21 de dezembro de 2016

Um Natal para os meninos de África

Para os meninos de África não há pinheiros nem caruma espalhada pelo chão. O sol brilha sempre – porque, na sublime imagem de Albert Camus, em África o mar e o sol são de graça! -  e os dias são sempre iguais às noites. Em África, branco ou preto são apenas a cor da epiderme e os meninos ainda jogam à bola com uma bola de trapos. Têm um riso franco e estridente e os dentes muito brancos, sem o excesso civilizado de açúcares e de cáries. Os meninos de África andam descalços, dão topadas nas pedras dos caminhos, perdem-se no meio dos capinzais. Tomam banho no rio e secam-se nas margens, à sombra de árvores de folha perene, enquanto brincam as inocentes brincadeiras deles.

O seu horizonte vai até onde chega o seu olhar, como a miséria desumana em que crescem e a fome de que se alimentam. Procurando nos sacos do lixo deixados na beira das ruas, os restos rejeitados por estômagos fartos de kamanga e de petróleo. Os meninos de África são universais. Na ignorância a que os condenam e na fome de que apenas os salvam as intenções e os decretos. E ainda na saudável ingenuidade de se entregarem sem condições e sem competição. Atrás de rótulos inventados por quem os condena a um destino fatalista de barriga vazia e pé descalço.

Os meninos de África não conhecem essa palavra Natal e nunca ouviram falar da Lapónia. Não sabem sequer que rena é bicho, nem que o Pai Natal viaja de trenó a distribuir prendas, descendo pelas chaminés. Para eles nem o domingo é dia de descanso, é só mais um dia de fome. Com a esperança ausente, e a brincadeira desabrida dos simples, dos ingénuos, dos que não têm maldade. Nem no brilho do olhar nem na pureza imaculada de corações pequeninos e solidários. Os meninos de África não sabem o que são prendas, o que são brinquedos, o que é coração.


A sua neve não cai nos cumes das montanhas nos dias frios de inverno. A sua neve cai com um tempo tropical e uma temperatura superior a 30 graus, os corpos pingando de suor. A sua árvore de Natal é um imbondeiro gigante, emergindo grandioso e imponente no meio da savana. Com zebras, girafas, palancas e outros bichos dispersos na paisagem. E reunindo em volta todos os muitos meninos, de olhar brilhante e pés descalços. As mukuas são bolas de cristal penduradas dos ramos, faiscando à luz das estrelas. Que se colhem e se saboreiam quando se pode e se lhes chega.

Natal não seria nem árvore, nem prenda, nem brinquedo. Nem doces, nem centro comercial, nem alegria breve. Natal era só um pão para cada menino, uma caneca de água para beber. Era uma roupa simples, um sapato barato.  Uma escola, um sistema de saúde, alguns cuidados de higiene. Uma palavra meiga, um carinho, uma festa na cabeça. Um Deus, sim um Deus. Um Deus omnisciente, um Deus omnipresente. Porque todos os meninos do mundo são filhos de Deus. E os meninos esquecidos de África também!

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