujo nome se escreve com maiúsculas não pelo que valem os deputados mas apenas pelo número deles: 230, fora chefes de gabinete, assessores, administrativos, motoristas e respetivos ajudantes. A maioria dos deputados completa um mandato sem dizer uma palavra, muito menos sem a tentar escrever, e sem ter uma ideia que não seja para a negociata e para a trapaça. A grande maioria passa as sessões plenárias a ler or jornais desportivos, a passar pelas brasas, a jogar ao “solitaire” quando a instrução é superior e a faltar ou a sair mais cedo, a pretexto do trabalho político. Sempre feito em restaurantes recomendados pelos guias gastronómicos e nunca no contacto com as abjetas populações que os elegeram e que, muitas vezes, nem ao sábado tomam banho. Por falta de dinheiro para pagar a conta da água e comprar uma barra de sabão azul.

O governo, que deve ser escrito com minúsculas, talvez Arial tamanho 6 ou 7, e de forma abreviada, para poupar no abecedário e passar no exame trimestral da troica, sobre a austeridade e os afluentes do Mondego. É uma sucessão alternada de Santos e Pecadores sem que ninguém saiba um nota de música, mas que se vão revezando no palco, como personagens burlescas do Sr. La Féria, que aspira a produzir um espetáculo musical com os Lusíadas, levá-lo à cena no casino, convidar o ministério para a estreia e pregar o calote aos fornecedores, para não fugir à regra e manter a estabilidade dos atrasos nos pagamentos. O governo tem ministros esforçados, que são ou foram trabalhadores estudantes, fazem exames académicos aos domingos, licenciam centros comerciais na barra do rio Tejo, compram submarinos que não flutuam e ainda menos submergem e os mandam subir o rio Douro, até Barca de Alva, para garantir a segurança das populações e manter o castelhano em respeito. Como D. Nuno Álvares Pereira.

Os tribunais! São os responsáveis pela administração da justiça, pelo armazenamento de toneladas de papeis velhos a que chamam processos, atados com um baraço, destinados à reciclagem. E pela captação ecológica, em baldes de plástico, da água que cai dos tetos quando chove e as Águas de Portugal se não oponham, por violação do monopólio. De resto ocupam edifícios a que a megalomania dos concelhos chama palácios e não servem literalmente para nada. A não ser para provar a inocência do Sr. Carlos Cruz, avisar a D. Fátima Felgueiras que é época de praia em Copacabana e absolver o Sr. Isaltino Morais de uma série de trafulhices entretanto prescritas. Porque, como se sabe, um ladrão – que, naturalmente, não é o caso! – como um homicida deixam de o ser passados uns anos. E o facto não impede, por elementar justiça, que se desempenhem cargos públicos, se arrecadem os respetivos proventos e se discurse nas cerimónias comemorativas do 25 de abril. Amen!

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