29 de março de 2013

Dia de nevoeiro


É manhã de sexta feira, dia feriado, as ruas desertas, a chuva intermitente, a água escorrendo pelas paredes, pelos vidros, pelos corpos. Um nevoeiro persistente e às vezes leve, ocultando apenas o que lhe interessa, a primavera atrasada, os telhados encharcados, os portais das entradas. Quase a tacto, um café com as mesas vazias e o chão limpo, como se ninguém hoje ainda tivesse dado com ele e ousado entrar para um café. Não há nevoeiro lá dentro, apenas o desconforto da excessiva ordem das coisas, nem papeis ou lixo pelo chão, os tampos das mesas sem restos de açúcar ou pingos de café.



A televisão ligada, tudo monocromático, o roxo da quaresma pendurado nos altares das igrejas e no estuque dos tectos. O estúdio com figurantes circunspectos, a sentir que o esforço não vale a pena, os aplausos são mais vazios do que nunca, o dinheiro dos cachets arrecadado sem esforço, um pequeno complemento para as reformas de miséria, mais um quilo de arroz e um pacote de esparguete, a míngua adiada. Os apresentadores sem entusiasmo, não vale de nada tentar mudar o curso do rio, depois deste ter transbordado das margens e arrastado sucatas, utensílios e bocados humildes de vida, arrecadados ao longo de anos sempre bissextos. Para eles, em agosto, há de ser verão em qualquer sítio, uma praia deserta e de areia fina, águas verdes, a concentração de sal a arder nos olhos, a água a parecer aquecida nas panelas de ferro fundido, arrumadas junto ao calor cheiroso da lareira.

As empregadas de pé, quietas e apreensivas, nada que fazer, os rostos fechados, as luzes acesas, a China à espera dos lucros. A crise trouxe tudo o que há de pior, tem as costas largas, os maridos no desemprego, os filhos em casa à espera que a escola lhes dê uma côdea, mais do que a instrução que antigamente preparava para a vida. O ministro que não dorme porque se afirma sensível, preocupado com o estado social e o estado civil, não vá o processo de divórcio levar-lhe uma parte significativa daquilo que só ele julga ter amealhado à custa de muito e honesto trabalho. Vida ingrata, a obrigação de estar ao serviço dos outros. Se lhe sobrar tempo, depois de estar ao seu próprio serviço, vinte e quatro horas por dia, sem descanso semanal.

Amanhã é sábado de aleluia, acaba a quaresma. O tempo vai continuar igual: chuvoso, nevoento e triste, de vento soprando nas esquinas e virando contentores de lixo. Não é tempo de meteorologistas, e também já não é tempo de compasso nas ruas da cidade!

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