27 de fevereiro de 2013

Estão zero graus


Estão zero graus. Deve ser madrugada e o termómetro vagueia pelo frio noturno, acima de zero, abaixo de zero. Penso que me acolho à tranquilidade morna dos teus braços, onde adormeço a memória de ter falhado todos os caminhos e errado todos os percursos. Suponho admirar a serenidade aparente com que dormes e com que ignoras este desatino em que tenho andado à deriva, neste mar imenso de onde nunca se divisa terra e onde não chegam barcos nascidos das profundezas do oceano.


Mas sabes, a noite cruza-se com a madrugada, mesmo que ambas partilhem horários e coordenadas. Como a amizade se cruza com o amor que se julga e com o desdém que se sente, entre o pôr do sol e o nascer discreto da lua nova. Mesmo quando estão zero graus, a neve acumula se nos cumes das cordilheiras e os corpos transpiram só de sentir que, afinal, o equador é apenas uma linha imaginária onde o tempo aquece e o mar repousa à sombra tropical das palmeiras. As casuarinas da praia acenam ao sabor da mais suave brisa, não há vento nem paixão que lhes modifique os hábitos e os destinos. Tão certo como Benguela, um nome mítico, estar povoada de acácias rubras que é preciso ver de perto para acreditar que existem.

Mais fácil do que querer é ter uma rosa dos ventos que rode com a velocidade de um catavento, sem se deter em nenhum dos pontos cardeais e sem saber nunca de que lado vem o vento sul. É ter uma bússola que não encontra o norte e cujo ponteiro aponta para o mar alto, onde ninguém o procura, e de certeza o não encontra, no acaso fortuito de dois dias. Difícil mesmo é saber que o sol nasce sempre a oriente, mesmo que Pessoa o não escreva nos poemas. É saber que, por mais voltas que dê, a bússola acaba sempre por apontar a norte, seja ele real ou magnético. Complicado é não ter norte, complicado é não saber de onde sopra o vento!


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