28 de janeiro de 2017

Não faltes com a tua voz ao meu alvorecer

Não faltes com a tua voz ao meu alvorecer. A seguir a ti o dia pode construir-se sobre todas as coisas. A tua mão trazer ao parapeito da janela o rumo inquieto dos teus dedos. Libertar os beirais para a azáfama diligente dos teus olhos. Dar aos ponteiros do relógio o brilho do aço polido do corrimão da escada. Agasalhar a manhã que atrasa o desfile magnífico das camélias. E soltar o vento nas areias junto ao mar, onde repousa o sargaço sem apanha. Não penses nas águas que já passaram sob as pontes. Já não são nem chuva nem granizo. Só degelo, a levar os glaciares à latitude onde o equador corta o mundo em duas partes. Como se fosse uma laranja madura, sem sementes e sem sumo.



Não te escondas aquém de quanto queres, como se esperasses pela noite. A vida anda inteira pelas ruas, sem necessidade de crepúsculo. Nada adianta que te vistas, pensa na luz que se te liberta da garganta com cada pergunta que te faço. E não hesites nas respostas, porque há sempre um momento para tudo. É aí que se liberta toda a intimidade que tentas proteger. E que todas as dúvidas se desfazem. Tudo o resto são caminhos de cor, ladeados pela frescura dos aloendros. As bagas vermelhas decorando os ramos heróicos do azevinho. Enquanto persiste o frio solitário do inverno.

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