4 de novembro de 2015

A quarta-feira a descer pela escadaria

A quarta-feira a descer pela escadaria, para o adro da igreja, como se fosse domingo e a missa tivesse acabado, com o abraço fraterno para o vizinho do lado e a hostilidade do punhal escondida na manga para todos os outros em volta. As cenas bíblicas nos painéis de azulejos dispersos pelas paredes a que chega a luz filtrada e colorida dos vitrais, um Cristo sempre pregado ao cimo de uma cruz, esperando pelo arrependimento e pela ressurreição.


O céu coberto de guarda-chuvas abertos sob uma chuva pontual e certa, a caminho do inverno, sem doutrinas no horizonte, o dia sem protecção, com o sol escorrendo pelas calçadas que ainda restam pelas ruas da cidade, a noite a nascer a ocidente onde morrem todas as ideias e se enterram todas as esperanças. Um tempo óptimo para me aconchegar ao borralho, a assar castanhas na cinza que vai sobrando na lareira, enquanto me sinto tão rural como Fernando Pessoa na Brasileira do Chiado e me visto de Álvaro de Campos para ler, sem enganos e sem interrupções, uma completa Ode Triunfal dos dias claros que regressam pela primavera.

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