30 de novembro de 2016

No escuro da noite escrevo vida

No escuro da noite escrevo vida. E escrevo morte. E nenhuma se vê. É como se te desse a mão numa sala de cinema, enquanto passa o filme. E a rapariga da fita, que não tira os olhos de nós, não consegue ver-nos. O escuro abre-nos a noite, traz-nos a ternura de mansinho, sem que ninguém veja. Não há sol nem pássaros nos meandros da noite. Fica todo o tempo para o amor e para a alvorada. E para a chuva que cai dos beirais. E para a neve que se acumula no alto das serras. Somos mais cúmplices no calor do abraço nocturno, é mais intenso o aroma que os nossos corpos libertam sob o aconchego dos lençóis que vêm da noite. Nunca os teus seios me parecem uma sedução ou um convite. São apenas uma parte de nós e nós somos apenas um. Sem bocados e sem múltiplos. Não precisamos dizer-nos nada, o silêncio do escuro é todas as vozes e todas as árvores perdendo as folhas e os frutos. As mãos cheias de tudo. Com poemas desprendendo-se-nos dos dedos. E as palavras caindo a um canto do nosso escuro absoluto. Irreversível e inteiro, sem necessidade nenhuma. Partilhando certezas pelo infinito. Despovoado de estrelas e de luzes, sem mares nem oceanos. Todos os peixes pintados de silêncio e de segredos íntimos.


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