26 de março de 2013

Há de ser primavera


O dia mal clareou e a segunda feira abriu-se para a manhã de inverno, já em calendário de primavera. O sol arredio por sobre as nuvens escuras. Só chuva, de sol nem promessas, só o vento desabrido a açoitar as esquinas e a varrer as ruas desertas de gente. Mais um dia nesta caminhada solitária contra a vida. Vai um mar revolto e feio, galgando as rochas e espantando as gaivotas para a segurança de um abrigo em terra. Onde a chuva e o vento se vestem de nevoeiro, quando a primavera deveria explodir nos ramos altos dos plátanos.

Durante dois dias de frio polar, corrido a vento, um sol de primavera implodiu os dias de inverno a que não tem faltado a energia e encheu-nos as manhãs de um céu azul sem nuvens. Fiz-me à manhã cedo, como se acordasse entre trópicos, o sol sempre acima do horizonte, o voo dos pássaros sempre sem a tormenta dos dias cinzentos e o horizonte à dimensão fugaz dos dias curtos. Como se não houvesse o nevoeiro denso a esconder-me a luz do caminho e os degraus da porta de entrada, e o ar sereno e quente fosse um poema de amor, sem a revolta da libertação e nenhuma canção desesperada.



Porque fui deixar-te sozinha, entregue ao sono tranquilo da manhã que se aproxima, o corpo relaxado e o sonho a despertar-te, à flor da pele, como se não tivesse havido noite?  A noite foi um espaço sem tempo, uma carícia, um abraço em que nos encontramos para o sono e para o sonho, tudo tão simples como os dias que o mar nos oferece, espalhando-se pelas praias de areia fina, sem ondas, só uma espuma branca que nos afaga, as casuarinas ondulando as folhas finas mesmo onde morre a ânsia das marés. E tu ali sozinha, na minha ausência, o sono a encobrir-te a partida breve, sem distúrbio e sem distância, como se tudo fosse tão perto e eminente.

Mas melhor do que o sol brilhante da manhã fria, se o houvesse, seria a respiração serena com que me embalavas. Tantas promessas de sol quente no brilho das manhãs frias que me levavam envolto em chuva e nevoeiro. Quando eu já esperava pelo vermelho das papoilas nas bermas verdejantes das estradas.

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