15 de abril de 2012

Carta ao Sr. Ministro da Virtude


O meu pai chegou hoje a casa, vindo do café, com o jornal debaixo do braço, pronto para almoçar e disse “o ministro da saúde é parvo”. Chocou-me, não porque estivesse bêbado, porque o não aparentava e porque não costuma beber de manhã, pelo menos aos domingos. Não porque chegasse meio esfomeado, isso já é habitual, a minha mãe apressa-se na cozinha, mal deixa ferver a couve galega do caldo verde, despeja duas conchas na tijela, corre a pôr-lha à frente. Como sempre, meteu uma colher à boca, queimou-se, disse porra. Da cozinha, em surdina, a minha mãe disse baixinho, não fosse o diabo tecê-las, não corra, vá devagar. Chocou-me sim pela falta de criatividade, como hoje se diz, porque não sei como se dizia antigamente, que ainda cá não estava e a maternidade Alfredo da Costa funcionava regularmente, respeitando domingos, feriados e turnos.

Chocou-me apenas e só pela vulgaridade como qualificou vossa excelência, um homem polivalente como exigem as sociedades modernas, globalizadas, transbordando de desempregados e de salvadores da pátria, sentados a um canto do Gambrinus com o Sr. Pulido Valente e de banqueiros falidos auferindo milhões e morando na quinta da marinha ou da força aérea, como os Srs. Ricardo Salgado e não sei quê Rendeiro. Porque vossa excelência sabe de bancos, e por isso foi ajudante daquele opus dei do BCP, sabe de finanças e de impostos e por isso fez da direção dos impostos uma empresa lucrativa e do Sr. Medina Carreira um rasteiro comentador de corridas de burros, sabe de saúde e por isso nos dá injeções no cu e de forma sensata e ousada acaba de proibir que se fume no interior de automóveis em que viagem crianças. E por mim já o vejo a pôr também a educação a gastar menos, com toda a gente a licenciar-se cedo, mesmo que seja aos fins de semana. Sem escolas degradadas e sem essa classe indigente e inútil de professores que custam um balúrdio para descerem a avenida carregando dísticos contra o governo patriótico e gritando palavras de ordem contra o Sr. Cavaco por comer bolo rei, fora de época festiva e de boca aberta como se permite à sua condição de rural do interior algarvio.

Mas acho que vossa excelência não foi tão longe quanto devia, certamente por insuficiência dos pareceres dos assessores que lhe dão apoio e que emitem os seus doutos pareceres. Permito-me sugerir-lhe, antes de mais, que selecione mais uma dúzia deles, mande mudar a todos os automóveis de que se servem e rever os limites dos cartões de crédito que utilizam nas áreas de serviço das auto estradas e nos clubes noturnos onde as noites são animadas por brasileiras, ucranianas ou mesmo russas. Que as romenas só dão para o gamanço e para pedir esmola seja onde for. Mas, mais do que isso, acho que vossa excelência deveria ter considerado os direitos e a opinião das crianças que, como eu, viajam sempre no banco de trás, sentado na cadeirinha regulamentar que o meu pai, coitado – salvo seja! – ainda anda a pagar às prestações ao continente. Não o do Sr. Alberto João mas o do Sr Belmiro de Azevedo que, com o sem circuncisão, são ambos judeus.

É que assim fico na dúvida, eu que fumo desde os cinco anos, e uma vez por outra lá vai um charro para a pedrada, se posso ou não fumar livremente dentro do automóvel do meu pai, esteja ele parado ou em andamento, com o meu pai sentado ao volante ou no lugar do morto, a mandar vir com a minha mãe que conduz mal e confunde muitas vezes o travão com a embraiagem. E o meu pai? Pode fumar se me pedir autorização?

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