20 de outubro de 2016

Difícil é pintar as cores do vento

Difícil é pintar as cores do vento nos telhados do sono. Acordar na madrugada de uma noite longa de inverno, com um cesto de frutas de Agosto no regaço. Apanhar o voo colorido dos peixes nas águas transparentes dos recifes de coral. E sentir a distância a que dormes, na medida imensa de uma gotícula de orvalho que te repousa no olhar. O resto são folhas secas, flutuando no vácuo, libertas da atracção fatal da gravidade. Um voo que ultrapassa os muros que limitam as fronteiras da galáxia. E que nos trazem de volta aquele sol breve que se pendura no branco caiado das paredes.



Difícil é por um rio à porta de casa, correndo sob a luz mortiça do candeeiro que um diligente engenheiro camarário plantou na berma da rua. Como de fosse uma amendoeira em flor, a engravidar de frutos e de música suave nas noites rápidas de verão. E por ele navegassem, contra a corrente, todos os barcos sem lugar no cais, de mastros partidos e velas rotas, sem ninguém ao leme. A carga solta, à deriva pelo espaço alagado do convés, as mesmas cores do vento caindo das escarpas de pedra, donas do leito e das águas que não são mais do que um nevoeiro silencioso e denso.

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