24 de março de 2013

Sou um homem triste


Sou um homem triste, sempre fui um homem triste, serei sempre um homem triste. Não vale a pena escondê-lo, tentar sequer dissimulá lo, sufocar-me com a amargura com que a vida me veste cada minuto que passa. Em pequeno acolhia-me ao conforto humilde do teu regaço, a cada rara e pequena birra que os minutos sublimavam, vinha-me ao rosto um sorriso curto, um pequenino brilho nos olhos e eu sentia-me feliz no calor sereno e simples que a tua mão deixava sobre os meus cabelos. Perdi te, e ainda se me turvam os olhos quando o escrevo, porque o não aceito e nem sequer me conformo. Ninguém pode deixar perder o único afeto que tem e não o chorar, sabendo que doravante cada minuto serão horas, a vaguear pelo deserto, sem rumo e sem destino. Mesmo quando a tua presença era já coisa nenhuma, o corpo mirrado pelos anos, a voz calada pelo desgosto de quem parte, os teus destroços depositados no desconforto de uma cadeira de rodas, já só tempo de espera.


E sendo triste, muito triste, parece que sorrio quando te vejo a ti, outra idade, outra vida, um sonho de infância, e nos cruzamos por aí. E que solto o riso aberto quando me habitas o longo silêncio das noites de inverno, com a neve a misturar-se com a espuma das ondas morrendo na areia fina das praias desertas. Despertar e ver o pano descer, sem aplausos, sem pedidos para que volte ao palco, como se a vida fosse uma balada lenta e triste. E a vida, a minha vida, é uma balada lenta e triste. Sem melodia, sem ritmo, sem música nenhuma, sem os dedos ágeis e mágicos de Bebo Valdés afagando o teclado de um piano também mágico. É uma balada porque do fundo deste pessimismo em que me afogo há sempre uma esperança que emerge, que trás à superfície uma derradeira restea de sonho, uma crença inexplicável que não alimento de joelhos nas naves das igrejas, alguma coisa em que acredito e que, de facto, não vale a pena.

Ser assim triste pode não ser um drama, mas é uma fatalidade. Sou amigo de toda a gente, acredito em toda a gente, dá-me prazer poder ser útil a toda a gente, como se fosse gente. Isso não me faz alegre, mas chega a dar me a sensação de me fazer sentir feliz. De resto, não me dou comigo, não sou meu amigo, não aprovo aquilo que faço. Tudo o que fiz na vida, se fiz alguma coisa, fiz mal ou poderia ter feito melhor, e a responsabilidade é apenas e só minha. Talvez a tristeza venha também um pouco daí, nunca empurrei culpas, nunca apontei o dedo a ninguém, sempre aceitei o meu lugar nesta fila para a vida, como se fosse comprar pão, sem passar à frente fosse de quem fosse. E quando chegou a minha vez o pão tinha acabado!

Mas a tristeza embota me os sentidos, tolhe-me o pensamento, distorce me o raciocínio. Sou triste e sou ingénuo. Com uma queda admirável para o equívoco. Engano-me a propósito de tudo e de nada, qualquer um me engana, me submete, me trai, me explora. Dei de mim o que tinha e o que não tinha, menos a tristeza e a solidão dolorosa em que ela nos mergulha. Vejo bem, o que é um privilégio, mas num mundo sem cor. Fui um fumador triste, deixei de fumar e continuei a sê-lo e isso não despoluiu nenhuma consciência. Tenho sido saudável, sem problemas de saúde, e isso tem sido outro privilégio que me não roubou a tristeza e me não valeu de nada. Já não tenho tempo, nem esperança, nem persistência para trocar esta tristeza por um simples raio de sol. Não sou aquele por quem se espera. Sou cada vez mais, e apenas, aquele que também já só espera!

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