10 de novembro de 2016

Os caracóis dos teus cabelos

O vento agita os caracóis dos teus cabelos, leva-te à boca a essência doce dos segredos com que te vestes. Um olhar vermelho, submerso no cimento azul dos passeios, passo a passo. O tempo a arrefecer pelo sol abaixo, as camélias em botão, prontas a explodir, quando o frio da neve encher o teu regaço. Mais tarde vou ler-te um poema que te cerre as pálpebras e te dê aos lábios a cor suave de todos os beijos que me recusas. Estou tão longe do mar que tenho medo de perder-te assim, sozinho, no meio dos rochedos, enquanto viajas para as planícies desertas e secas da Andaluzia.



Cada verso há-de trazer-te ao rosto o sorriso íntimo das tertúlias, pão e vinho sobre as mesas longas, os bancos corridos. Um rio de um verde obsceno, nascendo do enorme quadro pendurado na parede ao fundo da sala, como se fosse uma montanha. Uma luz nocturna soltando-se da acústica pobre de uma guitarra, um solo sem público e sem aplausos, só flores amarelas pela primavera. O enxame inteiro e atarefado, recolhendo o pólen para o mel que trazes na ponta da língua, como o gume afiado de uma faca.

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