8 de janeiro de 2015

O Natal são dois dias

O Natal são dois dias a que se chega, quando se chega, por todos os outros dias de caminho agreste e íngreme, pés descalços sobre os gelos polares ou sobre as areias escaldantes dos desertos, o sofrimento vergando o dorso, a angústia presa à solidão triste e decadente de uma face velha e enrugada, a desesperança perdida no fundo dos olhos encovados, o brilho perdido na distância percorrida sem o apoio de um bastão. As civilizações modernas e solidárias, as guerras que alastram e os lucros que geram, a proclamação dos direitos do homem e da criança, uns e outros caídos mortos pela berma dos dias, à míngua de alimento e de um só gesto de humanidade.


Num ápice, o gume mortal de um ano que se festeja, champanhe de Reims em cristais de origem impronunciável, os mesmos direitos do homem e da criança, vasculhando os dejectos das mesas dos ditos mais favorecidos, à procura de um resto de alimento que lhes dê vida por mais um dia, apenas um dia de cada vez, sem paredes onde se pendurem calendários e onde os relógios de luxo presos ao pulso sejam apenas adornos desconhecidos,  estranhos e inúteis.

Há um rio de sangue que me corre pelo peito, que me sufoca, que me deixa secas todas as lágrimas tristes e silenciosas que não são mais nem rio, nem estuário, nem delta, nem do Okavango que, imenso, se perde conformado e silencioso sobre as areias do deserto que é a África inteira. Tanta gente que não teve berço nem sapatos, que não tem um pataco diário para sobreviver, que não teve um livro e um destino. E que sucumbe ao golpe letal do punhal implacável que são as doze badaladas da meia noite e uma dúzia de simbólicas passas de uva para dar sorte a quem volteia nos salões de  dança ao som de sucessos efémeros e vazios.


O Natal são dois dias, o Ano Novo são todos os outros. São nenhuns!

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