30 de outubro de 2016

Ano comum

Olha Joaquim, quando escreves “Ano comum” deixas-me o calendário vazio de tempo. Como se não houvesse nem semanas nem meses e eu ficasse sozinho de todo, para sempre. Resta-me apenas um às vezes derradeiro dia de Fevereiro, soltando-se de uma memória doce e remota, libertando-se-me do peito curvado, como um frágil sopro de vida. E todos os anos se me enchem os olhos de um raio de sol, redondo e bissexto de espera. Vagueio por aí, sem rumo nem destino, à procura do espaço que sobre das palavras que pintaste pelos dias todos, um a um. Mas não venço nem o primeiro lanço de escadas, nem tenho corrimão a que me apoie ou patamar onde descanse para a frescura lívida da manhã. E fica o poema adiado!


Porque cada linha que escreves é um rio que salta das páginas de um livro e que preenche toda a hidrografia da paisagem. Sem me deixar margens onde possam crescer os choupos, à sombra dos quais, com persistência, eu espreite a luz. E aguarde pela floração do verso que suba pelos troncos e se ramifique por todos os ramos da copa. Que haja pássaros que ali construam os ninhos, onde nasça mais vida a cada primavera que chegue. Correndo pelo verde dos campos e erguendo-se com a corola vermelha das papoilas, esvoaçando ao vento que sopra de levante.

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