2 de maio de 2012

Pingo Doce


O grupo económico a que pertence a cadeia de lojas Pingo Doce é controlado por Alexandre Soares dos Santos, um dos três portugueses que figura na lista das pessoas mais ricas do mundo, editada pela revista americana Forbes. E que passou a essa situação depois de, pouco antes, o grupo ter estado, como o país, literalmente falido. Mas, como se sabe, em Portugal os milagres são oficiais desde 1917. E Nossa Senhora tanto pode escolher como local para os fazer os contrafortes da serra de Aire como a rua de Sá da Bandeira, no Porto. E fazê-lo ao dia 13 de qualquer mês, como ao dia 1, a começar por maio.

Depois sabe-se que os muitas vezes milionários têm hábitos estranhos e procedimentos exóticos. Podem recusar um aumento de 500 escudos a uma jovem operadora de caixa, a pretexto da profundidade da crise e da austeridade que o governo decreta. E, a seguir, viajar para as Seycheles, à custa de algumas centenas de contos, para apanhar sol no abdomem e fazer corridas como jockeys de tartarugas gigantes, à procura dos mínimos para os jogos olímpicos de Londres ou de bater o recorde anteriormente estabelecido por Mário Soares. Um desportista, um poliglota e um empenhado militante da sesta e do socialismo na gaveta.

Ainda há pouco Soares dos Santos tinha surpreendido quem anda a dormir e ainda acredita no pai Natal, mudando a sede do grupo para a Holanda. Logo o inumerável conjunto de comentadores de economia, professores de direito, incluindo canónico, e chefes das comissões de trabalhadores que ainda restam, se apressou a explicar primeiro e a vociferar depois. Alegando que tal mudança visava apenas fugir aos impostos em Portugal onde, por tradição, quem os deve suportar são os trabalhadores, com exclusão de Américo Amorim, que está isento por incapacidade permanente. Duvidando miseravelmente do patriotismo do senhor dos Santos e da sua devoção à bolsa de valores, às ideias de Medina Carreira e ao senhor cardeal patriarca. Quando, de facto, ele apenas é um irredutível monárquico – um rei-sol no seio do seu grupo! – que admira os coloridos campos de tulipas e acha um piadão à malta que se ganza livremente pelas praças de Amesterdão e se espoja pelos pavimentos fazendo sexo e bebendo cerveja.

Ontem dos Santos decidiu-se por se juntar aos trabalhadores e comemorar com eles o primeiro de maio lançando, sem a publicidade do “venha cá” a que nos habituou, uma promoção original que, se tivesse Otelo à frente, teria resultado numa revolução dos bróculos e na fácil tomada do poder, com Passos Coelho a correr, sem gravata e de calças na mão, a acolher-se ao quartel do Carmo e à proteção do sargento de dia. E tal foi recolher das prateleiras tudo o que se quisesse, cujo valor total ultrapassasse os 100 euros e deixar nas caixas apenas metade, beneficiando de um desconto de 50 por cento. Parece que houve correrias, gritos, atropelos, insultos – exceto ao dos Santos e excelsa família! – empurrões e porrada. E os felizes contemplados lá regressaram a casa com o carro agoujado ao peso dos mantimentos para o mês, de inúteis traquitanas que o Pingo Doce tinha como monos nos fundos dos armazéns e de embalagens de areia para a higiene dos gatinhos domésticos.

Hoje a ASAE, acrónimo para Autoridade de Segurança Alimentar e Económica anunciou, formalmente e com a solenidade que o acto requeria, que o procedimento do Pingo Doce vai ser investigado, no sentido de verificar se indicia alguma irregularidade. Certamente destacou para isso uma numerosa e competente equipa de técnicos e advertiu que a investigação era complexa e, em consequência, longa e demorada. Advertência desnecessária porque em Portugal, excetuando os processos da Casa Pia, do Apito Dourado e do Isaltino Morais, todas as investigações são complexas, longas e demoradas. Mas, para memória futura, importa que conste e que fique registado. Um qualquer tetraneto de José Hermano Saraiva pode querer fazer com isso um qualquer programa da TV Rural...

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