31 de dezembro de 2015

Alvorada de um novo ano bissexto

Aqui estou eu, levemente encostado a uma minúscula esquina do dia que corre a caminho do passado, como camélias dobradas e frágeis, caídas com a chuva teimosa das noites intermináveis de inverno. Trezentos mil sóis nascendo a ocidente, como se fossem barcos de quilhas desfeitas e leme partido, tecendo a densa escuridão da noite e encalhando nos rochedos erectos, à beira da praia, com o silêncio estridente da tripulação gritando por mar calmo e peixes vermelhos de aquário espreguiçando-se nas areias finas e reluzentes.


E tu, memória da jovem rapariguinha plantada na berma dos carreiros, virgem prostituta do palco da vida, tomando café à mesa de uma pastelaria da baixa numa manhã de domingo, o puro prazer das descobertas caindo-te do olhar pequeno e frouxo, escorrendo-te dos lábios curtos para o vazio dos seios mirrados, crescendo sobre a camada de caruma caída da sombra incompleta dos pinheiros. O verão rachado em cavacas, a golpes certeiros de machado, que hão-de crepitar nas fogueiras do infinito, enquanto dobram os sinos das igrejas e se sobrepõem os ponteiros dos relógios nas curvas apertadas e sinuosas de uma longa noite, sem estrelas e sem luar. Como o horizonte da órbita fechada em que gravita Plutão, quando chega a alvorada de um novo ano bissexto.

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