14 de dezembro de 2015

Todas as mulheres com que me cruzei

Todas as mulheres com que me cruzei na vida traziam uma tristeza líquida e azul no fundo dos olhos, pendia-lhes dos cantos da boca um verniz carmim que seguravam nas pontas dos dedos e usavam saltos altos com que se equilibravam no piso escorregadio das calçadas à chuva. Abraçavam o vento que acolhiam no universo do regaço, os cabelos soltos em desalinho como se fossem os de James Dean sulcando a estrada em cima de uma Harley-Davidson de grande potência, toda a pressa de chegar ao oceano Pacífico e sentir o sal morno das águas nas solas dos pés e debaixo da língua.


Os joelhos magros a caírem-lhe das saias curtas, prometendo a forma generosa das ancas para lá do tecido, os seios erectos segurando-lhes a elegância da silhueta e a altivez serena e sóbria do porte, como se o sol caísse a pino sem deixar sombra nenhuma, fosse ainda meio-dia e o brilho continuasse como se fosse verão além do círculo polar árctico, se é assim que a geografia o ensina e a latitude o comporta. O sonho arfando-lhes no peito ao ritmo da frequência cardíaca, como um terço que trouxessem pendurado ao pescoço, nenhum mistério lhes dissimulasse o desejo e as revelasse completas e inteiras, como se não houvesse rosário nenhum.

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